Tico, o João-de-Barro que Ouvia Todo Mundo

5 min de leituraHistorinha para dormir
Tico, o João-de-Barro que Ouvia Todo Mundo
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Na beira de uma estrada de terra vermelha, em cima de um mourão de cerca, morava um joão-de-barro chamado Tico.

Quer dizer: ainda não morava. Porque Tico tinha acabado de crescer, e todo joão-de-barro que cresce precisa fazer a própria casa.

E casa de joão-de-barro não é um ninho qualquer, de palhinha jogada. É uma casinha de verdade, redonda como um forno de pão, feita de barro, bolinha por bolinha, com porta e tudo.

Tico estava muito animado. Choveu de madrugada, e a poça da estrada amanheceu cheia daquele barro bom, grudento, vermelho-escuro.

— Hoje eu começo! — ele disse, estufando o peito.

Os conselhos

Tico carregou a primeira bolinha de barro no bico e colocou em cima do mourão.

Nem tinha terminado de ajeitar quando o Bem-te-vi pousou no arame da cerca.

— Bem-te-vi! Bem-te-vi! Vai fazer casa, é? Faz a porta bem grande, que é pra todo mundo ver que você é importante!

Tico achou uma boa ideia. Fez a porta grandona.

Aí veio Dona Rolinha, andando devagar pelo chão.

— Ai, meu filho, casa alta é perigosa. Faz baixinha, rente ao mourão, que é mais seguro.

Tico achou uma boa ideia também. Achatou o teto.

Aí veio o Sabiá, lá do pé de laranja.

— Casa baixa? Que coisa triste. Faz uma torre, Tico! Assim você canta lá de cima e a mata inteira escuta.

Tico empilhou mais barro no alto.

E por último veio o Quero-quero, gritando como sempre:

— Quero-quero! Coloca espinho em volta! Muito espinho! Pra ninguém chegar perto!

Tico enfiou uns gravetos espetados na parede.

No fim da tarde, a casa de Tico era uma coisa muito estranha. Tinha uma porta enorme, um teto achatado, uma torre torta e uns espinhos saindo pelos lados.

E, antes de o sol se pôr, fez um barulho molhado — ploft — e a casa inteira escorregou do mourão e caiu na estrada.

O avô do ipê

Tico ficou olhando o montinho de barro no chão. Deu vontade de chorar.

Então ele voou até o ipê amarelo do outro lado da estrada, onde morava o avô dele, Seu Barreiro.

Seu Barreiro era o joão-de-barro mais velho da região. As penas dele já estavam meio desbotadas, mas o olho continuava esperto.

— Vi tudo daqui de cima — disse o avô. — Você fez a casa do Bem-te-vi, a casa da Rolinha, a casa do Sabiá e a casa do Quero-quero. Só esqueceu de fazer a sua.

— Mas eles sabem mais do que eu, vô.

— Sabem fazer a casa deles. — Seu Barreiro ajeitou as penas. — Bem-te-vi faz ninho de palha no galho. Rolinha junta meia dúzia de gravetos e pronto. Nenhum deles faz casa de barro. Quem faz casa de barro somos nós.

Tico nunca tinha pensado nisso.

— E como é que faz, então?

O avô sorriu com o bico.

— Com três coisas: barro, paciência e olho no vento.

Olho no vento

No dia seguinte, antes de pegar a primeira bolinha de barro, Tico fez o que o avô ensinou. Ficou quietinho em cima do mourão, olhando.

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Olhou para onde as nuvens de chuva costumavam aparecer. Olhou para onde o capim se deitava quando ventava. Soltou uma peninha e viu para que lado ela voava.

A chuva sempre vinha do lado do morro.

Então Tico virou a porta da casa para o outro lado, o lado da estrada, onde a chuva não batia.

Depois fez uma coisa que só joão-de-barro sabe fazer: lá dentro, logo depois da porta, levantou uma paredinha, formando um corredor curto. Assim, mesmo que o vento entrasse pela porta, ele batia na parede e não chegava na caminha lá do fundo.

E aí veio a parte mais difícil: a paciência.

Porque barro molhado não aguenta barro molhado em cima. Tico colocava uma camada, esperava o sol secar, e só então colocava outra. Uma camada por vez. Dia após dia.

Os vizinhos passavam e comentavam.

— Bem-te-vi! Essa porta está virada pro lado errado!

— Obrigado — dizia Tico. E continuava.

— Que casa demorada, menino! — dizia Dona Rolinha.

— Obrigado — dizia Tico. E continuava.

Ele não ficava bravo. Só não mudava mais a casa por causa de cada conselho. Tinha aprendido a ouvir todo mundo e, depois, olhar para o vento.

O temporal

A casa ficou pronta num dia de muito calor, desses de verão, em que o céu fica pesado e o ar parece parado.

E no fim da tarde veio o temporal.

Veio do lado do morro, como sempre. O vento dobrou o capim, a chuva caiu grossa, e os galhos do pé de laranja balançavam de um lado para o outro.

Tico estava lá dentro, sequinho, quando ouviu alguém bater na porta. Quer dizer, não bater, porque porta de joão-de-barro não tem madeira. Mas ouviu uma vozinha molhada:

— Bem-te-vi… posso entrar?

Era o Bem-te-vi, encharcado. Atrás dele vinha Dona Rolinha. E, logo depois, o Sabiá, com as penas todas grudadas.

— Entra, entra — disse Tico.

Couberam todos no corredor. Apertadinhos, asa com asa, ouvindo a chuva bater no teto de barro sem conseguir entrar.

O Bem-te-vi olhou para a parede do corredor, olhou para a porta virada para o lado certo, e disse baixinho:

— Bem-te-vi… bem construído.

Todo mundo riu.

A casa que vai durar

Quando a chuva passou, Seu Barreiro veio visitar. Deu uma volta inteira na casa, bateu com o bico na parede e ouviu o som firme do barro seco.

— Essa casa vai durar muito, Tico. Muito mesmo.

— Mais que eu, vô?

— Quem sabe. Sabia que, quando um joão-de-barro faz uma casa nova, a antiga não fica abandonada? Outros passarinhos vêm morar nela. Andorinha, periquito, pardal. A sua casa ainda vai abrigar muita gente.

Tico gostou de pensar nisso.

Naquela noite, depois que todo mundo foi embora, ele se aninhou na caminha do fundo, lá depois da paredinha. Lá fora ainda pingava das folhas do ipê. O barro guardava o calorzinho do sol do dia inteiro.

E Tico dormiu ouvindo as últimas gotas caírem devagar no teto da casa que ele mesmo tinha feito, do jeito dele, com barro, paciência e olho no vento.

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