Tato, o Bicho-Pau que Ninguém Via

No fundo de um jardim, numa moita cheia de folhas, morava um bichinho muito fino e muito comprido. Chamava-se Tato.
Tato era um bicho-pau. Tinha o corpo estreito e marrom-esverdeado, as pernas compridas e as antenas finas. Parecia um galhinho de arbusto. Tão parecido que, se ficasse quieto, ninguém conseguia perceber que era um bicho.
Para Tato, aquilo era um problema.
Quero ser visto
Todos os bichos do jardim eram vistosos. A joaninha tinha as bolinhas pretas no casaquinho vermelho. A borboleta tinha asas amarelas e brilhantes. O grilo era verde-limão, e cantava alto à noite.
— Bom dia, joaninha! — dizia Tato, balançando as antenas.
Mas a joaninha passava direto, sem olhar.
— Bom dia, borboleta! — tentava ele.
Nada. A borboleta voava por cima, sem enxergá-lo.
— Será que ninguém me vê? — suspirava Tato.
Era verdade. Muitas vezes, a joaninha pousava no próprio galho onde ele estava, e nem imaginava que ali morava um amigo.
Uma tentativa
Tato decidiu mudar de jeito.
— Vou chamar atenção — disse ele. — Vou me tornar o bicho mais vistoso do jardim!
Pegou uma pétala vermelha que tinha caído no chão e a prendeu nas costas, como se fosse uma capa. Depois, colocou uma folhinha amarela na cabeça, como um chapéu.
Subiu no galho mais alto e ficou ali, de pernas abertas, esperando.
— Agora todo mundo vai me ver — pensou.
Mas uma coisa estava errada. Com a pétala vermelha e o chapéu amarelo, Tato ficava tão diferente de um galho que qualquer um podia perceber.
E foi nesse instante que apareceu uma sombra.
A sombra
Era um passarinho, de bico fino e olhos espertos, voando bem baixinho, procurando bichinhos para comer.
O coração de Tato disparou.
O passarinho pousou numa folha perto, olhando para os lados.
— Ai, ai, ai — pensou Tato, sem se mexer. — O que eu fiz?
A pétala vermelha balançava no vento. O passarinho olhou na direção dela. Tato prendeu a respiração.
A salvação
Aos poucos, Tato foi fazendo o que sabia fazer melhor. Ficou parado. Muito parado. Sem mexer nem as antenas.
E, devagarinho, a pétala foi escorregando das costas dele, e caiu no chão. O chapéu amarelo foi levado pelo vento.
Sem a pétala e sem o chapéu, ele voltou a ser um galhinho. Um galhinho fino, marrom-esverdeado, parado entre as folhas.
O passarinho olhou para o galho, olhou mais uma vez, e perdeu o interesse.
— Nada de comida aqui — disse, e saiu voando.
Tato ficou parado, ainda um tempo, até ter certeza de que o perigo tinha passado. Depois, soltou o ar, devagar.
O que ele entendeu
Ele ficou ali, imóvel, pensando.
— Eu queria ser visto — sussurrou. — Mas se me vissem tanto, hoje eu teria virado o lanche de um passarinho.
A joaninha chegou voando, assim que o passarinho foi embora.
— Tato! — disse, de olhos arregalados. — Eu nem imaginava que você estava aí! Que susto!
— Estou aqui faz tempo — disse ele, sorrindo. — Só que você nunca me via.
— Você é bom demais em se esconder. Isso é um dom!
— Um dom?
— Claro! Eu fico vermelha para avisar que não tenho gosto bom. A borboleta fica amarela para ser bonita. E você fica parecido com um galho para ficar a salvo. Cada um tem o seu jeito.
Um amigo
Tato ficou pensando naquilo.
— Mas eu queria ter amigos — disse.
— Você já tem — disse a joaninha. — Eu sou sua amiga. E agora que eu sei que você está aqui, vou passar todo dia para dar bom dia.
Dali em diante, todas as manhãs, a joaninha pousava no galho do Tato e batia um papo com ele. A borboleta, que ficou sabendo, vinha também. E o grilo, à noite, cantava pertinho dele, só para fazer companhia.
Tato descobriu que não era preciso ser visto por todo mundo. Bastava ser visto por quem importava.
Boa noite
Naquela noite, Tato ficou parado no galho, balançando devagarinho, como um galhinho ao vento. A lua apareceu entre as folhas, e o grilo começou a cantar.
Tato sentiu-se seguro e feliz.
Ele era pequeno, fino e quase invisível, mas tinha amigos que sabiam que ele estava ali. E isso era o mais importante.
Fechou os olhinhos e dormiu, balançando com a brisa, bem escondido, entre as folhas do jardim.
Boa noite, pequeno leitor. Cada um tem o seu jeitinho, e ele é perfeito do jeito que é.
O Que Achou da Historinha?
Toque nas estrelas para avaliar
O que achou desta história?
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!



