Iara, a Ariranha que Tinha Medo de Água Funda

Num rio grande e calmo, no meio do Pantanal, morava uma família de ariranhas.
A ariranha é a lontra gigante dos rios brasileiros. Tem o pelo escuro, curtinho e macio, e uma mancha clara no pescoço, que parece um colar. É uma ótima nadadora e vive sempre em grupo, junto da família.
Cada ariranha da família tinha um jeito de sentir o mundo. Mas a filhotinha chamada Iara, tinha um segredo.
O segredo da Iara
Iara adorava ficar na beira do rio, onde a água era rasa e morninha. Ali ela brincava de escorregar no barranco, de fazer bolinhas de barro e de correr atrás dos peixinhos pequenos.
Mas, quando chegava a hora de nadar para o meio, onde a água era escura e funda, a Iara parava.
— Vamos, Iara! — chamava a mamãe. — O cardume está logo ali!
— Eu vou já — dizia ela. — Só um minutinho.
E o minutinho se tornava dois, depois três, e a Iara continuava na beira.
— Por que ela não vem? — cochichavam os irmãos.
A verdade é que a Iara tinha medo. Medo de não ver o fundo. Medo de que a água a puxasse para baixo.
A família
A família da Iara era grande. Tinha o papai, a mamãe, os tios, os irmãos mais velhos e um irmãozinho da mesma idade dela.
As ariranhas fazem muito barulho. Elas assobiam, gritam e roncam umas com as outras o dia todo, para avisar onde estão. Era uma festa.
— Iara, venha pescar com a gente! — gritava o irmão.
— Já vou! — respondia ela, sem se mexer.
Iara ficava olhando de longe. Via a família mergulhar e voltar com peixes prateados na boca. Via todo mundo rindo, comendo, brincando. E sentia uma pontinha de tristeza.
A conversa
Uma tarde, a mamãe ariranha sentou na beira do rio, ao lado dela.
— Iara, eu sei que a água funda assusta você.
— Como a senhora sabe?
— Porque eu também tive medo quando era filhote.
— A senhora? — disse Iara, arregalando os olhos. — Mas a senhora nada tão bem!
— Hoje, sim. Mas o meu primeiro mergulho foi bem devagarinho. Quer tentar assim?
Iara pensou um pouco.
— Quero.
Devagarinho
A mamãe entrou na água e nadou só um pouquinho adiante, sem afastar os olhos da filha.
— Venha até aqui. Aqui a água ainda é rasa.
Iara foi. Quando chegou, viu que o chão ainda estava debaixo das patas.
— Agora venha até aqui — disse a mamãe, andando mais um pouquinho.
Iara foi também. A água subiu até a barriga. Ela sentiu o corpinho flutuar.
— Estou nadando!
— Está mesmo! — disse a mamãe. — Muito bem!
Passo a passo, a Iara foi se afastando da margem. A água foi ficando mais funda e mais fria, mas a mamãe estava sempre ali pertinho, e o papai nadava do outro lado.
O meio do rio
Chegaram ao meio. Era um lugar tão grande, tão calmo, tão bonito. A luz do sol atravessava a água, e dava para ver os peixinhos dourados nadando lá embaixo.
— Mamãe, olha! — disse Iara. — Eu consigo ver o fundo daqui!
— Claro que consegue. A água funda só parece escura de longe.
Os irmãos vieram nadando, assobiando de alegria.
— Iara chegou! Iara chegou!
Ela riu. E mergulhou, de olhos abertos, sem ter mais medo.
O primeiro peixe
Lá embaixo, a Iara viu um peixinho prateado. Foi atrás dele, dobrando o corpo, batendo o rabinho forte, como tinha visto a mamãe fazer. E, num pulo rápido, agarrou o peixe com a boca.
Voltou à superfície com ele, orgulhosa.
— Eu peguei! Eu peguei sozinha!
Todos a cercaram, assobiando e gritando. A família inteira fez a maior festa.
— Parabéns, Iara! — disse o papai. — Você é uma verdadeira ariranha!
Boa noite
Ao fim do dia, o sol se pôs, e o rio ficou cor de laranja. A família nadou de volta para a toca, na margem de barro e se enroscou num ninho macio de folhas secas, todos juntinhos.
A Iara ficou no meio, quentinha, entre a mamãe e o irmão.
Ela pensou no medo que tinha sentido, e em como ele diminuiu quando ela foi devagar, um passinho de cada vez. E sorriu.
Lá fora, o rio corria baixinho. Dentro da toca, as ariranhas roncavam, juntinhas e felizes.
Boa noite, pequeno leitor. Quando algo parece fundo demais, vá devagarinho, de mão dada com quem cuida de você.
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