Quero, o Quero-Quero que Vigiava o Campo

Num campo bem grande e bem verde, no sul do Brasil, onde o capim chega até os joelhos das vacas, vivia uma família de quero-queros.
O quero-quero é uma ave de pernas compridas e penas cinzentas, com um pequeno topete na cabeça. Mora no chão, em campos abertos, e faz o ninho ali mesmo, no meio do capim, com algumas pedrinhas e gravetos.
Tem uma coisa que todo mundo sabe sobre ele: quando alguém chega perto, o quero-quero grita. E o grito é tão alto que o campo inteiro escuta.
O filhote
Num dos ninhos, nasceu um filhote chamado Quero.
Era miudinho, de perninhas compridas e cabeça grande. Os pais cuidavam dele com muito carinho, mostrando onde achar minhocas e insetinhos.
— Papai — perguntou o Quero, certa manhã —, por que os quero-queros gritam tanto?
— É a nossa tarefa, filho — respondeu o pai. — Quando vemos alguém se aproximando, avisamos. Assim, os outros animais ficam sabendo e podem se cuidar.
— Mas gritar é feio! — disse o Quero. — Eu queria cantar bonito, como o sabiá.
O pai sorriu.
— O sabiá canta para encantar. Nós gritamos para proteger. São dois jeitos de ajudar.
O primeiro grito
O Quero ficou pensando nisso o dia inteiro.
À tarde, enquanto os pais procuravam comida, ele ficou sozinho no capim, aprendendo a ficar quieto, agachado no meio do capim, como eles tinham ensinado.
De repente, ouviu um barulho. Passos pesados, vindo devagar.
Era um cachorro-do-mato, de focinho comprido, que andava pelo campo, cheirando o chão.
O Quero ficou imóvel. O coração batia depressa. Ele abriu o bico para gritar, mas não saiu nada.
A voz
— Quero... — tentou ele, bem baixinho.
O cachorro-do-mato continuava andando, cada vez mais perto.
O Quero respirou fundo e lembrou do que o pai tinha dito. É a nossa tarefa.
— QUERO-QUERO! QUERO-QUERO! — gritou ele, com toda a força que tinha.
O grito foi tão alto que ecoou pelo campo inteiro.
O cachorro-do-mato levou um susto, parou e olhou em volta. Dali a pouco, os pais do Quero chegaram voando, gritando também, batendo as asas bem forte.
— QUERO-QUERO! QUERO-QUERO!
O cachorro-do-mato, vendo que o campo todo tinha acordado, deu meia-volta e se afastou, rápido, sem olhar para trás.
O aviso
Os grilos, que estavam quietinhos no capim, ficaram agradecidos. Um cágado, que passeava perto, escondeu a cabeça no casco e voltou a sair quando o perigo passou. Até os bois ergueram a cabeça para olhar.
— Foi o Quero quem avisou! — disse uma vaca.
— O filhote do quero-quero! — disse um sapo que espiava de uma poça.
O Quero ficou sem graça. Mas, ao mesmo tempo, sentiu um calor bom no peito.
— Pai — disse ele, quando os pais voltaram —, eu consegui!
— Conseguiu mesmo — disse a mãe, com os olhos brilhando. — E foi na hora certa.
Uma tarefa importante
Dali em diante, o Quero parou de achar que o grito dele era feio.
Todos os dias, ao entardecer, ele ficava de guarda no campo, em pé, com as perninhas bem retas e o topete arrepiado, olhando para longe. Quando via alguém chegando, gritava, e o campo todo ficava sabendo.
Os animais passaram a gostar dele e a conversar com ele de manhã.
— Bom dia, Quero! — diziam. — Tudo tranquilo hoje?
— Tudo tranquilo! — respondia ele, orgulhoso.
Boa noite
O sol foi se pondo, e o campo ficou cor de laranja e rosa.
Os quero-queros se juntaram no ninho, com o Quero no meio, bem quentinho. O vento balançava o capim, e os grilos começaram a cantar.
— Pai — disse o Quero, sonolento —, eu gostei de ser quero-quero.
— Que bom, filho — disse o pai. — O campo precisa de você.
O Quero fechou os olhinhos. E dormiu, de bico escondido nas penas, sabendo que, se alguma coisa se aproximasse, ele acordaria na hora, pronto para avisar.
Boa noite, pequeno leitor. O seu jeito de ser tem um valor que só você pode dar.
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