O Tuiuiú e o Ninho de Todo Ano

No Pantanal, quando o sol está nascendo, o céu fica cor de pêssego, a água brilha, e um pássaro enorme, branco e preto, sobe devagar nas asas abertas.
Ele tem pernas compridas, bico grosso e preto, e, no pescoço, uma faixa vermelha, como um lenço.
É o tuiuiú.
Quem vê um, nunca esquece.
A família
Nesta história, o casal de tuiuiús se chama Tuio e Tuia.
Eles moravam num ninho no topo de uma árvore alta, perto de um rio.
O ninho era enorme.
Era feito de gravetos, galhos, folhas e pedaços de capim, empilhados uns sobre os outros, tão grandes que dava para ver de longe.
Eles voltavam ao mesmo ninho todo ano, e, a cada ano, a primeira coisa que faziam era consertar.
O conserto
Quando a época da cheia estava terminando, e o tempo começava a mudar, Tuio e Tuia começaram a arrumar a casa.
Ele saía de manhã, voava devagar por cima do rio, e voltava com um graveto no bico.
Ela pegava o graveto, e o encaixava no lugar certo.
Era um trabalho de paciência.
Alguns gravetos caíam. Outros ficavam tortos. Mas, aos poucos, o ninho foi ficando mais alto, mais firme, mais forte.
A pesca
Para comer, os tuiuiús fazem uma coisa que parece estranha.
Eles andam devagar, dentro da água rasa, com o bico meio aberto, mergulhado na água.
E ficam tateando o fundo.
Quando o bico toca num peixe, tac!, fecha rapidinho.
Nem precisam enxergar. O bico sente.
O Tuio andava assim, de manhã bem cedo, com a água batendo nas pernas.
De vez em quando, levantava a cabeça, engolia o peixe, e continuava.
Além de peixe, também comia pequenos répteis e outros bichinhos da água.
Os ovos
Um dia, a Tuia botou os ovos.
Eram alguns, brancos, grandes, e ela os acomodou no centro do ninho.
Tuio e Tuia se revezavam.
Um ficava chocando, enquanto o outro saía para buscar comida.
Durante o dia, quando o sol esquentava muito, o que estava no ninho abria as asas, para fazer sombra sobre os ovos.
Foram semanas assim.
O nascimento
Numa manhã, ouviu-se um barulhinho de dentro do ovo.
Toc. Toc.
Depois de um tempo, um bico minúsculo apareceu, e saiu um filhote, pequeno e de penugem clara.
Depois, outro.
Os dois ficaram deitados no ninho, de bico aberto, piando fininho.
Tuio e Tuia olharam, felizes.
Aquele ninho de gravetos, que eles tinham arrumado com tanto cuidado, agora tinha vida.
A comida
Os filhotes comiam muito.
Os pais saíam voando o dia inteiro, buscavam peixes, engoliam, voltavam e, no ninho, colocavam a comida na frente dos filhotes, que pegavam com o bico.
Todo dia, a mesma coisa.
Voar, pescar, voltar.
Em pouco tempo, os filhotes foram crescendo, ganhando penas, e ficando mais fortes.
A tarde de vento
Uma tarde, o vento soprou forte.
O céu escureceu e a árvore começou a balançar.
Os filhotes se apertaram no meio do ninho, assustados.
Mas o ninho, feito de tantos gravetos bem encaixados, não se mexeu.
Tuio e Tuia ficaram em pé nas bordas, com as asas semiabertas, protegendo os filhotes.
A tempestade passou.
E o ninho continuou lá, no mesmo lugar, firme.
O primeiro voo
Algumas semanas depois, os filhotes já estavam quase do tamanho dos pais.
Eles abriam as asas, batiam, ensaiavam pulinhos na beira do ninho.
Num fim de tarde, quando o céu estava cor de laranja, o primeiro deles se jogou.
Bateu as asas, caiu um pouco, e depois subiu.
Estava voando.
O outro olhou, hesitou, e foi atrás.
Os dois voaram, devagar, por cima do rio, e os pais, de longe, ficaram olhando.
A noite
Quando o céu escureceu, os filhotes voltaram ao ninho.
Ainda precisavam dele por um tempo.
Tuio e Tuia ficaram de cada lado, e, acima deles, as estrelas começaram a aparecer.
Lá embaixo, o Pantanal brilhava, com a água refletindo o céu.
Era uma noite quieta, só com o som dos sapos e dos grilos.
E os quatro dormiram, no alto da árvore, na casa que tinha sido construída, galho por galho.
De verdade
O tuiuiú existe e é a ave-símbolo do Pantanal. É uma das maiores aves voadoras da América do Sul, com mais de um metro de altura e asas abertas que passam de dois metros.
Ele faz ninhos grandes de gravetos nas copas das árvores e, em geral, volta a usá-los por vários anos, consertando todo ano.
Come peixes e outros animais pequenos que encontra na água rasa, tateando com o bico.
Os tuiuiús são aves protegidas e ainda são vistos com frequência no Pantanal, mas dependem de rios e áreas alagadas saudáveis para pescar e criar os filhotes.
Os nomes Tuio e Tuia e as cenas do ninho são invenção desta história. Os fatos sobre o bico, a pesca e o ninho são reais.
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