O Beija-Flor e o Incêndio na Floresta

Num cantinho do mundo, bem no meio de uma floresta enorme, vivia um monte de bichos.
Tinha onça, tinha tucano, tinha macaco e anta, tinha tatu e uma porção de passarinhos.
E, entre eles, vivia o menorzinho de todos: o beija-flor.
Ele era tão pequeno que muita gente, no começo, nem reparava que ele estava ali.
O barulho
Numa tarde muito quente e seca, a floresta de repente começou a cheirar a fumaça.
Lá longe, uma faísca tinha pegado numa folha seca.
E, em pouco tempo, o fogo estava crescendo.
Os bichos saíram correndo, cada um para um lado, assustados. A onça, a anta, o macaco, o tucano, todos eles.
Foram parar na beira de um rio largo, onde o fogo não alcançava.
E ficaram ali, quietos, olhando a floresta lá longe, com chamas alaranjadas aparecendo entre as árvores.
O menorzinho
Todos pararam, olharam.
Todos pensaram a mesma coisa: que pena. Não tem o que fazer.
Menos um.
O beija-flor deu uma olhada para o rio. Depois olhou para a floresta.
Mergulhou o bico na água, pegou uma gotinha, e saiu voando de volta, em direção ao fogo.
A gotinha
Lá em cima, bem perto das chamas, ele soltou a gotinha.
Plic.
Aquela gota era tão pequena que se perdeu sem fazer diferença.
Mas o beija-flor não ficou olhando.
Voltou para o rio, pegou outra gota, e foi de novo.
E de novo.
E de novo.
A conversa
Um tatu, na beira do rio, viu aquilo e não aguentou.
— Beija-flor! — gritou. — O que você está fazendo? Você acha que vai apagar o fogo com isso?
O beija-flor parou, no ar, batendo as asas bem depressa.
— Sei que não vou apagar sozinho — respondeu. — Mas estou fazendo a minha parte.
E saiu voando de novo.
O tatu ficou calado.
A parte de cada um
Aos poucos, os outros bichos foram olhando uns para os outros.
O tucano, com aquele bico enorme, levou água também. Trouxe mais do que o beija-flor, e ele ficou contente de ver.
O macaco juntou folhas grandes, encheu de água e foi levando.
A anta entrou no rio, voltou toda molhada e sacudiu o corpo perto da beira da mata, onde as chamas ainda eram pequenas.
A onça e o tatu ajudaram a abrir um caminho para o fogo não passar para o outro lado.
Cada um fez o que sabia e podia.
A chuva
Perto do fim da tarde, o céu escureceu.
Uma nuvem grande veio de longe, empurrada pelo vento.
E, de repente, começou a chover.
A chuva foi caindo, devagar, depois com força, molhando as árvores, o chão, os galhos queimados.
O fogo foi diminuindo até virar só fumaça.
Ninguém sabe se foram as gotas do beija-flor, a ajuda dos outros ou a chuva que apagou o incêndio. Provavelmente, um pouco de cada.
Mas todos sabiam que, se ninguém tivesse tentado, a floresta teria perdido muito mais.
A noite
Quando o céu ficou escuro, os bichos voltaram, devagar, para a mata.
Havia muito para recuperar.
O beija-flor pousou num galho, de olhos fechados, cansado, com o peito batendo bem depressa.
Nenhum bicho disse nada. Mas, um a um, passaram por baixo do galho onde ele estava e baixaram a cabeça, em silêncio, como quem diz: obrigado.
De verdade
Esta história é uma lenda, e existem muitas versões dela, contadas em vários lugares do mundo. Não se sabe quem a inventou primeiro.
Mas o beija-flor existe, e é um bicho cheio de coisas incríveis.
Ele só vive nas Américas. Muitos pesam menos que uma moeda de um real.
Bate as asas dezenas de vezes por segundo, tão depressa que a gente só enxerga um borrão. É por isso que ele consegue ficar parado no ar, de frente para uma flor, e até voar de costas, o que quase nenhum outro passarinho faz.
Ele se alimenta do néctar das flores e, sem querer, leva pólen de uma para outra. Sem os beija-flores, muitas plantas teriam dificuldade para dar frutos.
Quanto ao fogo, é melhor deixar essa parte para os adultos: se alguém vir fumaça ou fogo na mata, o certo é chamar os bombeiros e ficar longe.
Mas a lição da lenda vale para qualquer tamanho de problema.
Ninguém consegue fazer tudo.
Mas todo mundo consegue fazer a sua parte.
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