O Pinguim-Imperador que Guardou o Ovo nos Pés

No fim do mundo, onde o chão é de gelo e o vento é frio como poucas coisas na Terra, vive um pássaro que não voa.
Ele é grande, tem as costas pretas, o peito branco e um pescoço amarelo, como se alguém tivesse pintado com uma gota de sol.
É o pinguim-imperador.
Nesta história, um deles se chama Bruno.
O mar
O Bruno vivia no mar, perto da Antártida.
Era um ótimo nadador. Nadava rápido, mergulhava fundo e comia peixe, lula e uns bichinhos pequenos chamados krill.
Quando chegava o outono, os pinguins-imperadores saíam da água e começavam uma caminhada.
Caminhavam durante dias, em fila, pelo gelo, por dezenas de quilômetros.
Eles iam encontrar o grupo em um lugar especial, onde, todos os anos, os pinguins se reuniam para ter filhotes.
O encontro
O Bruno chegou lá com a Luna, a pinguim que ele tinha escolhido.
Estava frio. Muito frio.
O vento soprava forte, a neve girava no ar, e o céu ficava escuro quase o dia inteiro.
Mas o Bruno e a Luna estavam juntos.
Passaram dias cantando um para o outro, aprendendo a reconhecer o canto de cada um, no meio de muita gente.
O ovo
Depois de algumas semanas, a Luna botou um ovo.
Era grande, branco, e brilhava.
A Luna olhou para o ovo, depois para o Bruno.
Ela estava muito cansada. Tinha viajado muito e botar um ovo gasta muita energia.
Precisava voltar ao mar para comer, para recuperar as forças.
Mas o ovo não podia ficar sozinho no gelo, nem por um minuto: ele congelaria.
A passagem
Então, os dois fizeram uma coisa muito delicada.
A Luna empurrou o ovo, com muito cuidado, até os pés do Bruno.
O Bruno colocou o ovo em cima dos pés e o cobriu com uma dobra de pele quentinha da barriga, que fica sobre os pés.
Foi um momento difícil. Se o ovo tocasse o gelo por alguns instantes, ficaria frio demais.
Mas deu certo.
O ovo estava seguro.
A Luna olhou para o Bruno e fez um barulhinho baixo.
Depois foi embora, andando devagar, de volta para o mar.
A espera
O Bruno ficou.
Ficou em pé, quieto, com o ovo nos pés, no meio do gelo.
Não podia sair para comer. Não podia se mexer muito.
O vento soprava, a neve batia, o frio era tão grande que parecia que o ar ia congelar.
Mas ele não estava sozinho.
À sua volta, centenas de outros pais faziam exatamente a mesma coisa.
O abraço
Para se aquecer, os pinguins fizeram uma coisa muito esperta.
Foram chegando perto uns dos outros, até formarem um grande grupo, apertado, de bicos para dentro.
E, devagarzinho, começaram a se mexer.
Os que estavam na borda, onde o vento batia mais forte, iam para o meio. Os do meio iam para a borda.
Assim, todo mundo tinha a sua vez de ficar no quentinho.
O Bruno se aproximou, com o ovo nos pés, e se juntou ao grupo.
Passaram as semanas.
A noite longa
Foram quase dois meses de espera.
O Bruno não comeu nada. Perdeu muito peso, e a barriga foi ficando mais fina.
Mas continuou em pé, olhando o ovo, às vezes balançando um pouquinho para cima e para baixo.
À noite, o céu se iluminava com luzes verdes e rosadas, que dançavam lá no alto.
O Bruno olhava, em silêncio.
E, debaixo dele, bem lá no fundo do ovo, alguma coisa começou a se mexer.
O nascimento
Num dia de vento mais calmo, o ovo estalou.
Toc. Toc.
Uma rachadura apareceu, depois outra.
E, devagar, saiu uma cabecinha pequena, coberta de penugem cinza, de olhos fechados.
O Bruno olhou para o filhote, emocionado.
Ele passou o filhote para cima dos pés, para ficar quentinho.
Mas o Bruno estava sem forças. Tinha passado muitos dias sem comer.
Foi então que, de longe, ele ouviu um canto conhecido.
A volta da Luna
Era a Luna.
Voltava do mar, com a barriga cheia de comida, andando devagar pelo gelo.
Ela chamou, e o Bruno respondeu.
Os dois se encontraram no meio de tantos pinguins, e se reconheceram pelo canto.
A Luna olhou para o filhote e, com um bocado de comida que tinha guardado no estômago, deu a ele a primeira refeição.
O Bruno sorriu, cansado.
Tinha cumprido a sua parte.
A troca
Agora era a vez da Luna ficar com o filhote.
O Bruno passou o pequeno para os pés dela, devagar.
Depois foi andando, com as últimas forças, de volta ao mar, onde teria muito peixe para comer.
Ele ia voltar. Ia trazer comida para o filhote.
E, quando chegou na beira do gelo, olhou para trás, uma última vez, para a Luna e o filhote juntinhos.
Depois mergulhou na água escura, azul, cheia de vida.
De verdade
O pinguim-imperador existe e é a maior espécie de pinguim do mundo.
Ele vive na Antártida e é o único pinguim que faz seus filhotes no inverno. Quem guarda o ovo nos pés, durante mais ou menos dois meses, é o macho, que não come nesse tempo, enquanto a fêmea vai ao mar. Depois ela volta, e os pais se revezam para cuidar do filhote.
Para sobreviver ao frio, eles se juntam em grandes grupos e se movimentam devagar, trocando de lugar.
Os cientistas se preocupam com os pinguins-imperadores, porque o gelo onde eles criam os filhotes está derretendo mais cedo em alguns lugares.
Os nomes Bruno e Luna e a conversa entre eles são invenção desta história. Os fatos sobre o ovo, o frio e o revezamento são reais.
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