Nina e a Travessia das Capivaras

5 min de leituraHistorinha para dormir
Nina e a Travessia das Capivaras
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Na beira da lagoa, no meio da cidade, morava uma família de capivaras.

Eram nove ao todo. O Seu Bigode, que era o maior e o mais velho. A Dona Juca, que era a mãe de quase todo mundo. Um tio, duas tias, três capivarinhas do ano passado e uma bem pequena, que tinha nascido havia pouco tempo.

A pequena se chamava Nina.

Nina era do tamanho de um pão de forma. Tinha o pelo mais macio do que o dos outros, o focinho quadrado e uns olhinhos que ficavam bem acima da água quando ela nadava, como se fossem duas bolinhas pretas boiando.

O capim do outro lado

Do lado da lagoa onde a família morava, o capim era curto e meio duro. Já tinha sido comido demais.

Mas do outro lado da avenida, no gramado do parque, o capim era outra história: verde, macio, alto, cheiroso.

Todo fim de tarde, quando o sol ficava alaranjado, os grandes faziam a travessia.

Nina já tinha visto aquilo muitas vezes, sentada na margem, esperando. Ela ficava na margem com a Dona Juca, esperando, enquanto os grandes iam e voltavam.

Mas naquela tarde, o Seu Bigode chegou perto dela, cheirou o focinho dela e disse:

— Hoje você vai.

O coração de Nina bateu tão rápido que ela sentiu na barriga.

As três regras

Antes de sair, a Dona Juca sentou na frente de Nina e explicou.

— Presta atenção, que é só três coisas.

— Tô prestando.

— Primeira: a gente atravessa em fila. Ninguém na frente do Seu Bigode e ninguém atrás de mim. Você fica no meio.

— Tá.

— Segunda: a gente atravessa no mesmo passo. Nem mais rápido, nem mais devagar. Se um corre, todo mundo se perde.

— Tá.

— Terceira, e é a mais importante. — A Dona Juca olhou bem nos olhos dela. — Se você ouvir o apito do Seu Bigode, para na hora. Não pensa, não olha, não pergunta. Para.

Nina engoliu em seco.

— E se eu tiver medo?

— Aí você tem medo andando — disse a Dona Juca. — Medo a gente leva junto. Não deixa a gente parada.

A fila

A família foi até a beira do asfalto e parou.

Nina nunca tinha chegado tão perto da avenida. Era enorme. Preta. Quente ainda, do sol do dia inteiro. E os carros passavam fazendo um barulho que ia crescendo e depois sumia, vuuum, um atrás do outro.

O Seu Bigode ficou na frente, todo empinado, esticando o pescoço para olhar. As orelhinhas dele mexiam de um lado para o outro.

Ele esperou. Esperou mais um pouco.

E então deu um passo no asfalto.

Aconteceu uma coisa que Nina não esperava: o carro que vinha diminuiu. E parou. E o carro de trás parou também. E o do outro lado.

Os faróis acenderam. Ficou tudo quieto, só com o ronco baixinho dos motores.

— Agora — disse a Dona Juca.

No meio do caminho

A fila começou a andar.

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O asfalto era estranho debaixo das patas de Nina. Duro, quentinho, sem cheiro de terra. Ela andava olhando para as patas de trás da tia que ia na frente dela, contando passinhos, no mesmo ritmo de todo mundo.

Estava indo bem.

Foi aí que, lá longe, alguém buzinou.

Não era nem perto. Era um carro impaciente, no fim da fila, que nem estava vendo o que acontecia.

Mas o barulho entrou no ouvido de Nina como um susto, e as pernas dela fizeram uma coisa que ela não mandou: dispararam.

Nina saiu correndo.

Correu para a frente, saiu da fila, passou pela tia, passou pelo tio, e ia passar pelo Seu Bigode quando ouviu.

Bic!

Um apito curto, agudo, saindo do focinho do Seu Bigode.

E Nina parou.

Parou no meio do asfalto, com as quatro patas plantadas, sem pensar, sem olhar, sem perguntar. Exatamente como a mãe tinha mandado.

Um segundo depois, uma moto que vinha pela faixa do lado passou raspando na frente dela, zummm, e o vento da moto bagunçou o pelo do rosto dela.

Se Nina tivesse dado mais um passo, a moto teria esbarrado nela.

O outro lado

Ninguém falou nada.

O Seu Bigode só esperou a moto sumir, olhou para os dois lados de novo e recomeçou a andar. A fila se juntou de volta atrás dele, com Nina no meio, tremendo um pouquinho.

E, em poucos passos, as patas dela sentiram uma coisa fresca e macia.

Era o capim. O capim do outro lado.

Era tão alto que chegava na barriga dela. Era tão verde que parecia molhado. E o cheiro… o cheiro era de coisa doce, de mato novo, de chuva.

Nina abaixou a cabeça e deu a primeira mordida da vida dela no capim do parque.

Fechou os olhinhos.

Era muito melhor do que ela tinha imaginado.

O apito

Mais tarde, deitada de barriga cheia na grama, com o céu ficando roxo, Nina chegou perto do Seu Bigode.

— Seu Bigode.

— Hum.

— Obrigada pelo apito.

O velho não respondeu na hora. Ficou mastigando um tempo, olhando a avenida, onde os carros voltavam a passar.

— O apito é o mais fácil — ele disse afinal. — Difícil é parar.

Nina entendeu. E ficou com um pouquinho de orgulho, bem escondido, do jeito que capivara fica.

Naquela noite, a família voltou pela mesma fila, no mesmo passo, e foi dormir na margem, todos juntinhos, uns encostados nos outros como um monte de almofadas peludas.

Nina dormiu entre a mãe e uma tia, com o pelo ainda cheirando a capim novo.

E sonhou que atravessava a avenida de novo, mas dessa vez ela ia na frente, toda empinada, esticando o pescoço, com uma capivarinha bem pequena andando no meio da fila.

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