Lena, a Lagarta que Tinha Pressa de Voar

Num jardim cheio de flores, bem no meio de uma folhagem verde e macia, vivia uma lagarta chamada Lena.
Ela era gordinha, verde e cheia de listrinhas amarelas e pretas. Tinha muitas perninhas, olhos grandes e simpáticos, e um apetite enorme. Passava o dia inteiro comendo folhas.
Mas a Lena tinha um sonho.
O sonho da Lena
Todas as manhãs, a Lena olhava para o alto, onde as borboletas voavam entre as flores. Eram laranjas, amarelas, azuis, brancas. Batiam as asas, bem devagar, e pousavam nas pétalas.
— Que lindas! — suspirava ela. — Quando eu vou poder voar assim?
Ela rastejava devagarinho, de folha em folha, mexendo as perninhas, e achava aquilo muito lento.
— Eu quero voar agora! — dizia. — Não aguento mais rastejar!
O conselho
Uma manhã, uma borboleta laranja pousou ao lado da Lena, numa folha.
— Bom dia, Lena — disse ela, com uma voz doce.
— Bom dia! — disse a Lena, de olhos brilhando. — Como a senhora aprendeu a voar?
A borboleta sorriu.
— Eu também fui lagarta, sabia? Comia folhas, rastejava devagar e sonhava em voar.
— A senhora? — disse a Lena, espantada. — Mas como foi que a senhora virou borboleta?
— Com tempo — respondeu a borboleta. — Cada coisa tem a sua hora. Você precisa comer bastante, crescer, e depois descansar.
— Descansar? Eu não quero descansar! Quero voar!
— Eu sei — disse a borboleta, rindo. — Mas, às vezes, o descanso é parte da transformação.
A pressa
A Lena ficou pensando naquilo. Mas, no fundo, a pressa era maior.
— Vou tentar fazer tudo mais rápido — decidiu.
Passou a comer como nunca. Comia folhas de manhã, folhas de tarde, folhas à noite. Comeu tanto que ficou ainda mais gordinha.
Mas o que ela queria era voar, e as asas não apareciam.
— Está demorando demais! — reclamou. — Será que eu vou ser lagarta para sempre?
Nesse momento, uma joaninha que passava disse, com uma voz miúda:
— Lena, olhe para trás.
A pele
Ela olhou. A pele dela, já apertada, tinha rachado nas costas. Por baixo, havia uma pele nova, mais folgada, bem verdinha.
— Ai! — disse a Lena, assustada. — Estou rasgando!
— Não está — disse a joaninha. — Você está crescendo. Isso se chama trocar de pele. As lagartas fazem isso várias vezes.
A Lena sacudiu o corpinho, e a pele velha caiu, deixando-a mais solta e leve.
— Que sensação gostosa! — disse. — Estou maior!
— Viu? — disse a joaninha. — Cada passo conta.
A hora chegou
Os dias foram passando. A Lena comeu, cresceu, trocou de pele mais uma vez. E, certa manhã, sentiu uma vontade diferente.
Não queria mais comer. Queria subir.
Subiu, subiu, até o galho mais alto do arbusto. Lá, fez um fiozinho de seda e prendeu a ponta do corpo no galho, ficando pendurada, de cabeça para baixo.
— O que estou fazendo? — perguntou a si mesma. — Não sei, mas o meu corpo sabe.
Então, a pele dela se abriu uma última vez, e, por baixo, apareceu uma casinha verde e macia, em forma de gota. Era a crisálida.
Dentro da casinha
Lá dentro, estava escuro e quentinho. A Lena não conseguia se mexer, mas sentia, bem fundo, que estava acontecendo alguma coisa.
— Será que eu estou ficando parada? — pensou. — Será que isso vai demorar?
Os dias passaram. Lá fora, o vento balançava a crisálida de leve, como se fosse um berço. Chovia, fazia sol, anoitecia e amanhecia.
Dentro, a Lena foi se transformando, aos poucos. As perninhas foram ficando finas. Nasceram asas, bem pequeninas, dobradas, como papel de seda.
Era um trabalho silencioso, que só o tempo podia fazer.
Sair
Numa manhã, a Lena sentiu que a casinha estava apertada. Esticou o corpo, e a crisálida rachou.
Ela saiu, devagarinho, de perninhas finas, segurando-se no galho. As asas, molhadas e amassadas, pendiam como folhas dobradas.
— Estou assim, toda amassada? — disse a Lena, preocupada.
— Fique parada um pouquinho — disse uma voz conhecida. Era a borboleta laranja, que a olhava, sorrindo. — Deixe as asas secarem ao sol.
A Lena ficou ali, no galho, esperando. O sol foi esquentando, as asas foram se abrindo, esticando, secando.
E, aos poucos, apareceram as cores: laranja, preto e branco, brilhando como vitrais.
Voar
— Agora é só tentar — disse a borboleta.
A Lena respirou fundo. Abriu as asas, bem devagar. Bateu uma vez, duas vezes. E, de repente, saiu do galho.
Ela estava voando.
Subiu, subiu, até o alto do jardim, e girou no ar, de asas abertas, sentindo o vento no rosto.
— Eu consegui! — gritou. — Eu estou voando!
Pousou numa flor, e sentiu o cheirinho doce. Era tudo tão bonito.
— Valeu a pena esperar — disse, rindo. — Cada passo, cada folha, cada dia dentro da casinha. Tudo isso me trouxe até aqui.
Boa noite
Ao entardecer, a Lena voltou para o arbusto, e pousou numa folha, bem perto do lugar onde tinha sido lagarta.
Olhou para o céu cor de laranja, e depois para a lua, que subia devagar.
Pensou nas folhas que tinha comido, na pele que tinha trocado, na casinha onde tinha esperado.
— Tudo no seu tempo — sussurrou.
E fechou as asas e dormiu, bem quietinha, com o cheiro das flores ao redor.
Boa noite, pequeno leitor. Crescer leva tempo, e cada dia é um passo para chegar lá.
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