Zeca, o Pirarucu que Subia para Respirar

No fundo de um rio enorme, no meio da floresta amazônica, vivia uma família de pirarucus.
O pirarucu é um dos maiores peixes de água doce do mundo. Tem o corpo comprido, coberto de escamas grandes e prateadas, e uma faixa avermelhada perto da cauda.
Entre eles, havia um filhote chamado Zeca, ainda bem pequeno.
A família
Zeca morava num cantinho calmo do rio, perto de um trecho com muitas plantas. O pai ficava sempre por perto, nadando devagar, de olho nos filhotes.
— Fiquem juntinhos — dizia ele. — Aqui é o nosso lugar.
Zeca adorava ficar embaixo do pai, bem coladinho, sentindo o calor da água e o ritmo tranquilo do corpo grande.
Mas havia uma coisa que ele não gostava.
Subir
O pirarucu tem um jeito diferente de respirar. Além das guelras, como os outros peixes, ele tem uma espécie de pulmão. E, de tempos em tempos, precisa subir à superfície para tomar um gole de ar.
Quando a hora chegava, o pai dava uma subida lenta, bem tranquila, e voltava.
— É a vez de vocês — dizia aos filhotes.
Os irmãos de Zeca subiam, soprando bolhinhas. Mas Zeca ficava lá embaixo, escondido entre as plantas.
— Por que você não sobe? — perguntou o irmãozinho.
— Lá em cima é perigoso. Tem barulho, tem luz forte, e tem os passarinhos pescadores.
— Mas a gente precisa do ar — disse o irmão.
— Eu sei — respondeu Zeca, baixinho. — Mas eu tenho medo.
O pai percebe
O pai percebeu que Zeca estava ficando para trás. Estava mais cansado, mais devagar.
Uma tarde, ele chamou o filhote para conversar.
— Zeca, eu sei que subir dá medo. Quando eu era pequeno, eu também tinha.
— O senhor? — perguntou Zeca, espantado.
— Eu mesmo. Mas aprendi uma coisa importante. O medo não vai embora se a gente fica escondido. Ele vai diminuindo quando a gente faz o que precisa, um pouquinho de cada vez.
— E se eu me assustar lá em cima?
— Eu vou subir junto com você. Pode ficar do meu lado.
A primeira subida
Zeca tomou coragem e começou a subir ao lado do pai.
Subiu um pouquinho. A água foi ficando mais clara, mais morninha. Ele viu a luz do sol dançando em cima, em riscos dourados.
— Está vendo? — disse o pai. — É bonito, não é?
— É... é sim.
Subiu mais um pouquinho. Viu as folhas grandes das vitórias-régias, flutuando como pratos verdes. Viu uma tartaruguinha passando por cima.
E, de repente, estava na superfície.
O ar
Zeca colocou a boca para fora, e sentiu o ar fresco da tarde.
Respirou fundo. Foi uma sensação tão gostosa, como beber um copo d'água depois de brincar muito. O corpinho todo se encheu de energia.
Ele ouviu os sons da floresta: um macaco gritando ao longe, os pássaros cantando, o vento nas árvores.
Não era barulho. Era música.
Uma garça branca passou voando, e Zeca ficou olhando, de boca aberta.
— Pai, é lindo aqui em cima!
— Eu sei. Eu também acho — disse o pai, sorrindo do jeito que um pirarucu sorri.
De volta
Os dois voltaram devagar para o fundo do rio. E Zeca nadava tão leve, tão contente, que parecia que tinha ganhado asas.
Dali em diante, sempre que precisava de ar, Zeca subia sozinho. Soprava suas bolhinhas, respirava o ar da floresta, olhava a luz do sol, e descia em seguida, sem pressa.
Os irmãos ficaram admirados.
— Você não tinha medo? — perguntavam.
— Tinha — respondia Zeca. — E um pouquinho ainda tenho. Mas aprendi que dá para subir mesmo assim.
Boa noite
A noite chegou ao rio. A lua apareceu lá em cima e desenhou um caminho de prata na superfície da água.
Zeca ficou no cantinho de sempre, embaixo do pai, bem quentinho. Subiu mais uma vez, tranquilo, sentiu o ar fresco da noite, e voltou para dormir.
O rio embalou a família inteira. E os pirarucus adormeceram juntos, enquanto a floresta cantava lá fora.
Boa noite, pequeno leitor. O medo diminui quando a gente tenta, um passinho de cada vez, junto de quem cuida de você.
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