Zeca, o Pirarucu que Subia para Respirar

3 min de leituraHistorinha para dormir
Zeca, o Pirarucu que Subia para Respirar
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No fundo de um rio enorme, no meio da floresta amazônica, vivia uma família de pirarucus.

O pirarucu é um dos maiores peixes de água doce do mundo. Tem o corpo comprido, coberto de escamas grandes e prateadas, e uma faixa avermelhada perto da cauda.

Entre eles, havia um filhote chamado Zeca, ainda bem pequeno.

A família

Zeca morava num cantinho calmo do rio, perto de um trecho com muitas plantas. O pai ficava sempre por perto, nadando devagar, de olho nos filhotes.

— Fiquem juntinhos — dizia ele. — Aqui é o nosso lugar.

Zeca adorava ficar embaixo do pai, bem coladinho, sentindo o calor da água e o ritmo tranquilo do corpo grande.

Mas havia uma coisa que ele não gostava.

Subir

O pirarucu tem um jeito diferente de respirar. Além das guelras, como os outros peixes, ele tem uma espécie de pulmão. E, de tempos em tempos, precisa subir à superfície para tomar um gole de ar.

Quando a hora chegava, o pai dava uma subida lenta, bem tranquila, e voltava.

— É a vez de vocês — dizia aos filhotes.

Os irmãos de Zeca subiam, soprando bolhinhas. Mas Zeca ficava lá embaixo, escondido entre as plantas.

— Por que você não sobe? — perguntou o irmãozinho.

— Lá em cima é perigoso. Tem barulho, tem luz forte, e tem os passarinhos pescadores.

— Mas a gente precisa do ar — disse o irmão.

— Eu sei — respondeu Zeca, baixinho. — Mas eu tenho medo.

O pai percebe

O pai percebeu que Zeca estava ficando para trás. Estava mais cansado, mais devagar.

Uma tarde, ele chamou o filhote para conversar.

— Zeca, eu sei que subir dá medo. Quando eu era pequeno, eu também tinha.

— O senhor? — perguntou Zeca, espantado.

— Eu mesmo. Mas aprendi uma coisa importante. O medo não vai embora se a gente fica escondido. Ele vai diminuindo quando a gente faz o que precisa, um pouquinho de cada vez.

— E se eu me assustar lá em cima?

— Eu vou subir junto com você. Pode ficar do meu lado.

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A primeira subida

Zeca tomou coragem e começou a subir ao lado do pai.

Subiu um pouquinho. A água foi ficando mais clara, mais morninha. Ele viu a luz do sol dançando em cima, em riscos dourados.

— Está vendo? — disse o pai. — É bonito, não é?

— É... é sim.

Subiu mais um pouquinho. Viu as folhas grandes das vitórias-régias, flutuando como pratos verdes. Viu uma tartaruguinha passando por cima.

E, de repente, estava na superfície.

O ar

Zeca colocou a boca para fora, e sentiu o ar fresco da tarde.

Respirou fundo. Foi uma sensação tão gostosa, como beber um copo d'água depois de brincar muito. O corpinho todo se encheu de energia.

Ele ouviu os sons da floresta: um macaco gritando ao longe, os pássaros cantando, o vento nas árvores.

Não era barulho. Era música.

Uma garça branca passou voando, e Zeca ficou olhando, de boca aberta.

— Pai, é lindo aqui em cima!

— Eu sei. Eu também acho — disse o pai, sorrindo do jeito que um pirarucu sorri.

De volta

Os dois voltaram devagar para o fundo do rio. E Zeca nadava tão leve, tão contente, que parecia que tinha ganhado asas.

Dali em diante, sempre que precisava de ar, Zeca subia sozinho. Soprava suas bolhinhas, respirava o ar da floresta, olhava a luz do sol, e descia em seguida, sem pressa.

Os irmãos ficaram admirados.

— Você não tinha medo? — perguntavam.

— Tinha — respondia Zeca. — E um pouquinho ainda tenho. Mas aprendi que dá para subir mesmo assim.

Boa noite

A noite chegou ao rio. A lua apareceu lá em cima e desenhou um caminho de prata na superfície da água.

Zeca ficou no cantinho de sempre, embaixo do pai, bem quentinho. Subiu mais uma vez, tranquilo, sentiu o ar fresco da noite, e voltou para dormir.

O rio embalou a família inteira. E os pirarucus adormeceram juntos, enquanto a floresta cantava lá fora.

Boa noite, pequeno leitor. O medo diminui quando a gente tenta, um passinho de cada vez, junto de quem cuida de você.

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