Tainá, a Peixe-Boi que Voltou para o Rio

5 min de leituraHistorinha para dormir
Tainá, a Peixe-Boi que Voltou para o Rio
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No meio da Amazônia existe um bicho enorme e silencioso que quase ninguém vê.

É o peixe-boi.

Ele não é peixe. É um mamífero, igual a nós: respira ar, tem sangue quente e mama quando é filhote. Um adulto passa de quatrocentos quilos, mais que cinco pessoas grandes juntas, e fica o dia inteiro comendo planta dentro d'água, devagarinho, como se não tivesse pressa nenhuma no mundo.

Nesta história, o filhote se chama Tainá.

Os primeiros meses

A Tainá nasceu debaixo d'água, num lago de água escura, e a primeira coisa que a mãe fez foi empurrar ela para cima com o focinho, para ela respirar.

Peixe-boi respira pelas narinas, que ficam bem na ponta do focinho. Ele sobe, dá uma bufada rápida, enche o peito e desce de novo. Consegue ficar uns dez, quinze minutos embaixo sem subir, mas quando dorme precisa boiar de vez em quando, meio adormecido, só para respirar.

A Tainá vivia colada na mãe.

Mamava embaixo d'água, numa teta que fica escondida na base da nadadeira, parecida com uma axila. Depois foi aprendendo a comer o que a mãe comia: capim que cresce na beirada, raiz de planta aquática, folha de aguapé.

E foi aprendendo também o caminho.

Porque, no Amazonas, a água não fica parada: no tempo da cheia, o rio sobe e inunda a floresta inteira. No tempo da seca, ele desce e deixa lagos separados. Peixe-boi que não acompanha essa mudança fica preso.

O dia em que ficou sozinha

Quando a seca começou, a mãe da Tainá foi levando ela para as águas fundas.

Mas, numa manhã, elas se separaram.

Ninguém sabe direito como. Pode ter sido o barulho de um motor de barco, pode ter sido a correnteza.

A Tainá ficou num lago raso, sozinha, sem saber por onde a mãe tinha ido.

Ela chamou. Peixe-boi chama fazendo um barulhinho fino e curto, um chiado, quase um assobio, que a mãe reconhece de longe.

Ela chamou muitas vezes.

E nenhuma resposta veio.

Quem achou

Quem achou a Tainá foi um ribeirinho, o Seu Raimundo, que passou de canoa e viu aquele filhote boiando de lado, magro, no raso.

Ele sabia o que fazer, porque tinha aprendido numa reunião na comunidade: não levar para casa, não pôr em tanque de casa, não dar comida, e avisar o pessoal que cuida.

Ele remou até o posto e avisou.

No dia seguinte, chegou uma equipe de biólogos com uma maca acolchoada e uma lona molhada.

Eles pegaram a Tainá com cuidado, molhando a pele dela o tempo todo, e levaram para um centro de cuidados em Manaus.

A mamadeira

No centro, a Tainá foi morar num tanque de água morna.

E aí começou a parte mais difícil: fazer um filhote de peixe-boi aceitar mamadeira.

Os tratadores entravam na água com ela, de roupa de borracha, segurando uma mamadeira grande com leite especial, feito para bicho, porque leite de vaca faz mal para peixe-boi.

Nos primeiros dias, ela cuspiu tudo.

No quarto dia, mamou um pouquinho.

Na segunda semana, já subia para a beirada do tanque quando ouvia o barulho do balde.

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Peixe-boi filhote mama por quase dois anos. É um bicho de crescer devagar, e não tem jeito de apressar.

Os anos de tanque

A Tainá cresceu no tanque.

Passou da mamadeira para a folha. Ganhou peso. Aprendeu a arrancar aguapé com aquele focinho cheio de cerdas grossas, que ela usa quase como se fosse mão.

Ela também ganhou companhia: outros peixes-bois resgatados, uns maiores, outros menores.

Isso é importante. Bicho criado só com gente acaba achando que gente é a família dele, e aí não aprende a ser peixe-boi.

Os tratadores tomavam um cuidado esquisito para quem olha de fora: não brincavam com ela, não faziam carinho à toa, não deixavam que ela achasse que gente era coisa boa.

Porque o objetivo, desde o primeiro dia, era um só.

Devolver ela para o rio.

A preparação

Quando a Tainá completou uns três anos e já pesava bastante, mudaram ela para um lugar diferente: um lago cercado, dentro da floresta, com água escura de rio de verdade.

Era uma espécie de escola.

Ali ela aprendeu a comer só o que existe na natureza, a sentir a corrente, a se virar com a água mudando de nível.

Ela ficou nessa escola por meses, enquanto os biólogos acompanhavam.

Um dia, prenderam nela um cinto na base do rabo, com um flutuador e um rastreador dentro, que não machuca e depois solta sozinho. É assim que eles sabem para onde o bicho vai depois de solto.

O dia da volta

A soltura foi num fim de tarde, num trecho calmo de rio, longe de motor e de gente.

Eles levaram a Tainá numa maca até a beira, molhando a pele.

Abaixaram devagar.

E ela ficou parada um instante, boiando no raso, como quem não acredita.

Depois deu uma bufada, mergulhou, sumiu na água escura e não voltou mais.

Os biólogos ficaram na margem em silêncio, olhando a água.

Um deles estava chorando e fingindo que não.

Onde ela está hoje

Pelo rastreador, eles souberam que a Tainá foi subindo o rio devagar, comendo pelo caminho, parando nos lugares certos.

Semanas depois, o aparelho mostrou uma coisa que deixou todo mundo feliz: ela tinha chegado num trecho de rio onde havia outros peixes-bois.

Tinha achado o lugar certo.

Hoje a Tainá é adulta, e tem gente que diz que já foi vista com um filhote do lado — mas isso ninguém pode garantir, porque peixe-boi é discreto e vive escondido debaixo da água escura.

De verdade

A Tainá é inventada, mas tudo o que acontece com ela acontece de verdade, todo ano.

O peixe-boi-da-amazônia é o maior mamífero aquático que vive só em água doce no Brasil. Ele é manso, come planta, não ataca ninguém — e está ameaçado de extinção.

Filhotes órfãos como a Tainá aparecem todo ano, e existem centros que cuidam deles por anos até poderem voltar ao rio.

Se você um dia estiver na beira de um rio e achar um bichinho desses sozinho, o certo é o que o Seu Raimundo fez: não pegar, não dar comida, não levar para casa, e avisar alguém que saiba cuidar.

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