Polegarzinha

Era uma vez uma mulher que queria muito ter um filho.
Ela foi pedir ajuda a uma velha sábia, que deu a ela um grão de cevada e mandou plantar num vaso.
A mulher plantou e regou.
No dia seguinte, nasceu ali uma flor parecida com uma tulipa, de pétalas fechadas.
Ela chegou perto e deu um beijo na flor.
E a flor se abriu, com um estalinho.
Dentro dela, sentada no meio das pétalas, tinha uma menininha do tamanho de um polegar.
Por isso ela ganhou o nome de Polegarzinha.
A casa dela
A mulher fez para a menina o melhor quartinho do mundo.
A cama era uma casca de noz envernizada. O colchão era feito de pétalas de violeta. E a coberta era uma pétala de rosa.
De dia, a Polegarzinha brincava em cima da mesa, num prato fundo cheio de água, com uma pétala de tulipa de barquinho e dois fios de crina de cavalo de remo.
E cantava. Ela cantava com uma voz tão fininha e tão bonita que ninguém na vizinhança tinha ouvido nada igual.
O sapo
Uma noite, enquanto ela dormia na casca de noz, entrou pela janela aberta um sapo enorme e úmido.
Ele olhou aquela menininha dormindo e pensou: achei a noiva perfeita para o meu filho.
Levou a casca de noz com ela dentro e pôs tudo numa folha de vitória-régia, no meio do rio, onde ela não pudesse fugir.
Quando a Polegarzinha acordou, estava cercada de água por todos os lados.
E chorou.
Os peixinhos
Os peixinhos do rio ouviram o choro dela.
Eles ficaram com pena e resolveram fazer a única coisa que estava ao alcance deles: roeram com os dentinhos o talo da vitória-régia, até soltar.
A folha começou a descer o rio, levando a Polegarzinha, cada vez mais longe do sapo.
Uma borboleta branca passou voando e pousou perto dela. A menina tirou o cinto, amarrou uma ponta na folha e a outra na borboleta, e assim a viagem ficou mais rápida.
Quando a folha encostou na margem, a Polegarzinha desamarrou o cinto, agradeceu à borboleta e ficou vendo ela subir de volta para o sol.
O verão
Ela acabou indo parar no campo.
E ali viveu o verão inteiro.
Fez uma caminha de capim debaixo de uma folha grande de trevo, para não tomar chuva. Comia o pólen doce das flores e bebia orvalho, que é a gotinha de água que aparece nas folhas de manhã cedinho.
Foi um tempo bom.
Mas o verão acabou.
O inverno chegando
Veio o outono, as folhas caíram e o vento ficou gelado.
O vestidinho dela rasgou. As flores secaram. O trevo debaixo do qual ela morava murchou e virou um caule amarelo.
A Polegarzinha tremia tanto de frio que mal conseguia andar.
Foi então que ela chegou à porta de uma casa embaixo da terra: a toca de uma rata-do-campo.
A rata-do-campo
A dona da casa era uma rata velha, meio resmungona, mas de bom coração.
— Coitadinha — disse ela. — Entra. Pode passar o inverno aqui, se ajudar na arrumação e me contar uma história de vez em quando. Eu gosto muito de história.
E assim a Polegarzinha passou a morar na toca, quentinha, com comida guardada.
Ela varria, arrumava e contava histórias à noite.
A toupeira
A rata tinha um vizinho: uma toupeira.
Era rico, tinha um casaco de veludo preto e um corredor enorme cavado debaixo da terra, ligando a casa dele à da rata.
Ele veio visitar. Ouviu a Polegarzinha cantar. E gostou dela.
Só que a toupeira era um bicho difícil de aguentar.
Não gostava do sol, que ele chamava de coisa escandalosa. Não gostava de flor, que para ele era mato. Achava tudo lá fora um exagero.
A rata-do-campo ficou encantada com a ideia.
— Case com ele, minha filha! Você vai ter casaco de pele e comida a vida inteira!
A Polegarzinha não disse nada. Mas pensou em passar o resto da vida debaixo da terra, sem ver o sol nem uma única vez, e o coração dela apertou.
A andorinha
No corredor da toupeira, jogada no chão de terra, tinha uma andorinha caída, com as asas coladas no corpo.
— Aí está uma dessas aves barulhentas — disse a toupeira, empurrando o passarinho com a pata. — De que adianta ter asa e cantar? Quando chega o frio, morre de fome. Não pise nela, que está morta.
A Polegarzinha esperou a noite.
E voltou lá sozinha, no escuro.
Ela tinha feito um cobertor de feno seco. Cobriu a andorinha, ajeitou o feno em volta e encostou a cabeça no peito dela para se despedir.
E ouviu.
Tum. Tum. Tum.
Não estava morta. Estava congelada.
O inverno inteiro
A partir daquela noite, todas as noites, a Polegarzinha descia escondida pelo corredor.
Levava água numa pétala. Levava sementes. Ajeitava o feno. Fazia companhia.
A andorinha foi melhorando devagarinho. Contou que tinha machucado a asa num espinheiro e não conseguiu acompanhar o bando na viagem para os países quentes.
O inverno inteiro se passou assim, as duas escondidas da rata e da toupeira.
Quando a primavera chegou, a andorinha estava curada.
A Polegarzinha abriu um buraquinho no teto do corredor, e a luz entrou.
— Vem comigo! — disse a andorinha. — Você senta nas minhas costas e a gente voa para a floresta verde, para bem longe daqui.
A menina olhou para a toca da rata, que tinha cuidado dela no frio.
— Não posso. Ela ficaria magoada.
E a andorinha foi embora sozinha, cantando, céu azul acima.
O dia do casamento
O verão passou. E, no fim dele, a rata-do-campo anunciou que o casamento com a toupeira estava marcado.
A Polegarzinha teve que fiar o enxoval e costurar o vestido.
No último dia antes da festa, ela pediu uma coisa só:
— Posso sair para ver o sol uma última vez?
A rata deixou, de má vontade.
A menininha saiu da toca, olhou o céu azul, esticou os braços para o sol e disse adeus a tudo aquilo que nunca mais ia ver.
E foi aí que ela ouviu, lá em cima:
Quir-vit! Quir-vit!
Era a andorinha.
O voo
— Eu estou indo para os países quentes — disse a ave. — Vem comigo agora. Você me salvou naquele inverno.
Dessa vez a Polegarzinha não pensou duas vezes.
Sentou nas costas da andorinha, se amarrou com o cinto numa pena forte e segurou firme.
E elas voaram.
Voaram por cima de florestas e de mares, por cima de montanhas com neve no alto e de cidades pequeninas.
O ar foi ficando morno. As frutas foram ficando mais coloridas lá embaixo.
O campo de flores
A andorinha pousou num lugar de sol quente, perto de um lago azul, onde havia um palácio antigo de mármore branco com flores brancas nascendo entre as pedras.
— Aqui é a minha casa — disse ela. — Escolhe uma flor. Eu te deixo nela.
A Polegarzinha escolheu a mais bonita.
E, quando a andorinha pousou, a menina levou o maior susto da vida.
Dentro da flor tinha um menininho do tamanho exato dela, com uma coroa de ouro na cabeça e um par de asas transparentes nas costas.
Ele era o rei das flores. Em cada flor daquele campo morava um igual a ele.
O nome dela
Os dois ficaram amigos primeiro. Depois ficaram inseparáveis.
E, quando decidiram casar, todos os habitantes das flores vieram, e cada um trouxe um presente.
O melhor de todos foi um par de asinhas brancas e transparentes, que colaram nos ombros dela.
Ela ganhou asas.
E ganhou também um nome novo, que o rei das flores achou mais bonito do que Polegarzinha:
Maia.
Lá em cima, num ninho no telhado do palácio, a andorinha cantou.
Depois abriu as asas e foi embora, porque o verão estava acabando e ela tinha uma viagem longa pela frente.
Mas sempre voltava.
Este conto é de Hans Christian Andersen, da Dinamarca, publicado em 1835.
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