A Rainha da Neve

Numa cidade grande, onde as casas ficavam coladinhas umas nas outras, moravam dois amigos que se gostavam muito: um menino chamado Kai e uma menina chamada Gerda.
As casas deles eram vizinhas, e as janelas do sótão ficavam bem de frente. Entre elas, os pais tinham colocado duas caixas de madeira, cheias de roseiras. Era por ali que os dois amigos passavam de uma janela para a outra, brincando.
No verão, as rosas floresciam, vermelhas e perfumadas. No inverno, a neve caía, e os dois ficavam dentro de casa, ouvindo as histórias da vovó.
A vovó e a Rainha
Numa noite de inverno, enquanto a neve caía forte, a vovó disse:
— Lá fora está a rainha dos flocos de neve. É ela quem manda os flocos mais brancos.
— Ela vem para dentro de casa? — perguntou o Kai.
— Se vier, a gente a coloca em cima do fogão, e ela derrete.
O Kai riu. Mas, naquela noite, olhando pela janela, viu um floco de neve enorme, que foi crescendo, crescendo, até virar uma moça de brilho de gelo, de olhos brilhantes como estrelas. Ela sorriu para ele e sumiu.
O espelho
Naquela mesma época, aconteceu uma coisa estranha.
Um espelho mágico, que deixava tudo o que era bonito parecer feio, foi feito por um duende travesso. Um dia, ele escorregou das mãos do duende e quebrou em milhões de caquinhos. O vento espalhou os pedacinhos pelo mundo inteiro.
Num dia de verão, o Kai estava na janela, olhando as rosas, quando sentiu uma picada no olho e uma dor no peito.
— Ai! — disse ele. — Entrou uma coisa no meu olho. E o meu coração dói.
Eram dois caquinhos do espelho. Um tinha entrado no olho, e o outro, no coração.
O Kai mudou
A partir desse dia, o Kai ficou diferente. Parou de brincar com a Gerda. Dizia que as rosas eram feias, que a vovó era ranzinza, e que os amigos eram bobos.
A Gerda ficou muito triste.
— Kai, o que aconteceu com você?
— Nada — respondia ele, com o rosto frio. — Me deixe em paz.
No inverno seguinte, o Kai foi brincar na praça, de trenó. Um trenó grande, branco, passou por ele, conduzido por uma moça toda de branco, com um casaco de peles e uma coroa de gelo.
Era a Rainha da Neve.
— Quer andar comigo? — perguntou ela.
O Kai prendeu o trenó dele no dela. E, num instante, os dois sumiram no meio da neve, para longe, muito longe.
A procura
A Gerda esperou o Kai voltar. Esperou um dia, uma semana, um mês. Passou a primavera, e nada.
— Eu vou procurar o Kai — disse ela, enfim. — Não importa quanto tempo leve.
Calçou os sapatinhos vermelhos, pôs o chapéu e saiu pelo mundo.
No caminho, chegou a um rio largo.
— Rio, você viu o Kai? — perguntou ela. — Eu dou os meus sapatinhos vermelhos, se você me disser.
O rio balançou as ondas, como se dissesse que não sabia. A Gerda jogou os sapatinhos na água, mas o rio os devolveu à margem.
— Está bem, não faz mal — suspirou a menina. — Vou continuar.
O jardim da velhinha
A Gerda andou muito e chegou a uma casinha cercada de flores. Lá morava uma velhinha simpática, que a convidou para entrar.
— Fique aqui comigo — disse ela, penteando o cabelo da menina. — Tenho um jardim lindo, com flores de todas as estações.
A Gerda ficou. Passou dias de sol, brincando com as flores, mas, aos poucos, sentia uma saudade crescendo no peito.
Um dia, viu, no chapéu da velhinha, uma rosa pintada. E lembrou das rosas da janela.
— Kai! — disse ela. — Eu esqueci do Kai!
Saiu correndo pelo portão. Já era outono, e as folhas estavam caindo.
A rena
A Gerda caminhou, caminhou, e foi encontrando amigos pelo caminho. Um corvo contou que, na cidade vizinha, um menino parecido com o Kai tinha sido visto. Mas não era ele.
Depois, uma rena de chifres grandes ouviu a história dela, e disse:
— Eu levo você até a casa da Rainha da Neve. Fica longe, bem para o norte. Segure-se em mim.
A Gerda montou nas costas da rena. Os dois atravessaram campos, florestas, montanhas, com a neve caindo e o vento gelado soprando.
A Gerda sentia frio, mas não parava.
O palácio de gelo
Chegaram a um palácio enorme, de paredes de neve e janelas de vento, com salões brilhantes de gelo azulado. Ali, no meio do maior de todos os salões, o Kai estava sentado, sozinho, com o rosto pálido.
Ele mexia pedaços de gelo, devagarinho, tentando formar uma palavra. Mas não conseguia.
— Kai! — gritou a Gerda, correndo.
Ela o abraçou, com os olhos cheios de lágrimas.
O Kai ficou parado, frio como uma estátua.
As lágrimas
As lágrimas da Gerda caíram no peito do Kai, bem em cima do coração. E, de repente, o caquinho de espelho derreteu.
O Kai piscou, olhou para a Gerda, e começou a chorar também. As lágrimas dele lavaram o olho, e o outro caquinho saiu.
— Gerda! — disse ele, com um sorriso enorme. — É você! Que saudade!
Os dois se abraçaram, rindo e chorando.
Os pedaços de gelo, em volta, começaram a dançar de alegria. E, sozinhos, formaram a palavra que o Kai não conseguia escrever: Para sempre.
A volta
Os dois amigos voltaram para casa de mãos dadas.
Quando chegaram, a vovó os esperava na porta, com os olhos cheios de lágrimas de felicidade. Era começo de verão, e as roseiras da janela estavam todas floridas.
— Que rosas lindas! — disse o Kai.
— Elas sempre foram — disse a Gerda, rindo.
Os dois sentaram à janela, entre as flores, sentindo o cheirinho gostoso do verão que começava.
Boa noite
Naquela noite, o Kai e a Gerda foram dormir, cada um em sua casa, mas com as janelas abertas, uma de frente para a outra.
— Boa noite, Gerda — disse ele, do outro lado.
— Boa noite, Kai — disse ela.
Lá fora, as rosas balançavam, e a lua iluminava as janelas.
Boa noite, pequeno leitor. O carinho de um amigo é mais forte que o gelo mais frio.
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