Pará, o Parassaurolofo que Cantava Baixinho

Há muito, muito tempo, quando os dinossauros andavam pela Terra, havia um vale de samambaias e lagos tranquilos onde vivia um grande bando de parassaurolofos.
O parassaurolofo é um dinossauro fácil de reconhecer. Tem uma crista comprida e curva atrás da cabeça, como um tubo, que pode ser maior que uma pessoa. Os cientistas acham que essa crista era oca por dentro, e que os parassaurolofos a usavam para fazer sons, como uma corneta.
Entre eles, havia um filhote chamado Pará.
O som do Pará
A crista do Pará ainda era pequena, mas já fazia um som bem alto.
— Tuuuuuum! — soprava ele, com todas as forças.
Era um som agudo e vibrante, que ecoava pelo vale. Os passarinhos saíam voando das árvores, os sapos pulavam dentro d'água, e os dinossauros mais velhos tapavam as orelhas.
— Pará! — reclamavam. — Pode fazer um pouco menos de barulho?
Mas o Pará só queria brincar.
— Tuuuuuum! Tuuuuuum!
E ria, achando graça do eco.
Reclamações
Os dias foram passando, e o Pará continuou soprando, a qualquer hora.
De manhã cedinho, acordava todo mundo. À tarde, atrapalhava a soneca dos vizinhos. À noite, deixava os bebês de olhos arregalados.
— Esse filhote não para de fazer barulho! — dizia o tio Raul, de mau humor.
— Os meus filhotes não conseguem dormir! — dizia a tia Dora.
O Pará percebeu que os outros andavam se afastando dele, e ficou meio triste.
— Será que não posso mais cantar? — perguntou à mamãe, numa tarde.
A conversa
A mamãe sentou na beira do lago, e o Pará se aninhou ao lado dela.
— Filho, a sua crista é um presente. Com ela, você pode fazer sons que ninguém mais faz.
— Mas todo mundo reclama!
— Eles reclamam porque você solta o som sem pensar. Cada som tem a hora certa.
— Como assim?
— Quando um dinossauro quer avisar de um perigo, sopra forte. Mas, quando quer acalmar alguém, sopra baixinho.
O Pará ficou pensando.
— Baixinho? Eu nunca tentei.
Baixinho
A mamãe mostrou.
Respirou fundo e soprou pela crista, bem devagarzinho, com a boca quase fechada.
— Mmmmmm...
Era um som suave, de veludo, que parecia um abraço. O Pará fechou os olhos, e sentiu o corpo todo ficar mole, relaxado.
— Que gostoso! — disse. — Parece uma canção de ninar.
— É isso mesmo — disse a mamãe. — Agora é a sua vez.
O Pará respirou fundo e soprou. Mas saiu forte demais.
— Tuuum!
— Mais baixinho. Imagine que você está acariciando o ar.
Treinando
Ele tentou de novo. E de novo. E mais uma vez.
Na quinta tentativa, o som saiu quase como o da mamãe, só um pouquinho tremido.
— Mmmmm...
— Muito bem! — disse a mamãe. — Continue.
O Pará treinou toda a tarde, até o sol começar a baixar. O som foi ficando cada vez mais suave, e cada vez mais bonito.
— Mmmmm... mmmmm...
Os passarinhos voltaram para as árvores, atraídos pela música. Um sapinho parou de pular e ficou ouvindo.
A noite do bando
Quando a lua apareceu, o bando todo foi se deitando, em volta do lago, ao pé das samambaias. Os bebês estavam inquietos, chorando baixinho. Estava um pouco frio, e eles não conseguiam dormir.
— Que noite difícil — suspirou a tia Dora, com o filhotinho no colo. — Ele não para de chorar.
O Pará olhou para o bebê e teve uma ideia.
Aproximou-se, de levinho, e soprou, bem baixinho:
— Mmmmmm... mmmmm...
O ninar
O bebê parou de chorar e olhou para o Pará, de olhos arregalados. O som era tão suave, tão cheio de carinho, que as pálpebras dele foram ficando pesadas.
O Pará continuou, devagarinho, no mesmo ritmo.
— Mmmmmm... mmmmm...
Outros filhotes foram se aproximando, e se aninhando em volta dele. Um por um, fecharam os olhos, e adormeceram, ao som daquela música macia.
A tia Dora olhou para o Pará, com os olhos cheios de lágrimas.
— Obrigada, Pará. Você é um verdadeiro artista.
O bando agradece
No dia seguinte, o tio Raul foi o primeiro a falar.
— Pará, ontem à noite, dormi tão bem que nem acordei para o café da manhã. Foi a sua música?
— Foi — disse o Pará, meio tímido. — Mas era baixinho.
— É a melhor canção que já ouvi — disse o tio. — Pode cantar sempre que quiser.
Dali em diante, todas as noites, o Pará cantava para o bando. E, quando algum perigo se aproximava, soprava forte, para avisar. Cada som tinha a sua hora.
Boa noite
Naquela noite, a lua estava grande e redonda sobre o lago. As samambaias balançavam de leve, e os grilos cantavam.
O Pará se deitou ao lado da mamãe, e soprou, bem de levinho, a sua canção.
— Mmmmmm...
A mamãe fechou os olhos, sorrindo. Em volta, todo o bando foi adormecendo, um por um.
O Pará foi o último. A canção dele foi ficando mais baixa, mais lenta, até virar só um suspiro.
Boa noite, pequeno leitor. Cada coisa tem a sua hora: a voz forte para avisar, e a voz baixinha para ninar.
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