Os Dinossauros do Quintal da Vó Zita

5 min de leituraHistorinha para dormir
Os Dinossauros do Quintal da Vó Zita
Ads

Nico tinha uma paixão só na vida: dinossauro.

Ele sabia o nome de trinta e dois. Sabia qual comia carne e qual comia planta. Sabia que o pescoço do braquiossauro era comprido para alcançar folha alta e que o estegossauro tinha umas placas nas costas que ninguém sabe direito para que serviam.

Ele desenhava dinossauro na margem do caderno, fazia dinossauro de massinha e dormia com um tiranossauro de plástico embaixo do travesseiro, o que não era nada confortável.

Até que, numa quarta-feira, na aula de ciências, a professora falou uma frase que estragou tudo:

— E aí, há sessenta e seis milhões de anos, os dinossauros foram extintos.

A notícia ruim

Nico levantou a mão.

— Todos?

— Todos os grandes.

— Mas… não sobrou nenhum? Nem escondido? Nem no fundo do mar? Nem numa ilha bem longe?

A professora fez aquela cara de quem tem pena de dar a notícia.

— Nenhum dos grandes, Nico.

Ela ia continuar, mas bateu o sinal.

Nico passou o resto do dia calado.

A Vó Zita

De tarde, quando a mãe foi trabalhar, Nico ficou na casa da Vó Zita, como sempre.

A Vó Zita reparou na hora que tinha coisa errada, porque ele nem pediu bolacha.

— Que carinha é essa?

— Vó, os dinossauro acabaram.

— Acabaram?

— Acabaram todos. Não sobrou nenhum. Nunca mais vai ter.

A Vó Zita ficou olhando para ele por um tempo, com a colher de pau na mão.

Depois ela disse:

— Vem cá comigo.

O galinheiro

Ela pegou a vasilha do milho e levou o Nico até o fundo do quintal, onde ficava o galinheiro de madeira.

Quando as galinhas ouviram o barulho do milho na vasilha, vieram todas correndo, de pescoço esticado, dando aquele passinho apressado, cada uma tentando chegar primeiro.

— Olha essas aí — disse a Vó Zita. — Olha com atenção mesmo.

Nico olhou.

Eram as galinhas de sempre. A ruiva brava, a branca boba, a preta que bicava o chinelo dos outros, e a ninhada de pintinho amarelo atrás da mãe.

— São galinha, vó.

— Olha o pé delas.

Nico se agachou.

E, pela primeira vez na vida, ele olhou de verdade para o pé de uma galinha.

O pé

Era amarelo. Tinha quatro dedos, três para a frente e um para trás. Tinha unha na ponta de cada dedo, dura e curva, igualzinha a uma garra.

E era todo coberto de escama.

Escama seca, dura, uma encostada na outra, subindo pela perna até sumir no meio das penas.

Nico ficou de boca aberta.

— Vó… o pé dela é de dinossauro.

— Continua olhando.

Nico olhou o resto.

A galinha ruiva andou na frente dele, com a cabeça indo para a frente e para trás a cada passo. Parou. Virou a cabeça de lado e olhou para ele com um olho só, fixo, redondo, sem nenhuma expressão.

Era exatamente o olhar dos dinossauros dos desenhos.

Ads

Depois ela empinou o pescoço, deu um passo largo, esticou a garra, riscou a terra três vezes e abaixou a cabeça para bicar o que apareceu.

Nico sentiu um arrepio.

— Vó. Elas não acabaram.

O que a professora não terminou de contar

Naquela noite, Nico não dormiu direito. No dia seguinte, foi o primeiro a entrar na sala.

— Professora. As galinhas são dinossauro?

A professora abriu um sorriso enorme e largou o giz.

— Quem te contou isso?

— Minha vó.

— Sua vó tem razão.

E ela explicou para a turma inteira.

Que os dinossauros eram um monte de famílias diferentes. Que uma dessas famílias tinha pena — pena de verdade, antes mesmo de voar. Que essas eram pequenas, leves, rápidas.

Que, quando aconteceu a catástrofe que acabou com os grandes, esses pequenos emplumados conseguiram atravessar.

— E eles continuaram — disse a professora. — Mudaram de tamanho, mudaram de bico, mudaram de vida. Hoje a gente chama eles de aves.

— Então o sabiá…

— Dinossauro.

— E o pombo da praça?

— Dinossauro.

— E a galinha da minha vó?!

— Dinossauro — disse a professora, rindo. — Um dinossauro que bota ovo no galinheiro e foge quando você corre atrás.

A sala inteira caiu na gargalhada.

O quintal

Depois daquele dia, o quintal da Vó Zita virou outro lugar.

Nico passou a chamar a galinha ruiva de Ruivossauro. A branca virou Boboceratops, o que era meio injusto.

Ele ficava horas sentado no degrau, só observando: como elas caminhavam, como abriam a asa para se equilibrar na hora de subir no poleiro, como a mãe galinha juntava os pintinhos embaixo dela quando o gavião passava lá no alto.

— Vó, olha! Ela tá escondendo os pintinho embaixo da asa igual dinossauro!

— Igual galinha, menino.

— É a mesma coisa!

A Vó Zita balançava a cabeça e ria.

O bicho mais bonito do mundo

Na semana seguinte, na aula, cada criança tinha que desenhar o animal mais bonito do mundo.

Uns desenharam leão. Outros desenharam borboleta. Teve quem desenhasse unicórnio, que nem existe.

Nico desenhou uma galinha.

Uma galinha ruiva, bem grande, no meio da folha, de perfil, com a pata escamosa levantada no ar e a garra bem desenhada, riscando a terra.

Em cima, ele escreveu com letra caprichada: UM DINOSSAURO DE VERDADE.

E depois, embaixo, com letra menor, porque lembrou de uma coisa:

Mora no quintal da minha vó. Chama Ruiva. Bica.

De noite

Naquela noite, deitado na cama, Nico tirou o tiranossauro de plástico debaixo do travesseiro e colocou na prateleira, com os outros.

Não era que ele tinha parado de gostar. Era outra coisa.

Era que, agora, sempre que ele ouvia um passarinho cantar na janela de manhã cedinho, ele sabia.

Sabia que não acabou tudo.

Que sobrou um pedacinho, com pena e bico, cantando em cima do fio de luz.

E que, na hora que ele quisesse ver um dinossauro de verdade, era só ir ao quintal da Vó Zita, sentar no degrau e esperar as galinhas virem correndo atrás do milho.

Ads

O Que Achou da Historinha?

Toque nas estrelas para avaliar

O que achou desta história?

Compartilhe a Historinha:

Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!

Historinhas Relacionadas