O Rouxinol do Imperador

Há muito, muito tempo, na China, havia um palácio tão bonito que todo mundo falava dele. Era feito de porcelana fina, e dentro dele morava o imperador.
O jardim do palácio era enorme, cheio de flores com sininhos de prata presos, que tilintavam quando o vento passava. E, depois do jardim, havia uma floresta de árvores altas, que chegava até a beira do mar.
Nessa floresta vivia um passarinho.
O rouxinol
O passarinho era pequeno e simples. Tinha as penas marrons, nada de brilho, nada de cores. Era um rouxinol.
Mas, quando ele cantava, tudo ficava em silêncio.
Os pescadores, que jogavam as redes à noite, paravam o trabalho para ouvir. Os viajantes de longe, que passavam pelo palácio, voltavam para casa contando sobre aquele canto.
Os livros que falavam do palácio diziam: "O mais bonito de tudo é o rouxinol."
O imperador leu isso e ficou espantado.
— Um pássaro assim existe no meu jardim, e eu nunca o ouvi? Tragam-no aqui hoje à noite!
O convite
Os criados procuraram, procuraram, e não achavam o rouxinol. Até que uma menina da cozinha, que levava as sobras de comida para a mãe doente, disse:
— Eu sei onde ele canta. É um passarinho pequeno, e canta na beira da floresta, perto do mar.
Ela levou os criados até lá. E o rouxinol, num galho, ouviu o convite.
— Será uma honra cantar para o imperador — disse ele. — Mas o meu canto é melhor na floresta.
Mesmo assim, ele foi.
O canto
O palácio estava enfeitado com lanternas de papel e vasos de flores. O rouxinol foi colocado num poleiro de ouro, bem no meio do salão.
O imperador fez um sinal. O rouxinol abriu o bico e cantou.
A voz era tão doce, tão limpa, tão cheia de sentimento, que o imperador começou a chorar de emoção. Uma lágrima rolou pelo rosto dele e caiu no chão.
— Que presente! — disse ele. — Vou dar a você a minha chinela de ouro, para pendurar no pescoço.
— Não preciso de ouro, Majestade — respondeu o rouxinol. — As suas lágrimas já foram a minha maior recompensa.
O pássaro de ouro
Passou um tempo. Um dia, o imperador ganhou um presente de outro país.
Era um pássaro mecânico, feito de ouro, cheio de rubis, safiras e diamantes. Bastava dar corda, e ele cantava uma melodia, sempre a mesma, balançando o rabinho de pedras brilhantes.
Todo mundo ficou deslumbrado.
— Que beleza! — diziam. — Muito mais bonito que o passarinho marrom! E sempre canta igualzinho!
O rouxinol, que estava no salão, calado, ouviu tudo. E, sem dizer nada, saiu pela janela e voltou para a floresta.
O silêncio
O imperador mandou colocar o pássaro de ouro numa almofada de seda, ao lado da cama. E todos os dias, dava corda e ouvia a mesma melodia.
Com o tempo, porém, a música começou a cansar. Era sempre igual. Faltava alguma coisa.
Um dia, o mecanismo do pássaro de ouro quebrou. Um relojoeiro consertou, mas disse:
— Só poderá cantar uma vez por ano, para não gastar as engrenagens.
O palácio ficou em silêncio.
O imperador adoece
Anos passaram. O imperador, que já estava velho, ficou muito doente. Deitado na cama enorme, com a cabeça pesada e o coração triste, ele chamou:
— Música! Quero música!
Os criados deram corda ao pássaro de ouro, mas o pássaro não cantou. O mecanismo tinha quebrado de vez.
O quarto estava escuro e frio. O imperador olhava para a janela, e sentia uma saudade enorme de uma coisa que nem sabia nomear.
— Ah — suspirou ele. — Se eu pudesse ouvir aquele canto...
O retorno
Foi então que uma voz entrou pela janela aberta.
Era uma voz doce, limpa, cheia de sentimento. Lá fora, num galho perto do quarto, o pequeno rouxinol marrom cantava.
O imperador abriu os olhos, e o coração dele ficou mais leve.
O rouxinol cantou sobre o jardim, sobre o mar, sobre as pessoas que amavam o imperador. Cantou até a madrugada.
E, aos poucos, o imperador foi respirando melhor. As cores voltaram ao rosto dele.
— Obrigado, passarinho — disse ele, com a voz fraca. — Você voltou, mesmo depois de eu ter te trocado por um brinquedo.
— O meu canto é de graça, Majestade — respondeu o rouxinol. — Eu só preciso ser ouvido de coração.
Boa noite
De manhã, os criados entraram no quarto, achando que o imperador ainda estaria muito doente. Mas ele estava sentado na cama, sorrindo, de roupão.
— Bom dia — disse ele. — Hoje eu estou novo!
O rouxinol continuou morando na floresta, mas prometeu voltar todas as noites para cantar na janela do imperador. E cumpriu.
Naquela noite, o imperador deitou ouvindo o canto, e dormiu feliz, com a lua entrando pela janela e as flores de prata tilintando no jardim.
Boa noite, pequeno leitor. As coisas mais lindas nem sempre brilham. Às vezes, elas só cantam baixinho, para quem sabe ouvir.
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