O Rato do Campo e o Rato da Cidade

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Rato do Campo e o Rato da Cidade
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Num cantinho sossegado do campo, morava um ratinho de colete verde, numa toca debaixo de uma árvore velha.

Ele não tinha luxo nenhum. A casa era simples, com uma mesinha, duas cadeiras e uma cama de folhas secas. Mas era quentinha e muito tranquila.

Todos os dias, o ratinho acordava com o canto dos passarinhos, colhia grãos de trigo, comia sementes torradas e frutinhas do mato e, à tarde, descansava debaixo da sombra, ouvindo o vento nas espigas.

Uma carta

Uma manhã, o carteiro, que era um besouro de asas azuis, trouxe uma carta.

Querido primo,

Venha me visitar na cidade! Aqui tudo é grande, bonito e cheio de coisas boas. Vai adorar.

Seu primo, Ratinho da Cidade

O ratinho do campo coçou a cabeça.

— Nunca saí daqui. Mas parece interessante. Vou conhecer!

Arrumou uma maletinha, pôs um punhado de sementes para o caminho e partiu.

A cidade

A viagem foi comprida. Quando chegou, o ratinho do campo arregalou os olhos.

Havia prédios altíssimos, carros buzinando, gente andando de um lado para o outro. O barulho era tanto que ele tapou as orelhas.

— Primo! — gritou o ratinho da cidade, que usava gravata-borboleta vermelha. — Que bom que veio! Venha, vou te mostrar a minha casa.

A casa dele ficava num buraquinho na parede de um casarão enorme, cheio de tapetes macios e móveis de madeira escura.

O banquete

— Hoje vamos fazer um banquete em sua homenagem! — disse o ratinho da cidade.

E levou o primo, escondido, até a sala de jantar, onde uma mesa comprida estava cheia de sobras da festa: pedaços de bolo, queijos finos, geleias, azeitonas, biscoitos.

O ratinho do campo nunca tinha visto tanta comida.

— Coma à vontade! — disse o da cidade.

Ele pegou um pedacinho de bolo e mordeu. Estava delicioso.

Mas, de repente...

Miau!

Um gato enorme, de olhos amarelos, entrou na sala.

O susto

Os dois ratinhos correram para o buraco da parede, com o coração disparado.

— Ufa! — disse o ratinho da cidade, ofegante. — Foi por pouco!

— Isso acontece sempre? — perguntou o do campo, com a voz trêmula.

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— Quase sempre. Mas a gente se acostuma. Vamos voltar, a festa ainda não acabou!

Voltaram para a mesa. O ratinho do campo pegou uma azeitona. Nisso, a porta abriu com um estrondo, e um cachorro enorme entrou latindo.

Au! Au! Au!

De novo os dois saíram em disparada, esbarrando um no outro, até o buraco.

A decisão

Dentro da toca, o ratinho do campo se encostou na parede, tentando respirar.

— Primo — disse ele —, a sua casa é linda, e a comida é muito gostosa. Mas eu não consigo comer com tanto susto.

— É o preço da vida na cidade — disse o da cidade. — Aqui tem muito mais do que no campo.

— Pode ser — respondeu o ratinho do campo. — Mas eu prefiro as minhas sementes e as minhas frutinhas, comidos em paz, a esse banquete cheio de medo.

O primo da cidade ficou calado. Ele nunca tinha parado para pensar nisso.

A volta

O ratinho do campo se despediu com um abraço apertado.

— Obrigado por me receber. Mas vou voltar para casa.

— Vai fazer falta — disse o ratinho da cidade. — Venha me visitar de novo!

— E você venha me visitar no campo. Prometo que vai gostar.

Pegou a maletinha e voltou, devagar, olhando as estrelas. Quando chegou à toca debaixo da árvore velha, respirou fundo, sentindo o cheiro de terra, de trigo e de folhas secas.

— Que saudade eu tinha de você, minha casinha — sussurrou.

O visitante

Alguns dias depois, ouviu batidas na porta. Era o ratinho da cidade, com a gravata amassada e uma maletinha.

— Primo! Vim ver como é a vida aqui.

O ratinho do campo sorriu, abriu a porta e serviu sementes, frutinhas e um copo de leite de cabra. Depois, os dois sentaram debaixo da árvore, ouvindo o vento nas espigas e os grilos começando a cantar.

— Que silêncio gostoso — disse o primo da cidade. — Nunca ouvi tão bem os meus pensamentos.

— Pois é — disse o do campo. — Cada um tem o seu jeito. Mas eu sei qual é o meu.

Boa noite

Naquela noite, o primo da cidade dormiu na cama de folhas do ratinho do campo e achou que era a cama mais macia do mundo.

Lá fora, a lua subiu sobre o trigo, e os grilos cantaram baixinho. Ninguém buzinou, ninguém latiu, ninguém miou.

Só havia paz.

Boa noite, pequeno leitor. Um lanche simples comido em sossego vale mais que um banquete cheio de susto.

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