O Rato do Campo e o Rato da Cidade

Num cantinho sossegado do campo, morava um ratinho de colete verde, numa toca debaixo de uma árvore velha.
Ele não tinha luxo nenhum. A casa era simples, com uma mesinha, duas cadeiras e uma cama de folhas secas. Mas era quentinha e muito tranquila.
Todos os dias, o ratinho acordava com o canto dos passarinhos, colhia grãos de trigo, comia sementes torradas e frutinhas do mato e, à tarde, descansava debaixo da sombra, ouvindo o vento nas espigas.
Uma carta
Uma manhã, o carteiro, que era um besouro de asas azuis, trouxe uma carta.
Querido primo,
Venha me visitar na cidade! Aqui tudo é grande, bonito e cheio de coisas boas. Vai adorar.
Seu primo, Ratinho da Cidade
O ratinho do campo coçou a cabeça.
— Nunca saí daqui. Mas parece interessante. Vou conhecer!
Arrumou uma maletinha, pôs um punhado de sementes para o caminho e partiu.
A cidade
A viagem foi comprida. Quando chegou, o ratinho do campo arregalou os olhos.
Havia prédios altíssimos, carros buzinando, gente andando de um lado para o outro. O barulho era tanto que ele tapou as orelhas.
— Primo! — gritou o ratinho da cidade, que usava gravata-borboleta vermelha. — Que bom que veio! Venha, vou te mostrar a minha casa.
A casa dele ficava num buraquinho na parede de um casarão enorme, cheio de tapetes macios e móveis de madeira escura.
O banquete
— Hoje vamos fazer um banquete em sua homenagem! — disse o ratinho da cidade.
E levou o primo, escondido, até a sala de jantar, onde uma mesa comprida estava cheia de sobras da festa: pedaços de bolo, queijos finos, geleias, azeitonas, biscoitos.
O ratinho do campo nunca tinha visto tanta comida.
— Coma à vontade! — disse o da cidade.
Ele pegou um pedacinho de bolo e mordeu. Estava delicioso.
Mas, de repente...
Miau!
Um gato enorme, de olhos amarelos, entrou na sala.
O susto
Os dois ratinhos correram para o buraco da parede, com o coração disparado.
— Ufa! — disse o ratinho da cidade, ofegante. — Foi por pouco!
— Isso acontece sempre? — perguntou o do campo, com a voz trêmula.
— Quase sempre. Mas a gente se acostuma. Vamos voltar, a festa ainda não acabou!
Voltaram para a mesa. O ratinho do campo pegou uma azeitona. Nisso, a porta abriu com um estrondo, e um cachorro enorme entrou latindo.
Au! Au! Au!
De novo os dois saíram em disparada, esbarrando um no outro, até o buraco.
A decisão
Dentro da toca, o ratinho do campo se encostou na parede, tentando respirar.
— Primo — disse ele —, a sua casa é linda, e a comida é muito gostosa. Mas eu não consigo comer com tanto susto.
— É o preço da vida na cidade — disse o da cidade. — Aqui tem muito mais do que no campo.
— Pode ser — respondeu o ratinho do campo. — Mas eu prefiro as minhas sementes e as minhas frutinhas, comidos em paz, a esse banquete cheio de medo.
O primo da cidade ficou calado. Ele nunca tinha parado para pensar nisso.
A volta
O ratinho do campo se despediu com um abraço apertado.
— Obrigado por me receber. Mas vou voltar para casa.
— Vai fazer falta — disse o ratinho da cidade. — Venha me visitar de novo!
— E você venha me visitar no campo. Prometo que vai gostar.
Pegou a maletinha e voltou, devagar, olhando as estrelas. Quando chegou à toca debaixo da árvore velha, respirou fundo, sentindo o cheiro de terra, de trigo e de folhas secas.
— Que saudade eu tinha de você, minha casinha — sussurrou.
O visitante
Alguns dias depois, ouviu batidas na porta. Era o ratinho da cidade, com a gravata amassada e uma maletinha.
— Primo! Vim ver como é a vida aqui.
O ratinho do campo sorriu, abriu a porta e serviu sementes, frutinhas e um copo de leite de cabra. Depois, os dois sentaram debaixo da árvore, ouvindo o vento nas espigas e os grilos começando a cantar.
— Que silêncio gostoso — disse o primo da cidade. — Nunca ouvi tão bem os meus pensamentos.
— Pois é — disse o do campo. — Cada um tem o seu jeito. Mas eu sei qual é o meu.
Boa noite
Naquela noite, o primo da cidade dormiu na cama de folhas do ratinho do campo e achou que era a cama mais macia do mundo.
Lá fora, a lua subiu sobre o trigo, e os grilos cantaram baixinho. Ninguém buzinou, ninguém latiu, ninguém miou.
Só havia paz.
Boa noite, pequeno leitor. Um lanche simples comido em sossego vale mais que um banquete cheio de susto.
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