O Plantão da Mamãe

A mamãe da Lia é enfermeira.
Durante o dia, às vezes, ela é só a mamãe: faz panqueca, leva a Lia na pracinha, canta errado as músicas do rádio de propósito, só para a Lia corrigir.
Mas algumas noites por semana, a mamãe vira outra coisa. Ela veste a roupa branca, prende o cabelo num coque apertado, coloca o crachá com a foto dela sorrindo e vai para o hospital.
Essas noites se chamam plantão.
E a Lia não gosta nem um pouco das noites de plantão.
O beijo guardado
Antes de sair, a mamãe sempre fazia a mesma coisa.
Ela se ajoelhava na frente da Lia, pegava a mão dela, abria bem a palma e dava um beijo bem no meio. Depois fechava os dedinhos da Lia, um por um, por cima do beijo.
— Pronto. Esse aqui fica guardado. Quando der saudade, você abre a mão e encosta no rosto.
— E se acabar?
— Beijo guardado não acaba. — A mamãe se levantava e pegava a bolsa. — E tem mais: quando você for dormir, eu vou dar uma olhadinha pela janela do hospital, lá para a lua. Você olha para ela também. Aí a gente se encontra lá em cima.
Depois ela saía. E a porta fazia aquele clec que a Lia detestava.
As noites do papai
Nas noites de plantão, quem colocava a Lia para dormir era o papai.
E o papai se esforçava. Se esforçava muito. Mas não era a mesma coisa.
Ele fazia a trança da Lia torta, com um lado mais grosso que o outro.
Ele lia o livro da raposinha e, quando achava que a Lia estava quase dormindo, pulava duas páginas. Só que a Lia sempre percebia.
— Pai. Você pulou a parte do rio.
— Pulei? Que coisa. — E voltava as páginas, meio sem graça.
Ele esquecia que a água tinha que ficar no copo azul, e não no verde. E que a luz do corredor tinha que ficar acesa, mas a porta só um pouquinho aberta, "da largura de um gato".
Naquela noite, depois do livro inteiro, sem pular nenhuma página, a Lia ainda estava de olho arregalado.
— Pai. Quem cuida da mamãe enquanto ela cuida dos outros?
O papai ficou quieto. Era uma pergunta difícil.
A lua sumiu
A Lia foi até a janela para procurar a lua, como a mamãe tinha combinado.
E a lua não estava lá.
O céu estava cheio de nuvens grossas, cinzentas, e não dava para ver nem uma estrelinha.
— A lua sumiu! — A voz da Lia começou a tremer. — A mamãe vai olhar e não vai me achar!
E começou a chorar. Aquele choro de noite, que é mais cansado que o choro de dia.
O papai sentou na cama. Coçou a barba. E então se levantou de repente, como quem lembrou de uma coisa importante.
— Espera aqui.
Ele voltou com a lanterna grande, aquela que ficava na gaveta da cozinha para quando faltava luz.
— Lá longe, está vendo? Aquele prédio com a cruz acesa em cima. É o hospital da mamãe.
A Lia enxugou o rosto e olhou. Lá no fim das luzes da cidade, pequenininha, estava a cruz iluminada.
— Se a lua não quer ajudar hoje, a gente manda o recado de outro jeito. Três piscadas. Uma pra cada palavra: eu — te — amo.
O papai apontou a lanterna para o hospital e deixou a Lia apertar o botão.
Clic, clic. Clic, clic. Clic, clic.
Ligou e desligou, ligou e desligou, ligou e desligou.
— Será que ela viu?
— Só amanhã a gente vai saber.
A Lia voltou para a cama. Abriu a mão, encostou o beijo guardado no rosto. E dessa vez dormiu.
O papai ficou mais um tempinho ali, olhando a menina dormir. Depois pegou o celular e mandou uma mensagem.
De manhã
A mamãe chegou quando o sol estava nascendo. Tinha cheiro de álcool em gel e olheiras fundas, mas deu o sorriso mais bonito do mundo quando a Lia pulou no colo dela.
— Mãe! A lua sumiu! Aí a gente mandou três piscadas de lanterna! Você viu?
A mamãe olhou para o papai por cima da cabeça da Lia. O papai deu uma piscadinha.
— Eu vi, filha. Três piscadas. Eu — te — amo. Chegou direitinho.
A Lia ficou radiante.
— E o que você fez a noite toda?
A mamãe sentou no sofá, ainda com a Lia no colo.
— Cuidei de um menino que quebrou o braço caindo da bicicleta. Ele estava com muito medo. Aí eu fiquei segurando a mão dele, assim, igual eu seguro a sua, até ele se acalmar e dormir.
A Lia pensou um pouco. Depois pegou a mão da mamãe, abriu a palma e deu um beijo bem no meio. E fechou os dedos dela, um por um.
— Esse é pra você levar pro menino do braço, na próxima vez.
A mamãe ficou com os olhos cheios d'água.
— Vou levar, sim.
A resposta
Naquela manhã, a mamãe foi dormir no quarto com a cortina fechada, porque quem trabalha de noite dorme de dia. E a Lia passou a manhã inteira andando na ponta dos pés pela casa, fazendo "psiu" para o papai toda vez que ele fazia barulho com as panelas.
Quem cuida da mamãe enquanto ela cuida dos outros, a Lia ainda não sabia direito.
Mas agora ela sabia quem cuida da mamãe depois.
Na noite seguinte, não era plantão. A mamãe fez a trança certinha, leu o livro inteiro e deixou a porta aberta da largura de um gato.
Mas a Lia dormiu com a mão fechada assim mesmo. Só por garantia.
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