O Vagalume que Esqueceu de Acender

Numa noite quente de verão, no fundo de um jardim cheio de grama alta, acordou um vagalume chamado Lume.
Era pequenininho, de corpo escuro e olhos grandes. E tinha, na barriguinha, uma lanterna que acendia e apagava, como uma estrelinha de verdade.
Todo o jardim sabia que o Lume era distraído.
Um bocejo
Naquela noite, o Lume acordou com um bocejo bem comprido.
— Hoaaaam... Que sono! Será que já anoiteceu?
Olhou em volta. O céu estava azul-escuro, cheio de estrelas. Os grilos já tinham começado a cantar, e as flores fecharam as pétalas.
— Eita! Anoiteceu mesmo. Tenho que ir para a festa dos vagalumes.
Todas as noites, os vagalumes se reuniam no meio do jardim, para piscar juntos, como luzinhas num bailado. E o Lume nunca perdia.
Saiu voando, bem apressado.
O caminho
Atravessou a grama alta. Passou por cima de uma poça. Desviou de uma teia de aranha. Cumprimentou uma joaninha que dormia numa folha.
— Boa noite, joaninha!
— Boa noite, Lume — respondeu ela, bocejando.
Ele voou, voou, e foi se afastando da joaninha. Aos poucos, tudo foi ficando mais escuro, e ele ficou preocupado.
— Por que está tão escuro aqui? — pensou. — Eu não estou vendo nada!
Esbarrou numa folha. Bateu numa flor. Quase caiu numa teia.
— Que estranho. Será que o jardim ficou mais escuro hoje?
Descoberta
Parou numa folha grande e olhou para si mesmo. E viu que a barriguinha estava apagada.
— Ai, ai, ai! — disse ele. — Esqueci de acender a minha lanterna!
Tentou acender, mas, de tão nervoso que estava, a luzinha não vinha.
— Calma, Lume — disse para si mesmo. — Respire fundo.
Respirou. Uma vez, duas vezes, três vezes.
Mas, enquanto isso, ficou ali, parado, no escuro.
O escuro
E foi aí que o Lume percebeu uma coisa que nunca tinha notado.
O escuro não era assustador. Era macio, quente e cheio de coisas bonitas.
Olhou para cima. As estrelas estavam brilhando no céu, milhares delas, tão perto que parecia que dava para pegar.
Olhou para baixo. Viu os outros vagalumes acendendo, um por um, de longe, como pontinhos dourados dançando.
Ouviu os grilos cantando. Sentiu o cheirinho de terra molhada. Viu a lua, pequenininha, deitada no céu.
— Que lindo — sussurrou. — Tudo isso estava aqui, e eu sempre passei voando depressa demais.
Uma amiga
Uma voz fininha chegou do lado.
— Lume? É você?
Era a Pisca, uma amiga dele, também vagalume, com a lanterninha acesa.
— Estava te procurando! A festa já começou, e você não apareceu.
— Pisca, esqueci de acender a lanterna.
— Ah! — disse ela, rindo baixinho. — Isso acontece. Quer ajuda?
— Quero, mas estava aqui reparando uma coisa. O escuro é bonito.
A Pisca sentou do lado dele, na folha.
— É mesmo. Eu também adoro, mas sempre estou ocupada demais piscando para perceber.
Ficaram os dois ali, olhando o céu, em silêncio.
A luz volta
Depois de um tempo, o Lume sentiu um calorzinho na barriga. A lanterna começou a acender, devagarzinho, sem esforço.
Pisca... pisca...
Uma luz fraquinha, amarelo-esverdeada, tão suave que parecia um sussurro.
— Olha! — disse a Pisca. — Acendeu sozinha!
— Acendeu quando eu parei de me preocupar — disse o Lume, sorrindo.
Os dois voaram juntos até a festa, onde os outros vagalumes acenavam. E, naquela noite, o Lume piscou do jeito mais calmo e mais bonito de todos.
Boa noite
Quando a festa acabou, os vagalumes foram se recolhendo, um a um, e as luzinhas se apagaram aos poucos, como estrelas que vão dormir.
O Lume voltou para a folha dele e se aninhou na dobrinha, bem quentinho. Olhou mais uma vez para o céu, para a lua, para as estrelas.
— Boa noite, escuro — sussurrou. — Obrigado por ser tão bonito.
Fechou os olhos, e a lanterninha dele foi diminuindo, diminuindo, até virar só um pontinho bem pequeno.
E o jardim todo dormiu, embalado pela canção dos grilos.
Boa noite, pequeno leitor. O escuro também é um lugar bonito. Respire fundo e olhe para as estrelas.
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