A Abóbora que Queria Brilhar

Numa horta, no fundo de um sítio, cresciam abóboras de todos os tamanhos.
Havia as pequenas, as redondinhas, as compridas e as grandes. E, no meio delas, uma abóbora grande, cor de laranja, chamada Aurora.
Aurora tinha uma tristeza escondida.
A tristeza
Todas as outras abóboras tinham um destino.
A da esquerda ia virar doce de abóbora com coco, o preferido da vovó. A da direita ia virar sopa quentinha para o inverno. A pequena do canto ia virar compota, e as sementes da maior iam ser torradas para o lanche.
— E eu? — perguntava Aurora. — Para que eu sirvo?
— Ah, você é só uma abóbora — dizia uma abobrinha, de longe. — Não tem nada de especial.
Aurora ficava quieta, olhando as estrelas.
A colheita
Um dia, no fim de outubro, o dono do sítio entrou na horta com um carrinho de mão.
— Hoje é dia de colher! — disse ele, assobiando.
Foi pegando as abóboras, uma por uma, e colocando no carrinho. Chegou à Aurora, olhou bem para ela e sorriu.
— Esta aqui é perfeita — disse. — É a que a minha neta pediu.
Aurora ficou espantada. Alguém tinha pedido por ela?
A neta
À tardinha, o carrinho chegou à varanda da casa. Lá estava uma menininha que batia palmas, de olhos brilhando.
— É essa! É essa mesmo, vovô!
— Esta é a abóbora mais bonita do sítio — disse o vovô.
A menina abraçou a abóbora, que era quase do tamanho dela.
— Oi, abóbora — sussurrou. — Eu vou fazer uma coisa linda com você.
Aurora não entendeu. Mas sentiu um calorzinho no coração.
A lanterna
Depois do jantar, o vovô e a menina colocaram a abóbora numa mesa na varanda. O vovô, com muito cuidado, tirou a tampinha de cima, esvaziou o miolo e, com uma faquinha pequena, desenhou um rostinho: dois olhos redondos, um narizinho triangular e um sorriso largo. Aurora não sentiu dor nenhuma, só cócegas.
A menina bateu palmas.
— Agora a vela!
O vovô colocou uma velinha acesa dentro da abóbora e fechou a tampa.
Aos poucos, a luz foi aparecendo pelos olhos, pelo nariz, pelo sorriso. A abóbora brilhava, quentinha e dourada.
— Ah! — disse a menina, encantada. — Ficou lindíssima!
O brilho
O vovô colocou a abóbora no degrau da frente da casa, para enfeitar a noite.
Aurora olhou em volta. Viu as estrelas, a lua, as folhas caindo. Viu, na rua, alguns meninos e meninas passando, fantasiados de bichinhos, de fadas, de super-heróis.
— Olha a abóbora! — gritou um menino. — Que bonita!
— Parece que está sorrindo! — disse uma menina.
E Aurora sentiu que estava, de verdade. Nunca tinha imaginado que poderia fazer alguém feliz só com a luz que tinha dentro.
O que ela entendeu
Naquela noite, vizinhos passaram, e todos paravam para olhar. Ela clareava o caminho. Esquentava um cantinho da varanda. E tornava a noite mais bonita para quem passava.
Aurora entendeu que o destino de cada abóbora era diferente, mas todos eram importantes.
Doce, sopa, compota... e luz.
— Eu também tenho o meu jeito de ajudar — pensou. — Eu sou a abóbora que brilha.
Boa noite
Quando a noite ficou mais fria, a menina foi dormir, depois de dar um beijinho na abóbora.
— Boa noite, Aurora — sussurrou.
O vovô apagou a vela da abóbora com cuidado e deixou lá dentro uma luzinha de lanterna a pilha, bem fraquinha, para enfeitar a noite.
A lua subiu, as folhas dançaram no vento. E, na varanda, a Aurora brilhou baixinho, olhando a rua tranquila, feliz por ter descoberto o seu lugar.
Boa noite, pequeno leitor. Cada um tem uma luz diferente, e o mundo precisa de todas elas.
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