O Menino que Media Pegadas de Dinossauro

Dinho passava as férias na casa do tio, em Sousa, no sertão da Paraíba.
O nome dele nem era Dinho, era Edvaldo. Mas todo mundo chamava assim desde que ele tinha três anos e aprendeu a falar "dinossauro" antes de aprender a falar "obrigado".
E Sousa era o melhor lugar do mundo para um menino chamado Dinho.
Porque em Sousa, num lugar que todo mundo chama de Vale dos Dinossauros, existem pegadas.
Pegadas de verdade.
O chão que guarda pegada
Dinho aprendeu a história na primeira vez que o tio Genival o levou lá.
— Isso aqui, há muito tempo, era a beira de um lago — explicou o tio. — Lama molinha. Os bichos passavam, e o pé afundava. Depois o sol secava a lama, vinha outra camada por cima, e aquilo foi endurecendo, endurecendo, até virar pedra.
Dinho olhou para o chão. Era uma laje enorme e rachada, no leito de um rio que só tem água quando chove.
E, marcadas ali, tinha uma fileira de pegadas de três dedos, cada uma do tamanho de um prato grande.
— E quanto tempo faz?
— Mais de cem milhões de anos.
Dinho ficou um tempo quieto. Depois falou:
— Tio. Elas continuam pra lá.
E era verdade. A fileira seguia, uma pegada depois da outra, até sumir no fim da laje.
Não era só uma marca. Era um caminho. Alguém tinha passado por ali, andando, indo para algum lugar.
O pé de medida
Dinho não tinha trena. Então ele usou o que tinha: o próprio pé.
Tirava a sandália, encaixava o pé descalço dentro da pegada e contava.
— Essa aqui dá um pé e meio.
Anotava num caderninho de capa dura que a mãe tinha dado.
Depois media o tamanho do passo: quantos pés dele cabiam de uma pegada até a outra.
— Seis pés e um pedacinho.
Anotava também.
Ele fez isso a manhã inteira. E no dia seguinte. E no outro.
O tio Genival achava graça:
— Menino, você vai gastar esse pé.
A dona Cida
Num desses dias apareceu no vale uma moça de chapéu de palha, camisa de manga comprida e uma prancheta debaixo do braço. Ela trabalhava ali, cuidando do lugar e explicando as pegadas para quem visitava. Chamava-se Cida.
Ela parou atrás do Dinho e ficou vendo ele medir.
— Tá contando o quê?
— Tô medindo o passo dele. — Dinho nem levantou a cabeça. — Se o passo é grande, ele tava andando rápido. Se é pequeno, tava devagar. Igual a gente.
A dona Cida levantou as sobrancelhas.
— Quem te ensinou isso?
— Ninguém. Eu fui andando aqui do lado e reparei.
Ela se agachou perto dele.
— Tá certíssimo. É assim que os cientistas fazem também: comparam o passo com o tamanho do pé. Dá até pra saber se o bicho tava com pressa ou passeando.
Dinho ficou vermelho de orgulho. Mas continuou anotando, como quem não quer nada.
A pegada diferente
No último dia de férias, Dinho foi se despedir do vale.
Ele já conhecia aquela laje de cor. Sabia onde tinha uma rachadura que parecia um raio, onde ficava uma marca de ferradura que ninguém sabia explicar, onde os passos do bicho grandão viravam para a esquerda.
Naquela semana, o vento tinha varrido a areia fina do canto da laje, e apareceu um pedaço que ele nunca tinha medido.
Foi por isso que ele reparou.
Bem no meio da fileira de pegadas grandes, encostadinha na beirada, tinha uma pegada pequena.
Igualzinha às outras. Três dedos. Mesmo formato. Mas do tamanho do pé dele.
E não era só uma. Tinha outra na frente. E outra. Uma fileirinha miúda, andando do lado da fileira grande, no mesmo sentido.
Dinho sentou no chão quente e ficou olhando aquilo por um tempão.
Depois saiu correndo atrás da dona Cida.
O que as pegadas contavam
— Dona Cida! Dona Cida! Tem uma pequena!
Ela veio andando rápido, com a prancheta na mão.
Quando viu, ficou quieta. Depois sorriu de um jeito que Dinho não esqueceu mais.
— Essa eu já conhecia, meu filho. Mas quase ninguém repara.
— É um filhote?
— Provavelmente. Andando do lado de um adulto.
Dinho olhou de novo para as duas fileiras, a grande e a pequena, seguindo juntas pela pedra.
— Então ele não tava sozinho.
— Não tava.
E foi aí que Dinho entendeu uma coisa que ele nunca tinha pensado direito. Aquelas marcas não eram só buracos na pedra. Era uma tarde. Uma tarde de cem milhões de anos atrás, com um bicho grande andando na beira do lago e um bicho pequeno andando do lado dele, tentando acompanhar.
Do mesmo jeito que ele andava com o tio Genival.
A última anotação
Naquela tarde, antes de fechar o caderninho, Dinho escreveu a última linha da página, com a letra mais caprichada que ele conseguiu:
Pegada pequena: um pé meu. Passo: dois pés meus. Andava do lado do grande.
E, embaixo, mais pequenininho:
Acho que era filho dele.
Na viagem de volta, no ônibus, com a testa encostada na janela, Dinho ficou vendo a caatinga passar e pensando que, debaixo de todo aquele chão seco, devia ter um monte de tarde antiga guardada, esperando alguém reparar.
Ele encostou a cabeça no braço do tio e dormiu antes de chegar na primeira cidade.
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