O Menino que Gritava Lobo

Havia um menino que cuidava das ovelhas do vilarejo.
Todo dia de manhã, ele subia com o rebanho até o alto da colina, onde a grama era mais verde. Passava o dia lá em cima, sentado numa pedra, olhando os bichos comerem.
Era um trabalho importante.
E era também o trabalho mais sem graça do mundo.
O tédio
O menino olhava as ovelhas.
As ovelhas olhavam a grama.
O vento passava. Uma nuvem andava no céu. Outra nuvem. Uma ovelha mudava de lugar. Uma hora se arrastava atrás da outra.
Lá embaixo, no vilarejo, ele via as pessoas trabalhando, conversando na praça e as crianças brincando nas ruas.
E ele, sozinho, na colina.
Foi de tanto tédio que ele teve a ideia.
O primeiro grito
O combinado do vilarejo era um só: se aparecesse lobo, o pastorzinho gritava, e todo mundo largava o que estava fazendo e subia correndo para ajudar.
Naquela tarde, o menino levantou, pôs as mãos em concha na boca e gritou com toda a força:
— LOBOOO! SOCORROOO! TEM UM LOBO NAS OVELHAS!
Lá embaixo, o vilarejo inteiro parou.
O padeiro largou a massa. O ferreiro largou o martelo. As mães largaram a roupa no varal. E todos subiram a colina correndo, com pau, corda e pedra na mão, com o coração aos pulos.
Chegaram lá em cima ofegantes.
Não tinha lobo nenhum.
Tinha um menino rolando de rir na grama.
— Vocês deviam ver a cara de vocês!
O povo desceu de volta, bravo, resmungando o caminho todo.
O segundo grito
Uns dias depois, o tédio voltou.
E o menino achou que tinha sido tão engraçado que valia a pena repetir.
— LOBOOO! SOCORROOO!
De novo o vilarejo parou. De novo todo mundo subiu correndo a colina, com pau e corda na mão.
E de novo não tinha lobo nenhum.
Dessa vez ninguém riu junto.
— Isso não é brincadeira — disse o ferreiro, com o rosto vermelho de raiva e de cansaço. — A gente largou o trabalho. A gente veio correndo. Se um dia acontecer de verdade, como é que a gente vai saber?
O menino deu de ombros.
O terceiro grito
O terceiro grito foi no fim de uma tarde.
Só que dessa vez era de verdade.
O menino estava jogando pedrinha quando ouviu as ovelhas se agitarem. Levantou a cabeça e viu, saindo do mato ali perto, um lobo cinzento, magro, com os olhos fixos no rebanho.
O sangue dele gelou.
Ele subiu na pedra e gritou com toda a força dos pulmões:
— LOBO! TEM UM LOBO AQUI! SOCORRO!
O vilarejo não veio
Lá embaixo, as pessoas ouviram.
O padeiro parou um segundo, com a mão na massa, e continuou amassando.
O ferreiro olhou para a colina, balançou a cabeça e voltou a bater o martelo.
As mães nem olharam.
— É o menino de novo — disseram uns para os outros. — Já cansei.
O menino gritou de novo. E de novo. Até a voz ficar rouca.
Ninguém subiu.
O que ele fez
Ele estava sozinho com as ovelhas e com um lobo.
E foi aí que o menino descobriu uma coisa sobre si mesmo: ele podia ser bobo, mas não era covarde.
Ele desceu da pedra, pegou o cajado com as duas mãos e foi para a frente do rebanho, gritando e batendo o pau no chão, fazendo o maior barulho que conseguia.
O lobo parou. Rodeou. Avançou de um lado, e ele foi para aquele lado. Avançou do outro, e ele correu para lá.
Aquilo durou um tempão. O menino já estava rouco e sem força quando, lá do alto do caminho, ouviu vozes.
Quem veio
Era o avô dele.
E, atrás do avô, vinham dois vizinhos.
O velho não tinha acreditado no grito. Só tinha achado estranho o neto gritar tanto tempo, e resolveu subir para conferir.
Os três chegaram fazendo barulho, e o lobo desistiu e sumiu no mato.
Ninguém se machucou. Nenhuma ovelha se perdeu.
Mas o menino, que tinha aguentado firme o tempo inteiro, quando viu o avô, sentou na grama e chorou.
A conversa
Eles desceram a colina juntos, devagar, com o rebanho na frente.
— Vô, eu gritei. Eu gritei muito. Ninguém veio.
— Eu sei — disse o velho.
— Por que ninguém veio?
O avô andou mais alguns passos antes de responder.
— Porque confiança é que nem balde de água. Você enche gota por gota, com o tempo, e é trabalhoso. Mas dá para virar tudo de uma vez só, num segundo. — Ele pôs a mão no ombro do neto. — Você virou o seu balde duas vezes. Por diversão.
— E agora?
— Agora você enche de novo. Gota por gota.
O quarto grito
Levou tempo.
O menino continuou subindo a colina todo dia, e todo dia descia com o rebanho completo. Devolveu uma ovelha do vizinho que tinha se perdido. Avisou quando viu fumaça no campo. Contou a verdade até quando a verdade dava trabalho.
Passaram-se meses.
Numa tarde de inverno, ele gritou de novo lá do alto.
E, lá embaixo, o vilarejo inteiro largou o que estava fazendo e subiu correndo.
Dessa vez tinha lobo.
E dessa vez eles chegaram juntos.
Esta fábula é atribuída a Esopo, que viveu na Grécia há mais de dois mil anos. Na fábula antiga, o rebanho é devorado e a história acaba aí, como aviso. O resgate do avô e a reconquista da confiança são o final desta versão.
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