O Leão e o Ratinho

Numa savana grande, onde o capim chegava na altura da barriga dos bichos, vivia um leão.
Ele era o maior da região, tinha uma juba dourada e uma voz que fazia as folhas tremerem.
E tinha um costume: depois do almoço, dormir uma boa soneca debaixo de uma árvore.
Os outros bichos sabiam disso e passavam de fininho, sem fazer barulho.
Todos, menos um.
O ratinho
Naquela tarde, um ratinho passeava pelo capim, pensando na vida.
Estava tão distraído que não viu onde pisava.
Subiu numa coisa quente, peluda e macia, e foi andando.
Pulou numa pata. Escalou uma perna. Correu pela barriga que subia e descia.
Foi só quando chegou perto do focinho que o ratinho percebeu que estava passeando em cima de um leão.
O despertar
O leão abriu um olho.
Depois o outro.
E, com uma pata enorme, prendeu o ratinho no chão.
— Quem é que se atreve a me acordar? — rugiu.
O ratinho tremia tanto que mal conseguia falar.
— Por favor, majestade, me perdoa. Eu não fiz de propósito. Se o senhor me deixar ir embora, um dia eu juro que retribuo.
O leão começou a rir.
— Você? Retribuir a mim? Um ratinho desse tamanho?
Riu tanto que a pata afrouxou.
— Está bem. Pode ir. Hoje estou de bom humor.
O ratinho agradeceu e saiu correndo, sem olhar para trás.
O tempo passou
Alguns dias depois, o leão estava caminhando pela savana, de manhã, quando ouviu um barulho de galhos.
Antes que pudesse perceber, o chão sumiu debaixo dele.
Ele tinha caído numa armadilha, uma rede de cordas grossas, que alguns homens tinham deixado no meio do mato.
O leão se debateu, rugiu, puxou. Mas, quanto mais ele se mexia, mais a rede apertava.
Ficou preso, sem conseguir se levantar.
O rugido
O leão rugiu com todas as forças.
O som foi tão alto que atravessou a savana inteira.
Os bichos ouviram, mas ninguém se aproximou. Os outros leões estavam longe. Os elefantes não conseguiam desatar nós. As girafas olhavam de longe, sem saber o que fazer.
E o leão ficou ali, cansado, olhando o céu.
O ratinho de novo
Foi então que, lá embaixo, entre as folhas do capim, apareceu uma carinha pequena.
Era o ratinho.
Ele tinha ouvido o rugido e reconheceu a voz.
— Majestade! O senhor está preso!
— Estou, ratinho. E, pelo jeito, não tem ninguém que consiga me ajudar.
— Eu consigo.
O leão quase riu de novo. Mas, desta vez, não riu.
As cordas
O ratinho subiu na rede.
Escolheu a corda mais grossa, a que estava mais apertada, e começou a roer.
Roeu, roeu, roeu.
Os dentinhos dele eram pequenos, mas não paravam. Um fiozinho de cada vez, a corda foi se soltando.
Quando a primeira corda arrebentou, a rede afrouxou um pouco.
O ratinho passou para a segunda.
Roeu, roeu, roeu.
Até que, depois de muito tempo, a rede se abriu.
O leão saiu, devagar, sacudiu a juba e se espreguiçou.
O agradecimento
O leão olhou para o ratinho, que estava ofegante, com os dentes doloridos.
Ficou calado por um tempo.
— Ratinho — disse, baixinho —, naquele dia, eu ri de você. Eu achei que um bicho tão pequeno nunca poderia ajudar um bicho tão grande. Eu estava errado.
O ratinho sorriu.
— Eu só retribuí.
O leão baixou a cabeça, num gesto de respeito.
E, daquele dia em diante, os dois ficaram amigos.
O leão nunca mais acordou irritado com os pequenos, e o ratinho nunca mais subiu em cima de ninguém sem olhar antes.
De onde vem
Esta fábula é atribuída a Esopo, um contador de histórias da Grécia antiga, que viveu há mais de dois mil anos. Existe também uma versão contada pelo francês La Fontaine.
A lição mais comum é que um favor, mesmo pequeno, pode voltar quando a gente menos espera, e que ninguém é pequeno demais para ajudar. A conversa final entre o leão e o ratinho foi acrescentada nesta versão.
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