A Pequena Sereia

No fundo do mar, onde a água é de um azul tão escuro que parece de safira, ficava o castelo do rei do mar.
Era um castelo de coral, com janelas de âmbar e um telhado de conchas que se abriam e fechavam com a correnteza.
Ali morava o rei, a avó dele e as seis filhas.
A mais nova era a mais curiosa. E tinha a voz mais bonita do mar.
O jardim
Cada princesa tinha um cantinho do jardim para cuidar, cheio de flores do mar.
A caçula plantou o dela em forma de sol, com plantas vermelhas e laranjas.
Era o canto que ela mais gostava.
Mas o que ela mais gostava, na verdade, era de ouvir a avó contar histórias do mundo de cima, onde as pessoas viviam.
— Lá em cima, tem flores com perfume. Tem passarinhos que cantam.
A pequena sereia ouvia de olhos arregalados.
— Quando vocês fizerem quinze anos, poderão subir à superfície, uma de cada vez — dizia a avó.
A caçula era a última da fila. Esperou, esperou, esperou.
A superfície
Finalmente, ela fez quinze anos.
Subiu devagarinho, até que a cabeça saiu da água.
Era noite. As estrelas brilhavam. E, não muito longe, um navio, de velas brancas, cheio de lanternas.
Tinha música e gente dançando no convés.
Entre eles, havia um jovem de olhos escuros, que fazia aniversário naquele dia: um príncipe.
A pequena sereia nunca tinha visto alguém assim.
A tempestade
De repente, o céu escureceu.
O vento começou a soprar com força. As ondas foram crescendo, jogando o navio de um lado para o outro.
Um raio caiu no mar.
O navio balançou, rangeu, e começou a afundar.
Todos os marinheiros pularam para a água.
A pequena sereia viu o príncipe caindo, e mergulhou.
O salvamento
Ela nadou depressa, e o segurou antes de ele afundar.
Segurou o príncipe, com a cabeça dele fora d'água, e ficou nadando com ele a noite inteira.
De manhã, o mar tinha se acalmado.
Ela o levou até uma praia, perto de um templo branco, e deixou o príncipe deitado na areia, de olhos fechados, mas respirando.
Ficou escondida atrás de uma pedra para ver o que acontecia.
Logo apareceu uma moça, que passou e viu o príncipe.
A moça chamou ajuda, e gente de todos os lados veio socorrer.
A pequena sereia olhou de longe e voltou para o fundo do mar, sem ninguém a ter visto.
A saudade
Dali em diante, ela ficou diferente.
Ficou quieta. Parou de cantar. Passava os dias pensando no príncipe.
Perguntou a todo mundo sobre os humanos. A avó contou que eles viviam menos que as sereias, mas que tinham uma alma que não morria.
— Nós, sereias, vivemos trezentos anos. Mas, quando acabamos, viramos espuma. Os humanos vivem pouco, mas a alma deles continua.
A pequena sereia ficou pensando nisso.
A bruxa do mar
Uma noite, ela tomou uma decisão.
Foi até a bruxa do mar, que morava além do redemoinho, numa casa feita de madeira de navios naufragados, no meio de uma floresta de polvos.
A bruxa já sabia o que ela queria.
— Você quer pernas. Posso te dar. Mas vai ter um preço.
— Qual?
— A sua voz. Quando você andar, vai ser como pisar em cacos de vidro. E, se o príncipe se casar com outra, você nunca mais vai voltar ao mar.
A pequena sereia pensou um pouco, pensou no príncipe e disse:
— Aceito.
Ela deu a voz para a bruxa e bebeu a poção.
As pernas
Quando acordou, estava deitada na praia, perto do castelo do príncipe, com um par de pernas no lugar da cauda.
O príncipe estava passeando perto e a viu.
— Quem é você? De onde veio?
A pequena sereia queria responder, mas não tinha voz.
Só conseguiu olhar para ele, com os olhos cheios de mar.
O príncipe levou-a para o castelo, deu a ela roupas bonitas e um quarto.
Ela dançava para ele, e, mesmo com os pés doendo a cada passo, dançava tão bem que todo mundo ficava encantado.
A outra moça
Os dias foram passando.
O príncipe gostava muito da pequena sereia.
Mas ele não sabia que tinha sido ela quem o salvara.
Pensava que tinha sido a moça do templo.
Um dia, o rei decidiu que o príncipe devia se casar com uma princesa do reino vizinho.
E era a mesma moça do templo.
A noite do casamento
O príncipe se casou.
A pequena sereia ficou na proa do navio, olhando o mar, enquanto todos dançavam.
Sentia o coração apertado.
Ela sabia que, ao amanhecer, ia se transformar em espuma do mar.
De repente, as irmãs apareceram na água, com os cabelos cortados.
— Demos os nossos cabelos à bruxa! — disseram. — Ela deu esta faca. Se você a usar no príncipe, antes do sol nascer, você volta a ser sereia.
A pequena sereia pegou a faca.
Olhou para o príncipe, que dormia com a esposa.
E, num gesto lento, jogou a faca no mar.
A brisa
Quando o sol nasceu, ela foi até a beira do navio e deixou a primeira luz do dia tocar nela.
Mas, em vez de virar espuma, sentiu que estava subindo, subindo, leve como o ar.
Viu que tinha se tornado uma coisa nova: uma filha do ar.
Em volta dela havia outras brisas, transparentes e luminosas.
— Quem são vocês? — perguntou, e dessa vez conseguiu falar.
— Somos as filhas do ar. Nós ajudamos as pessoas. Trazemos a brisa fresca, o perfume das flores, e a vontade de ser melhor. E quem faz isso por trezentos anos ganha uma alma.
A pequena sereia olhou lá para baixo, para o navio, para o mar, para o príncipe.
E sorriu.
O fim
Dizem que, quando uma brisa suave toca o rosto de uma criança que está pegando no sono, é a pequena sereia que passa, devagar, sem fazer barulho.
Este conto foi escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen e publicado em 1837. É bem mais triste que as versões de filmes e desenhos: no original, a pequena sereia não se casa com o príncipe, e o fim dela no mar é muito mais doloroso antes de ela se tornar filha do ar. Aqui, a história foi encurtada e suavizada para a hora de dormir.
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