O Guarda-Chuva Amarelo que Deu a Volta no Bairro

A Bia tinha um guarda-chuva amarelo.
Amarelo-gema, com cabo de madeira e uma varetinha meio torta que fazia um lado ficar mais baixo que o outro. Ela gostava dele assim mesmo. Em dia de chuva, a rua inteira ficava cinza, e o guarda-chuva dela era o único pedaço de sol.
A chuva no ponto
Numa segunda-feira, voltando da escola com a mãe, começou a chover forte.
No ponto de ônibus tinha um menino encolhido debaixo da cobertura, que era pequena e pingava. Ele estava de uniforme de outra escola e abraçava a mochila para o caderno não molhar.
A casa da Bia era logo ali, a duas quadras.
Ela olhou para a mãe. A mãe fez que sim com a cabeça.
— Toma — disse a Bia, estendendo o guarda-chuva amarelo. — Depois você devolve. Eu moro na casa da porta azul, na Rua das Mangueiras.
O menino ficou tão surpreso que só conseguiu dizer "obrigado" depois que a Bia já estava correndo para casa debaixo do guarda-chuva da mãe.
Uma semana
Passou terça. Passou quarta. Quinta. Sexta.
O guarda-chuva não voltou.
— Será que ele esqueceu? — perguntou a Bia.
— Pode ser — disse a mãe. — Ou pode ser que ele esteja por aí, fazendo o que guarda-chuva faz.
A Bia não entendeu direito. Mas choveu a semana toda, e ela ficou pensando no guarda-chuva amarelo andando por aí, sozinho, pelo bairro.
A volta
Na segunda-feira seguinte, no fim da tarde, a chuva parou. A Bia abriu a porta para ver a rua molhada e levou um susto.
Encostado na porta azul estava o guarda-chuva amarelo.
E, amarrado no cabo com barbante, tinha um maço de bilhetinhos de papel, cada um de uma cor.
A Bia sentou no degrau, debaixo da luz do poste que acabava de acender, e começou a ler.
Os bilhetes
O primeiro era de letra de criança:
Oi. Eu sou o Davi, do ponto de ônibus. Obrigado. Não molhei o caderno. Mas aí a minha vó precisou ir na farmácia e tava chovendo, então eu emprestei pra ela. Ele é da menina da porta azul, na Rua das Mangueiras. Desculpa a demora.
O segundo tinha letra tremidinha:
Sou a vó do Davi. Fui na farmácia sequinha. Na volta, a moça da padaria estava fechando a loja sem guarda-chuva e com um bolo na mão. Emprestei para ela. Deus lhe pague, menina.
O terceiro tinha uma manchinha de farinha:
Aqui é a Lurdinha da padaria. O bolo chegou inteiro no aniversário da minha filha! No dia seguinte, o carteiro passou encharcado. Dei para ele.
O quarto era curto:
Carteiro. Entreguei 212 cartas secas. Obrigado. Emprestei para o seu Nestor da banca, que estava com o joelho doendo e ia a pé para casa.
O último era o mais caprichado, com letra bonita de antigamente:
Menina da porta azul. Sou o Nestor, da banca de jornal. O carteiro me disse de onde veio este guarda-chuva e para onde ele tinha que voltar. Eu mesmo o trouxe. Fazia muito tempo que ninguém me emprestava nada. Obrigado por ter começado.
O que o guarda-chuva fez
A Bia leu os cinco bilhetes duas vezes.
Depois olhou para o guarda-chuva amarelo, com a varetinha torta, meio desbotado de tanta chuva.
Ele tinha ido ao ponto de ônibus, à farmácia, à padaria, a uma festa de aniversário, ao bairro inteiro na mão do carteiro, e à banca de jornal.
Tinha protegido seis pessoas, contando com ela.
E tinha voltado para casa.
A Bia guardou os bilhetinhos numa caixinha, em cima da cômoda.
E, na próxima vez que choveu, ela saiu de casa com o guarda-chuva amarelo e ficou de olho no caminho, procurando alguém que precisasse dele.
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