Jataí, a Abelhinha da Portaria

No quintal de uma casa, dentro do tronco de uma goiabeira velha, morava um povo muito pequeno.
Eram as abelhas jataí. Abelhinhas amarelas, menores que um grão de arroz, tão mansas que nem ferrão elas têm.
A entrada da casa delas era um tubinho de cera clara que saía do tronco, igual a uma trombetinha.
E foi nessa trombetinha que a Mel foi trabalhar.
O trabalho mais chato do mundo
Quando a Mel cresceu, ela sonhava em ser das que voam longe. Aquelas que saem de manhã e voltam de tarde com as perninhas carregadas de pólen amarelo, cheirando a flor.
Mas a abelha mais velha, a Dona Guaraci, olhou para ela e disse:
— Você vai pra portaria. Toda abelha começa ali. Voar longe é depois.
Portaria era ficar na boca do tubinho. Paradinha. O dia inteiro.
— Só isso? — perguntou a Mel.
— Só isso.
A Mel foi. Mas foi emburrada.
O dia inteiro parada
No começo, foi horrível.
As companheiras passavam voando, cheias de pólen, contando das flores de manacá que tinham achado do outro lado do muro. E a Mel ali, na portaria, sem sair do lugar.
— Bom trabalho, Mel! — gritavam elas, passando.
— Aham — resmungava a Mel.
Ela ficou três dias emburrada.
No quarto dia, aconteceu uma coisa.
A visita
Chegou voando uma abelha de fora. Maior que a Mel, escura, de um jeito apressado, querendo entrar no tubinho.
A Mel abriu as asinhas e ficou na frente.
— Espera. Você não é daqui.
— Deixa eu passar, mosquinha.
— Não deixo.
A abelha de fora empurrou. A Mel segurou. E, do jeito que as jataís fazem, ela vibrou as asas bem rápido, fazendo um zumbido agudo de aviso.
Zzzzzzzt!
Em dois segundos, oito abelhinhas apareceram na entrada do tubinho, todas lado a lado, todas zumbindo igual.
A abelha de fora olhou para aquela paredinha de abelha, pensou melhor e foi embora.
O que a Dona Guaraci falou
Naquela tarde, a Dona Guaraci veio devagar até a entrada.
— Sabe o que tem aí dentro, atrás de você?
A Mel balançou a cabeça.
— Tem os potinhos de mel. Tem as larvinhas, que são as abelhinhas que ainda vão nascer. Tem a rainha. Tem tudo o que a gente é.
A Mel olhou para trás, para o escuro do tronco, e depois para a boquinha de cera onde ela passava os dias.
— E tem uma porta só — disse a Dona Guaraci. — Essa.
A portaria da Mel
Depois daquele dia, a Mel nunca mais achou a portaria chata.
Ela decorou o zumbido de cada companheira, para saber quem estava chegando antes de ver. Aprendeu a reparar quando ia chover, porque o ar ficava pesado e as abelhas voltavam mais cedo. E, quando batia sol na entrada, ela ficava esquentando a barriguinha na cera morna, olhando o quintal.
De tardinha, quando a última companheira entrava, a Mel fechava a boca do tubinho com uma cortina de cera fresquinha, como as jataís fazem toda noite.
E dormia ali mesmo, encostada na porta.
Guardando tudo o que elas eram.
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