Três Coisas Boas

Na casa da Manu tinha uma brincadeira de todas as noites.
Quando ela já estava deitada, com o edredom até o pescoço, a mãe sentava na beirada da cama e perguntava:
— E aí? Três coisas boas de hoje.
Aí Manu levantava a mão e ia contando nos dedos.
— Um: teve bolo de cenoura no lanche. Dois: a Lelê me emprestou a caneta que tem cheiro de morango. Três: o Tico do apartamento de baixo latiu pra mim no elevador, mas era latido de amigo.
E a mãe dava um beijo na testa dela e apagava a luz.
A noite sem nenhuma
Mas teve uma terça-feira que foi ruim do começo ao fim.
De manhã, Manu acordou atrasada e foi para a escola com o cabelo meio torto. Na aula de matemática, ela errou uma conta no quadro e um menino riu. No recreio, a Lelê ficou brincando com outra menina e não chamou a Manu. E, na hora de ir embora, começou a chover e o guarda-chuva da mãe furou bem no meio.
À noite, quando a mãe sentou na beirada da cama e perguntou, Manu virou para o lado.
— Hoje não teve nenhuma.
A mãe não discutiu. Só ficou quietinha ali, alisando o cabelo da Manu.
As coisas pequenas
Depois de um tempo, ela disse:
— Posso tentar achar uma pra você?
Manu deu de ombros, que quer dizer "pode".
— Quando choveu — falou a mãe —, você ficou embaixo do toldo da padaria comigo. E a gente viu aquele senhor de terno correndo com uma pasta na cabeça.
Manu deu uma risadinha sem querer. Foi engraçado mesmo.
— Isso conta? — ela perguntou.
— Conta. Coisa boa não precisa ser grande.
Manu ficou pensando. E, devagarinho, foi levantando um dedo.
— Então… um: o senhor da pasta na cabeça.
Levantou outro.
— Dois: hoje o pão de queijo da cantina tava quentinho.
Parou. Franziu a testa. Aquela era a parte difícil.
— A três eu não acho, mãe.
A terceira
A mãe pensou um pouquinho. Depois disse, bem baixinho:
— Três: você me contou do dia ruim. Não guardou sozinha.
Manu olhou para ela.
Era verdade. E era bom mesmo.
Ela levantou o terceiro dedo e ficou olhando para os três dedinhos levantados no escuro, como se fossem uma coisa que ela tivesse construído.
— Mãe. Amanhã eu conto três de novo?
— Todo dia. Até nos dias ruins. Principalmente nos dias ruins.
A mãe deu o beijo na testa e apagou a luz.
E, no escuro, antes de dormir, Manu já foi começando a procurar as três do dia seguinte.
O Que Achou da Historinha?
Toque nas estrelas para avaliar
O que achou desta história?
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!



