Três Coisas Boas

2 min de leituraHistorinha para dormir
Três Coisas Boas
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Na casa da Manu tinha uma brincadeira de todas as noites.

Quando ela já estava deitada, com o edredom até o pescoço, a mãe sentava na beirada da cama e perguntava:

— E aí? Três coisas boas de hoje.

Aí Manu levantava a mão e ia contando nos dedos.

— Um: teve bolo de cenoura no lanche. Dois: a Lelê me emprestou a caneta que tem cheiro de morango. Três: o Tico do apartamento de baixo latiu pra mim no elevador, mas era latido de amigo.

E a mãe dava um beijo na testa dela e apagava a luz.

A noite sem nenhuma

Mas teve uma terça-feira que foi ruim do começo ao fim.

De manhã, Manu acordou atrasada e foi para a escola com o cabelo meio torto. Na aula de matemática, ela errou uma conta no quadro e um menino riu. No recreio, a Lelê ficou brincando com outra menina e não chamou a Manu. E, na hora de ir embora, começou a chover e o guarda-chuva da mãe furou bem no meio.

À noite, quando a mãe sentou na beirada da cama e perguntou, Manu virou para o lado.

— Hoje não teve nenhuma.

A mãe não discutiu. Só ficou quietinha ali, alisando o cabelo da Manu.

As coisas pequenas

Depois de um tempo, ela disse:

— Posso tentar achar uma pra você?

Manu deu de ombros, que quer dizer "pode".

— Quando choveu — falou a mãe —, você ficou embaixo do toldo da padaria comigo. E a gente viu aquele senhor de terno correndo com uma pasta na cabeça.

Manu deu uma risadinha sem querer. Foi engraçado mesmo.

— Isso conta? — ela perguntou.

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— Conta. Coisa boa não precisa ser grande.

Manu ficou pensando. E, devagarinho, foi levantando um dedo.

— Então… um: o senhor da pasta na cabeça.

Levantou outro.

— Dois: hoje o pão de queijo da cantina tava quentinho.

Parou. Franziu a testa. Aquela era a parte difícil.

— A três eu não acho, mãe.

A terceira

A mãe pensou um pouquinho. Depois disse, bem baixinho:

— Três: você me contou do dia ruim. Não guardou sozinha.

Manu olhou para ela.

Era verdade. E era bom mesmo.

Ela levantou o terceiro dedo e ficou olhando para os três dedinhos levantados no escuro, como se fossem uma coisa que ela tivesse construído.

— Mãe. Amanhã eu conto três de novo?

— Todo dia. Até nos dias ruins. Principalmente nos dias ruins.

A mãe deu o beijo na testa e apagou a luz.

E, no escuro, antes de dormir, Manu já foi começando a procurar as três do dia seguinte.

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