A Janelinha da Bia

3 min de leituraHistorinha para dormir
A Janelinha da Bia
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O dente da frente da Bia estava mole fazia uma semana.

Ela passava o dia inteiro empurrando ele com a língua. Para a frente, para trás. Para a frente, para trás. Ele balançava igual porteira velha, mas não caía.

Até que, num domingo, Bia mordeu uma espiga de milho cozido.

Crec.

Ela tirou o milho da boca e lá estava ele, grudado num grão amarelo: um dentinho branco, pequenininho.

— CAIU! — Bia gritou, pulando da cadeira. — VÔ, CAIU!

O problema

A alegria durou até a hora do jantar.

Foi quando a mãe lembrou, olhando o calendário na geladeira:

— Amanhã é o dia da foto da escola, né, filha?

Bia correu para o espelho do banheiro e sorriu.

Bem no meio do sorriso, onde antes tinha um dente, agora tinha um buraco. Uma janela aberta.

Ela tentou sorrir de boca fechada. Ficou parecendo um peixe emburrado.

Tentou sorrir de lado. Ficou parecendo que estava com dor de barriga.

— Eu não vou na foto — ela anunciou, na sala. — Nunca mais.

A janela do Vô Zeca

O Vô Zeca, que morava com eles, estava vendo o jornal na televisão. Ele desligou, olhou para a neta e fez uma cara muito séria.

— Deixa eu ver essa janela.

Bia abriu a boca, envergonhada.

— Hum. É uma janela bonita. Mas a minha é maior.

E, antes que Bia entendesse, o Vô Zeca tirou a dentadura inteira da boca e colocou num copo d'água em cima da mesa. Depois sorriu. Um sorriso enorme, murcho, sem nenhum dente.

— Olha aqui. Isso não é janela. Isso é portão!

Bia riu tanto que teve que sentar no chão.

Mourão, mourão

Antes de dormir, o Vô Zeca levou Bia até o quintal, com o dentinho na mão dela.

— Quando eu era menino, minha mãe me ensinou uma coisa. Dente de leite a gente não joga no lixo. A gente joga no telhado e pede um novo.

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— Pede pra quem?

— Pro Mourão. Tem que falar assim: Mourão, mourão, toma esse dente podre e me dá um são.

Bia franziu a testa.

— Mas meu dente não é podre, vô. Ele é branquinho.

O avô coçou a cabeça.

— É verdade. Então fala do seu jeito.

Bia pensou um pouco, fechou os olhos e jogou o dente com toda a força em cima do telhado.

— Mourão, mourão, toma esse dente bonito e me dá outro igualzinho!

O dente fez tic, tic, tic nas telhas e sumiu.

A foto

No dia seguinte, na escola, a moça da foto arrumou todo mundo na escada do pátio.

Bia ficou na ponta, de boca bem fechada.

Aí ela olhou para o lado. O Pedro também estava de boca fechada. E a Duda. E o Miguel.

— Por que vocês não estão sorrindo? — ela cochichou.

O Pedro abriu a boca. Faltava um dente embaixo. A Duda abriu a boca. Faltavam dois em cima. O Miguel abriu a boca. Estava sem os dois da frente.

Bia começou a rir. E, quando riu, todo mundo viu a janelinha dela. E todo mundo começou a rir junto.

Clic!

A moça da foto olhou a telinha da câmera e disse:

— Essa ficou a melhor de todas.

A novidade

Na hora de dormir, já deitada, Bia passou a língua no buraquinho do sorriso, como já tinha virado mania.

E sentiu uma coisa diferente. Lá dentro da gengiva, bem no buraquinho, uma pontinha dura.

Era o dente novo, chegando devagarinho.

Bia sorriu no escuro, com janelinha e tudo.

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