O Flautista de Hamelin

Na Alemanha, no ano de 1284, havia uma cidade chamada Hamelin, na beira do rio Weser.
Era um lugar bonito, de casas de madeira, ruas de pedra e um rio largo passando ao lado.
Até o ano em que apareceram os ratos.
A cidade tomada
Primeiro foi um aqui, outro ali.
Depois foram dezenas. Depois centenas. Depois tantos que ninguém mais conseguia contar.
Eles comiam o queijo das despensas. Roíam o pão. Entravam até nos quartos. Faziam ninho dentro dos chapéus dos moradores. Apareciam dentro das panelas e em cima da mesa na hora do jantar.
O povo tentou de tudo. Tentou gato, tentou armadilha, tentou cachorro. Nada resolvia.
Então a cidade inteira foi bater na porta da prefeitura.
— Façam alguma coisa! — gritavam. — A gente paga imposto para quê?
O prefeito e os vereadores ficaram sentados na sala de reuniões, olhando um para a cara do outro, sem a menor ideia do que fazer.
O homem da roupa colorida
Foi aí que bateram na porta.
Na frente da prefeitura estava um homem alto e magríssimo, com uma roupa de retalhos meio vermelha e meio amarela, um chapéu com pena e uma flauta comprida na mão.
— Ouvi dizer que vocês têm um problema — disse ele. — Eu resolvo.
— Você? E como?
— Eu tenho um jeito com bicho. Tiro todos os ratos daqui antes do sol se pôr.
O prefeito riu, sem acreditar.
— Se você fizer isso, eu pago a você mil moedas de ouro.
— Combinado — disse o homem.
E os vereadores acharam graça, porque estavam certos de que nunca iam precisar pagar.
A música
O homem saiu para o meio da rua, levou a flauta aos lábios e começou a tocar.
Era uma música esquisita. Fininha, corrida, cheia de voltinhas.
E, de todos os lugares da cidade, começaram a sair ratos.
Saíram dos porões, dos telhados, dos armários, das chaminés, dos sacos de farinha, de dentro das botas. Saíram magros, gordos, velhos, filhotes. E foram todos atrás do homem, numa fila que não acabava mais.
Ele atravessou a cidade tocando, com o rio de ratos atrás.
Chegou à beira do Weser, o rio largo que passa ao lado da cidade.
E continuou andando até a água.
Os ratos foram atrás, e a correnteza levou todos eles para bem longe de Hamelin.
Quando o homem voltou, a cidade estava em festa. Os sinos tocavam. As pessoas dançavam na rua.
A conta
O flautista foi até a prefeitura e disse:
— Pronto. Agora, as mil moedas.
O prefeito, que já estava bem à vontade de novo, fez uma cara de pena.
— Mil moedas? Por uma tarde de assopro numa flautinha? Ora, meu caro. Você não gastou nada, não sujou a mão, não levantou peso. — Ele empurrou uma bolsinha pequena pela mesa. — Toma aí cinquenta. E olhe lá.
O homem não gritou. Não bateu na mesa.
Só olhou o prefeito nos olhos e disse, bem devagar:
— Quem não paga o que combinou acaba pagando mais caro.
E foi embora.
A bolsinha das cinquenta moedas ficou ali, na mesa, sem ninguém encostar nela.
O dia seguinte
Na manhã seguinte, enquanto os adultos trabalhavam e a cidade seguia a vida, ouviu-se de novo aquela flauta.
Mas era outra música.
Dessa vez não era fininha e corrida. Era alegre, saltitante, do tipo que faz o pé mexer sozinho.
E, de todas as casas de Hamelin, começaram a sair crianças.
Saíram rindo, batendo palma, pulando. Foram todas atrás do homem de roupa colorida, pela rua principal, na direção da montanha que fica depois da cidade.
Os adultos correram atrás, gritando. Mas as pernas deles pareciam pesadas demais, e a música ia mais depressa.
O flautista chegou à montanha, e a criançada sumiu com ele atrás de uma curva do caminho.
A cidade em silêncio
Hamelin ficou sem barulho de criança.
E não existe silêncio pior do que esse.
As mães sentaram na porta de casa. Os pais foram até a montanha e voltaram sem ninguém. O prefeito, que de repente parecia ter envelhecido dez anos, ficou o dia inteiro na janela da prefeitura, olhando a rua vazia.
Naquela noite, ele mandou juntar tudo o que a cidade tinha: o ouro do cofre, o dinheiro dos vereadores, o dele. Juntou mais de mil moedas.
E os moradores saíram pela estrada da montanha, com tochas acesas, procurando o flautista para pagar.
O acerto
Eles acharam o homem sentado numa pedra, no alto do caminho, com a flauta no colo, esperando.
O prefeito colocou o saco de moedas no chão, na frente dele.
— Está tudo aqui, e mais um tanto — disse ele, com a voz embargada. — Por favor.
O flautista contou as moedas, uma por uma, sem pressa nenhuma.
Depois disse:
— Eu não levei as crianças para machucar ninguém. Levei para vocês se lembrarem de uma coisa.
— De quê?
— De que o combinado não é favor. É dívida.
Ele guardou o dinheiro, levou a flauta à boca e tocou uma terceira música, que era a mais bonita de todas.
O caminho de volta
E, do outro lado da curva do caminho, as crianças foram aparecendo.
Estavam todas bem. Nenhum arranhão, nenhuma lágrima. Só com sono, com fome e sem entender direito por que tinham ido atrás de um homem que não conheciam.
Cada uma correu para o colo da sua mãe e do seu pai.
Quando os moradores olharam de volta para a pedra, o flautista já não estava lá.
Ninguém nunca mais viu aquele homem de roupa vermelha e amarela.
O que ficou
Dizem que, a partir daquele dia, Hamelin virou a cidade mais correta da Alemanha.
Lá ninguém atrasa pagamento. Ninguém promete o que não vai cumprir. Ninguém aperta a mão de alguém e depois inventa desculpa.
E, na rua principal, os moradores escreveram numa pedra a data daquele dia, para não esquecer nunca.
Esta lenda é contada na Alemanha há mais de setecentos anos: a tradição marca o dia 26 de junho de 1284, na cidade de Hameln, às margens do rio Weser. Ficou famosa numa versão dos Irmãos Grimm, e a roupa metade vermelha e metade amarela, as mil moedas e a oferta de cinquenta vêm de um poema inglês de Robert Browning. Na lenda antiga, as crianças somem e não voltam mais, e a data gravada na cidade é a do desaparecimento. O acerto de contas e a volta para casa são o final desta versão, escrita para a hora de dormir.
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