O Cobertor de Retalhos

Na cama da Manuela tinha um cobertor diferente de todos os outros.
Ele não era de uma cor só. Era feito de pedacinhos.
Pedacinhos quadrados de pano, um do lado do outro, costurados à mão com uma linha grossa que aparecia por cima. Tinha quadradinho xadrez, quadradinho florido, quadradinho listrado, quadradinho azul-liso já meio desbotado.
Quem tinha feito era a Vó Ceci.
E tinha uma coisa que a Manuela só descobriu numa noite de inverno, quando não estava conseguindo dormir.
A noite fria
Fazia frio de verdade naquela noite. Daqueles que o nariz fica gelado mesmo debaixo das cobertas.
A Manuela chamou baixinho:
— Vó.
A Vó Ceci veio, sentou na beirada da cama e ajeitou o cobertor no ombro da neta.
— Não tá dormindo?
— Não.
— Então deixa eu te contar uma coisa que você não sabe.
Ela passou a mão em cima do cobertor, procurando alguma coisa, até parar num quadradinho de tecido xadrez azul e branco.
— Tá vendo esse aqui? Isso aqui era a camisa do seu avô.
A camisa do avô
A Manuela nunca tinha conhecido o avô. Ele tinha morrido quando a mãe dela era pequena.
Ela esticou o dedo e encostou no quadradinho xadrez. Era um pano meio grosso, mais áspero que os outros.
— Ele usava essa camisa pra trabalhar? — perguntou.
— Usava pra passear. Era a camisa boa dele. — A Vó Ceci sorriu. — Ele botava essa camisa, passava brilhantina no cabelo e a gente ia dançar no salão da praça, no sábado à noite.
— O vô dançava?
— Ih, menina. Seu avô dançava mal pra caramba. Pisava no meu pé o tempo todo. — Ela riu sozinha. — Mas ele achava que dançava bem, e isso é o que importa.
A Manuela ficou passando o dedo no xadrez, devagarinho, imaginando aquele pedacinho de pano rodando num salão.
— E esse aqui, vó?
O vestido de bolinha
O dedo dela tinha parado num quadradinho branco com bolinhas vermelhas.
— Esse era o vestido da sua mãe, quando ela tinha a sua idade.
— A MINHA MÃE?
— Chiiii. Baixa a voz, que ela tá dormindo.
A Manuela abaixou a voz, mas continuou espantada.
— Ela usava vestido de bolinha?
— Usava e não tirava. Dormia com ele, se deixasse. Um dia ela caiu de bicicleta com esse vestido e rasgou aqui no joelho. Chorou mais pelo vestido do que pelo joelho.
A Manuela olhou o quadradinho de bolinhas e achou impossível.
A mãe dela, que trabalhava de terno, que dirigia, que resolvia tudo, já tinha chorado por causa de um vestido.
O retalho amarelo
— E esse amarelo?
— Ah. Esse é especial.
A Vó Ceci demorou um pouquinho.
— Esse era o macacão que você usou pra ir pra casa, no dia que você nasceu.
A Manuela ficou quieta.
— Eu usei ele?
— Você usou uma vez só, porque você era do tamanho de um pão e cresceu rápido demais. Aí eu guardei.
A menina puxou o cobertor mais para cima e ficou olhando para o quadradinho amarelo.
Era pequeno, meio encardido de tanto ser lavado, com um desenho de nuvem quase apagado num canto.
— Vó, tem um pedacinho de mim aqui.
— Tem um pedacinho de todo mundo aí.
O cobertor inteiro
Aí a Manuela fez uma coisa que ela nunca tinha feito: sentou na cama e olhou o cobertor inteiro, de uma vez.
E não era mais um cobertor.
Era o avental que a bisavó usava na cozinha. Era a toalha de mesa do Natal em que caiu chuva e todo mundo teve que correr para dentro. Era a camisa do tio Beto, que ele detestava e que a Vó Ceci deu um jeito de sumir. Era a fronha do berço. Era um pedaço de cortina de uma casa em que a família morou há quarenta anos, numa cidade onde a Manuela nunca foi.
Era um monte de gente, um monte de dia comum, um monte de história pequena, tudo costurado junto num quadrado só.
— Vó… quantas pessoas tem aqui dentro?
A Vó Ceci pensou.
— Deixa eu ver. — Ela foi apontando com o dedo, contando baixinho, e teve retalho que ela levou um tempo para lembrar de quem era. — Nove. Nove, contando você.
O quadradinho que falta
Tinha um cantinho do cobertor, embaixo, perto do pé, que não estava terminado. Era um pedaço liso, sem retalho, com a linha solta.
— Por que esse pedaço tá vazio?
A Vó Ceci deu um sorriso de quem já esperava aquela pergunta havia tempo.
— Porque ainda vai acontecer coisa nessa família.
Ela puxou o cobertor de volta até o ombro da Manuela e ajeitou nos dois lados, do jeito que ela sempre fazia, apertadinho, feito um embrulho.
— Quando você crescer, você bota o que quiser aí. Um pedaço da roupa de alguém que você gostar muito.
— E quem vai costurar?
— Você.
— Eu nem sei costurar!
— Então eu te ensino. — A Vó Ceci se levantou e apagou o abajur. — Mas não hoje, que já tá tarde demais.
O calor
Já no escuro, a Manuela ficou um tempinho acordada.
Ela pegou a ponta do cobertor com a mão e foi apalpando os quadradinhos, um por um, no escuro, reconhecendo pelo toque: o áspero da camisa do avô, o liso do vestido de bolinha, o macio do macacão amarelo.
E ela pensou uma coisa boa.
Que o cobertor esquentava por causa do pano, claro.
Mas que talvez esquentasse um pouquinho mais por causa de quem tinha usado cada pedaço antes.
Aí o quarto ficou quieto, e a Manuela dormiu, embrulhada em nove pessoas ao mesmo tempo.
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