Maria e o Dragão de Pedra do Cariri

Maria morava em Santana do Cariri, uma cidadezinha no sul do Ceará, pertinho da Chapada do Araripe.
Lá, o chão é seco, o sol é forte e o céu é tão azul que parece pintado. E lá, quase todo mundo trabalha com pedra.
O pai da Maria também. Ele trabalhava numa pedreira, tirando do chão umas lajotas de pedra clarinha, cor de areia, que depois viravam piso de casa em muitos lugares do Brasil.
A Maria tinha uma coleção de pedrinhas numa lata de biscoito. Pedra redonda, pedra brilhante, pedra com risquinho. Mas nenhuma parecida com a que o pai trouxe para casa naquela quarta-feira.
A pedra com um peixe dentro
O pai chegou suado, colocou a pedra em cima da mesa da cozinha e chamou:
— Maria, vem ver o que saiu hoje da pedreira.
Era uma placa de pedra do tamanho de um caderno. E, bem no meio dela, desenhado como se alguém tivesse feito com lápis bem fininho, estava um peixe.
Um peixe inteiro. Com a cabeça, o olho, a espinha, as barbatanas e até as escaminhas.
— Pai… é um peixe de verdade?
— Foi. Há muito, muito tempo. Isso se chama fóssil.
A Maria passou o dedo bem devagar em cima do peixe. Ele era liso, mais escuro que a pedra, e tinha a boca um pouquinho aberta, como se tivesse parado no meio de uma frase.
O conselho do vizinho
No dia seguinte, Seu Nonato, o vizinho, viu a pedra na janela.
— Oxente, Maria! Isso aí vale dinheiro. Tem turista que paga bem por um peixinho desses. Vende!
A Maria ficou pensando. Dinheiro era bom. Dava para comprar a bicicleta que ela queria havia tanto tempo.
Mas ela lembrou da aula da professora Luzia, na semana anterior. A professora tinha dito que, no Brasil, os fósseis não são de quem acha. São de todo mundo. Que eles contam a história da Terra, e que o lugar deles é onde todo mundo possa ver e onde os cientistas possam estudar.
— E se ninguém nunca mais vir o meu peixe? — a Maria perguntou para o pai, naquela noite.
O pai sorriu.
— Então leva ele pra quem sabe cuidar.
O museu
Na cidade tinha um museu de fósseis. A Maria já tinha passado na frente dele mil vezes, mas nunca tinha entrado.
No sábado, ela foi com o pai, carregando a pedra embrulhada num pano de prato, bem apertada contra o peito.
Quem atendeu foi uma moça de óculos e cabelo cacheado, com as mãos cheias de poeira de pedra. Ela se chamava Dona Socorro e era paleontóloga, que é o nome de quem estuda os fósseis.
Quando a Maria desembrulhou o pano, a Dona Socorro arregalou os olhos.
— Que peixe bonito! E inteirinho! Sabe quanto tempo ele tem?
A Maria balançou a cabeça.
— Mais de cem milhões de anos.
A Maria tentou imaginar cem milhões de anos. Não conseguiu. Era mais tempo do que todos os aniversários de todas as pessoas da cidade juntos.
— Mas como é que um peixe veio parar no sertão? — ela perguntou. — Aqui não tem mar.
— Hoje não tem. — A Dona Socorro sorriu. — Mas, naquele tempo, aqui onde é tudo seco existia uma lagoa enorme. Os peixes nadavam nela. Quando morriam, afundavam na lama do fundo. A lama foi virando pedra, bem devagarinho, e guardou os peixes lá dentro. Como um livro que guarda uma flor entre as páginas.
O primo voador
Depois, a Dona Socorro levou a Maria para dentro do museu.
E lá, pendurado no teto, estava ele.
Era um bicho grande, de asas abertas quase da largura dos braços do pai, esticadas feito vela de barco, um bico curto e curvado para baixo e, na cabeça, uma crista alta e arredondada, pintada de vermelho e laranja.
— Um dragão! — a Maria cochichou.
— Quase — riu a Dona Socorro. — É um pterossauro. Os ossos dele também foram achados aqui na Chapada do Araripe. Ele tem até um nome que vem da língua tupi: Tapejara.
— Então ele é um dinossauro?
— Não. Ele é primo dos dinossauros. Os pterossauros voavam com asas de pele. Os dinossauros andavam pela terra. Bom… quase todos. — Ela apontou pela janela para um bem-te-vi pousado no fio. — Os passarinhos descendem dos dinossauros. São os únicos que sobraram até hoje.
A Maria olhou para o bem-te-vi com muito mais respeito.
A etiqueta
Antes de irem embora, a Dona Socorro fez uma pergunta:
— Maria, a partir de hoje o seu peixe mora aqui no museu. Aqui ele vai ser estudado, e todo mundo que vier vai poder ver. Você promete que vem visitar?
A Maria olhou para o peixe uma última vez. Ele continuava com a boca um pouquinho aberta, parado no meio da frase dele havia cem milhões de anos.
— Prometo.
A Dona Socorro pegou um cartãozinho e escreveu com letra bonita:
Peixe fóssil. Chapada do Araripe. Entregue ao museu por Maria, 8 anos.
A Maria leu o cartão três vezes, só para ter certeza de que era o nome dela ali.
O sonho
Naquela noite, deitada na rede do quarto, com o ventilador girando devagar, a Maria ficou olhando para o teto.
E, quando fechou os olhos, o teto sumiu.
No lugar dele apareceu uma lagoa enorme, verde e azul, onde agora é o sertão. Peixinhos prateados nadavam lá embaixo, iguaizinhos ao dela. E, lá em cima, planando no vento quente, estava o Tapejara, com a crista vermelha brilhando no sol.
Ele desceu devagar, bem pertinho da rede, e a Maria subiu nas costas dele.
Os dois voaram por cima da lagoa, por cima da chapada, por cima de cem milhões de anos.
Quando a mãe passou pela porta do quarto, a Maria já dormia. E a rede ainda balançava devagarinho, como quem continua voando.
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