Cachinhos Dourados e os Três Ursos

No meio de uma floresta havia uma casinha de madeira.
Nela moravam três ursos.
O Urso Grande, que tinha voz de trovão e uma poltrona enorme.
A Ursa do Meio, que era quem cuidava do fogão e da horta.
E o Ursinho Pequeno, que tinha tudo do tamanho dele: uma tigela pequena, uma cadeira pequena e uma cama pequena, com colcha de retalhos.
O mingau quente demais
Numa manhã, a Ursa do Meio fez mingau de aveia e serviu nas três tigelas.
O Ursinho Pequeno provou e deu um pulo.
— Tá quente!
— Então a gente dá uma volta enquanto esfria — disse o Urso Grande.
E os três saíram para passear na floresta, deixando a porta só encostada, como quem mora num lugar onde ninguém mexe no que não é seu.
A menina
Naquela mesma manhã, uma menina chamada Cachinhos Dourados estava andando pela floresta.
Ela tinha seis anos, cachos dourados e uma curiosidade do tamanho do mundo.
A mãe tinha dito para não sair da trilha.
Ela saiu.
Andou, andou, e achou a casinha.
Bateu na porta. Ninguém respondeu.
Bateu de novo. Nada.
E aí — e essa foi a parte errada — ela empurrou a porta e entrou.
As três tigelas
Em cima da mesa tinha três tigelas de mingau, soltando um cheirinho bom.
A Cachinhos estava com fome de quem andou demais.
Ela provou a tigela grande.
— Ai! Quente demais!
Provou a tigela do meio.
— Eca. Fria demais.
Provou a tigela pequena.
— Essa está perfeita.
E comeu tudo. Até raspar o fundo.
As três cadeiras
Depois de comer, ela quis sentar.
Subiu na cadeira grande. Era dura e alta demais, e os pés dela ficaram balançando no ar.
Sentou na cadeira do meio. Era macia demais, e ela afundou até o queixo.
Sentou na cadeira pequena.
— Essa está perfeita!
Foi aí que se ouviu um CRAC.
A cadeirinha se partiu em pedaços, e a Cachinhos foi parar sentada no chão.
Ela olhou para os pedaços de madeira. Ficou vermelha. Pensou em consertar, não soube como, e fez o que muita gente faz quando quebra alguma coisa: fingiu que não tinha acontecido e foi para outro cômodo.
As três camas
No quarto tinha três camas.
Ela deitou na cama grande. Dura feito tábua.
Deitou na cama do meio. Funda demais, quase sumiu no colchão.
Deitou na cama pequena, a do Ursinho, com a colcha de retalhos.
— Essa está perfeita — ela bocejou.
E dormiu.
Os donos da casa voltaram
Lá pelo meio-dia, os três ursos voltaram do passeio, com fome.
O Urso Grande olhou a mesa e franziu o nariz.
— Alguém mexeu no meu mingau — disse ele, com aquela voz de trovão.
— Alguém mexeu no meu mingau também — disse a Ursa do Meio.
O Ursinho Pequeno olhou dentro da tigela dele. E a voz saiu bem fininha.
— Alguém mexeu no meu mingau… e comeu tudo.
E na cadeira
Eles foram até a sala.
— Alguém sentou na minha cadeira — disse o Urso Grande.
— Alguém sentou na minha cadeira — disse a Ursa do Meio.
O Ursinho Pequeno olhou para os pedaços de madeira no chão e ficou com os olhos cheios d'água.
— Alguém sentou na minha cadeira… e quebrou ela inteirinha.
E na cama
Os três subiram para o quarto, bem devagar.
— Alguém deitou na minha cama — disse o Urso Grande.
— Alguém deitou na minha cama — disse a Ursa do Meio.
E o Ursinho Pequeno apontou com a patinha.
— Alguém deitou na minha cama… e ela ainda tá aí!
O susto
A Cachinhos Dourados abriu os olhos.
E viu três ursos parados na porta do quarto, olhando para ela.
Ela não pensou em nada. Só levantou de um pulo, passou correndo no meio dos três, desceu a escada de dois em dois degraus e saiu pela porta, floresta afora, sem olhar para trás.
Os ursos não correram atrás. Ficaram só ali, pasmos, no meio do quarto.
— Ela nem pediu desculpa — disse o Ursinho.
A parte que pouca gente conta
A Cachinhos correu até achar a trilha de novo, e da trilha até em casa.
Chegou sem fôlego, com o coração aos pulos.
E, à noite, deitada na própria cama, ficou pensando numa coisa que não saía da cabeça dela: a carinha do ursinho olhando os pedaços da cadeira.
No dia seguinte, ela contou tudo para a mãe. Contou a parte de sair da trilha, a parte de entrar sem ser convidada, a parte do mingau e a parte da cadeira quebrada.
A mãe ouviu até o fim.
— E agora? — perguntou.
— Agora eu acho que eu tenho que consertar.
De volta à casinha
Elas foram juntas, pela trilha, sem sair dela.
A mãe levava um pote de doce de amora.
A Cachinhos levava uma cadeirinha novinha. O avô dela era marceneiro e tinha passado a manhã fazendo uma igualzinha à que ela quebrou, do mesmo tamanho.
Bateram na porta.
Dessa vez esperaram.
A porta abriu, e ali estava o Urso Grande, enorme, olhando para baixo.
A Cachinhos engoliu seco e disse a frase que tinha ensaiado o caminho todo:
— Desculpa. Eu entrei sem pedir, comi o mingau do seu filho e quebrei a cadeira dele. Meu avô fez uma nova. E a gente trouxe doce.
O Urso Grande olhou para a cadeirinha. Olhou para o pote de doce. Olhou para a ursa, que já estava atrás dele.
E abriu a porta inteira.
O lanche
Naquela tarde, teve mingau novo, doce de amora e uma cadeirinha nova, que ficou um pouquinho torta mas aguentou firme.
O Ursinho Pequeno e a Cachinhos Dourados passaram o resto do dia brincando no quintal.
E, daquele dia em diante, ela voltou muitas vezes à casinha da floresta.
Sempre pela trilha.
E sempre batendo na porta antes.
Esta história vem da Inglaterra. A versão mais antiga que se conhece é de Robert Southey, de 1837, e nela quem entrava na casa era uma velhinha; a menina apareceu em 1849. No conto tradicional ela foge e a história acaba ali — o pedido de desculpa e a cadeira nova são um final escrito para esta coleção.
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