Bip e o Foguete de Torradeira

O Planeta Sucata não era um lugar bonito. Não havia grama verde ou oceanos azuis, apenas montanhas e mais montanhas de metal enferrujado, fios velhos e naves espaciais quebradas.
Lá trabalhava Bip. Ele era um robozinho pequeno, com um olho de vidro azul e outro verde, rodinhas de patins no lugar dos pés e uma antena torta que parecia um saca-rolhas. A função de Bip era simples: varrer parafusos e amassar latas de óleo espacial o dia todo.
Os robôs maiores e mais modernos riam dele.
— Olha lá o Bip! — zombava Max-Tron, um robô enorme e prateado que esmagava motores com uma mão só. — Ele é feito de lixo. Nunca vai ser nada além de um varredor de chão.
Bip abaixava a cabeça de metal, mas não deixava de sonhar. Todas as noites, ele sentava no topo da montanha de sucata mais alta e olhava para o céu escuro. Lá longe, brilhava a Grande Nebulosa de Neon, um lugar no espaço que parecia uma nuvem mágica de cores rosa, roxa e azul. O sonho de Bip era voar até lá.
Um dia, enquanto varria perto da esteira de reciclagem, Bip encontrou uma torradeira gigante e quebrada que pertencia ao refeitório de um antigo cruzeiro espacial. Os olhos incompatíveis de Bip brilharam. Ele não viu uma torradeira inútil; ele viu a cabine de um foguete.
A partir daquele dia, Bip começou seu projeto secreto.
Sempre que terminava seu turno de limpeza, ele procurava peças especiais no lixo. Ele encontrou duas garrafas de fogos de artifício vazias para servirem de propulsores. Achou uma porta de máquina de lavar roupas para ser a janela da nave. E o mais importante: um teclado de videogame antigo para ser o painel de controle.
Quando Max-Tron e os outros robôs descobriram o que Bip estava fazendo, as risadas foram tão altas que fizeram o chão tremer.
— Você vai voar nisso? — gargalhou Max-Tron. — É uma torradeira voadora! Vai explodir antes de sair do chão. Robôs de limpeza não voam, Bip. É um defeito no seu sistema!
Bip sentiu sua bateria ficar fraca de tristeza. Ele quase jogou sua chave de fenda fora. Mas ele olhou para o céu. A Nebulosa de Neon continuava lá, brilhando, como se estivesse esperando por ele.
"Não importa do que eu sou feito", pensou Bip. "Importa o que eu posso construir."
Ele apertou o último parafuso, colou a janela de máquina de lavar com fita adesiva espacial e pintou a nave com uma lata de tinta amarela que achou no lixo. Ele a chamou de A Estrela Dourada.
Chegou o dia do teste. Todos os robôs do planeta pararam de trabalhar para ver o "foguete de torradeira". Bip entrou na nave, sentou na cadeira (que era uma almofada velha) e digitou o código no teclado de videogame: cima, cima, baixo, baixo, iniciar!
Cof, cof, BUM!
As garrafas de propulsão soltaram uma fumaça preta. A nave tremeu. Bateu como uma panela caindo da escada. Os robôs grandes começaram a rir de novo.
Mas então... uma chama azul forte saiu dos motores. A Estrela Dourada flutuou um metro. Depois dez metros. Depois cem!
Bip puxou a alavanca de velocidade. A nave de sucata rasgou o céu cinzento do planeta como um cometa amarelo, deixando uma trilha de faíscas brilhantes para trás. Os robôs no chão ficaram de boca aberta, sem conseguir soltar nenhum som de suas caixas de voz.
Bip voou mais alto do que qualquer robô daquele planeta já havia voado. Quando ele atravessou a escuridão do espaço, a luz roxa e rosa da Grande Nebulosa de Neon banhou seu rosto de metal. Era mais bonito do que ele jamais imaginou.
Ele provou para todos (e para si mesmo) que até as peças mais simples, quando montadas com um grande sonho, podem alcançar as estrelas.
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