A Menina que Desenhava o Escuro

5 min de leituraHistorinha para dormir
A Menina que Desenhava o Escuro
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A Alice tinha seis anos e um monstro no quarto.

Ele aparecia sempre no mesmo lugar: no canto, entre o guarda-roupa e a janela, depois que a luz grande apagava.

Não era um monstro com garra e dente. Era mais difícil de explicar. Era um monstro sem forma definida, um vulto escuro, uma coisa que estava ali e que ela não conseguia explicar direito.

Toda noite ela chamava a mãe.

E toda noite a mãe acendia a luz, mostrava o canto vazio e dizia:

— Está vendo? Não tem nada aí.

Aí a luz apagava, e tinha.

O caderno

Numa terça-feira, a mãe chegou no quarto com uma coisa diferente na mão.

Não era lanterna, nem spray antimonstro, nem bicho de pelúcia novo.

Era um caderno de desenho e uma caixa de lápis de cor.

— Toma — disse ela, sentando na beirada da cama. — Hoje eu não vou te falar que não tem nada aí.

A Alice arregalou os olhos.

— Eu sei que não tem monstro nenhum no seu quarto, filha. Mas tem medo. E o medo eu quero ver de perto.

— Como assim, ver?

— Eu quero saber como ele é. — A mãe abriu o caderno numa página em branco. — Desenha ele pra mim.

O primeiro desenho

A Alice olhou para o canto vazio do quarto, com o lápis na mão, e sentiu uma coisa esquisita.

Ela nunca tinha olhado direito para o monstro. No escuro, ela sempre fechava os olhos.

— Ele é grande — disse ela, começando.

— Grande quanto?

— Até o teto.

— Que cor?

A Alice pensou.

— Meio preto. Meio roxo.

Ela desenhou uma mancha enorme roxa e preta, que ocupou a folha inteira.

— Ele tem braço?

A Alice parou o lápis no ar.

— Eu… não sei.

— Então inventa. Ele é seu.

As perguntas

E foi assim que a mãe foi fazendo pergunta atrás de pergunta, enquanto a Alice desenhava.

Ele tem quantos olhos? Dois.

De que cor? Amarelos.

Ele tem orelha? Tem. Compridas, que nem de coelho, mas caídas.

Ele é peludo ou lisinho? Peludo. Bem felpudo.

Ele tem dente? … Tem dois. Mas só dois, e tortos.

Quando a Alice terminou, ela olhou para a folha.

E riu.

O monstro do canto do quarto tinha virado um bicho roxo, felpudo, de orelha caída e dois dentes tortos, com uma cara meio boba.

— Ele ficou engraçado — disse ela, sem acreditar.

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O segundo desenho

Na noite seguinte, a mãe perguntou:

— E hoje? Ele veio?

— Veio.

— Desenha o que ele estava fazendo.

E a Alice desenhou o monstro sentado no chão do canto, de pernas cruzadas.

— Por que sentado?

— Porque ele é muito grande e o teto é baixo. Ele bate a cabeça.

A semana inteira

Virou uma rotina.

Todas as noites, antes de dormir, a Alice fazia um desenho do monstro.

Ela descobriu, desenhando, um monte de coisas sobre ele.

Descobriu que ele não fala, só faz um barulhinho de geladeira.

Descobriu que ele tem medo de aspirador de pó.

Descobriu que ele fica no canto entre o guarda-roupa e a janela porque é o único lugar do quarto onde ele cabe sentado.

E descobriu, numa quinta-feira, uma coisa importante: ele não estava olhando para ela com raiva.

Ele estava olhando com curiosidade. Ele queria ver o desenho.

O desenho que ela mostrou

Naquela quinta, a Alice fez uma coisa que ela mesma não esperava.

Terminou o desenho, virou o caderno para o canto escuro do quarto e disse, baixinho:

— Ó. É você.

Ela ficou um tempo com o caderno erguido, com o coração batendo forte.

Não aconteceu nada.

Mas, quando ela deitou, o canto do quarto não parecia mais um buraco. Parecia um canto de quarto com um bicho felpudo sentado nele, provavelmente entediado, esperando o desenho do dia seguinte.

O que a mãe explicou

Uma noite, já com o caderno quase cheio, a Alice perguntou:

— Mãe, por que quando você acendia a luz ele sumia, e quando eu desenho ele fica?

A mãe pensou um pouco antes de responder.

— Porque o escuro não é vazio, filha. O escuro é um lugar que a gente não enxergou ainda. E a cabeça da gente não gosta de lugar vazio: ela enche do jeito dela, com a pior coisa que conseguir inventar.

— E o desenho?

— O desenho enche primeiro. Aí não sobra espaço para a cabeça inventar.

O caderno cheio

O caderno acabou em três semanas.

A Alice colou os desenhos numa cartolina e pendurou na parede, do lado da porta: vinte e um monstros roxos, felpudos, de dente torto, fazendo coisas diferentes em cada um.

No último desenho, o monstro estava deitado no canto, de olho fechado, dormindo.

Ela desenhou aquilo porque foi isso que ela viu naquela noite.

Hoje

A Alice hoje tem nove anos e não tem mais monstro no quarto.

Mas ela guardou a cartolina.

E, quando a prima pequena dorme na casa dela e diz que tem uma coisa esquisita no canto do quarto, a Alice não acende a luz nem diz que não tem nada ali.

Ela levanta, pega um caderno e um lápis, senta na cama do lado da prima e pergunta:

— Ele é de que cor?

Todo mundo já inventou um monstro no escuro: a cabeça faz isso sozinha quando não consegue enxergar direito. Se acontecer com você hoje, chama alguém da sua casa, acende a luz e desenha o bicho junto com essa pessoa — que cor ele tem, quantos olhos, se tem orelha. Costuma acontecer uma coisa engraçada no meio do caminho.

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