A Caixa de Lembranças da Vó Dita

Todo domingo, Caio ia almoçar na casa da Vó Dita.
A casa dela tinha cheiro de café coado e de bolo de fubá com erva-doce. No quintal tinha um pé de jabuticaba tão carregado que as frutinhas nasciam grudadas no tronco, pretinhas e brilhantes. E tinha a própria Vó Dita, que abria a porta sempre do mesmo jeito:
— Olha quem chegou! Meu passarinho!
Caio adorava ser o passarinho da Vó Dita.
As coisas esquecidas
Mas, de uns tempos para cá, a Vó Dita andava diferente.
Num domingo, ela guardou o açúcar dentro da geladeira. Em outro, perguntou três vezes para o Caio como estava a escola. Ele respondeu três vezes, e na terceira ela ouviu com a mesma cara de novidade da primeira.
Um dia, ela fez o bolo de fubá e esqueceu de colocar o fubá.
No carro, voltando para casa, Caio perguntou para a mãe:
— Por que a vó está esquecendo tudo?
A mãe demorou para responder. Ficou olhando a estrada.
— A memória da vó está ficando cansada, filho. É como um caderno velho que vai perdendo algumas folhas. Não é culpa dela. E não tem remédio que devolva as folhas que caíram.
— E se ela esquecer de mim?
A mãe não respondeu. Esticou a mão para o banco de trás e apertou o joelho dele.
O domingo difícil
Duas semanas depois, enquanto a mãe tirava as sacolas do carro, Caio tocou a campainha da casa da Vó Dita, como sempre.
Ela abriu a porta. Olhou para ele. E sorriu um sorriso educado, desses que a gente dá para desconhecidos.
— Pois não, menino? Você é filho de quem?
Caio sentiu uma coisa apertar dentro do peito, como se alguém tivesse fechado uma mão lá dentro.
Ele passou correndo pela porta, atravessou a cozinha e foi parar no quintal, debaixo do pé de jabuticaba. Sentou no chão, abraçou os joelhos e chorou.
A música
Ele não sabe quanto tempo ficou ali.
Só sabe que, depois de um tempo, ouviu os chinelos da Vó Dita arrastando na terra do quintal. Ela sentou devagarinho no banquinho de madeira ao lado dele.
Não disse o nome dele. Não disse "meu passarinho".
Mas começou a passar a mão no cabelo do Caio. Devagar, do jeito que sempre fazia. E começou a cantar, baixinho:
— Nana, neném, que a cuca vem pegar…
Caio parou de chorar.
Aquela música ele conhecia. A Vó Dita cantava para ele desde que ele era bebê. Ele não se lembrava de quando tinha ouvido pela primeira vez, mas o corpo dele lembrava.
E ele percebeu uma coisa: a Vó Dita tinha esquecido o nome dele. Mas a mão dela não tinha esquecido o caminho no cabelo. E a voz dela não tinha esquecido a música.
Mais tarde, quando contou isso para a mãe, ela disse:
— O nome às vezes sai da cabeça. Mas o carinho mora em outro lugar.
A ideia do Caio
Naquela semana, Caio pediu para a mãe uma caixa de sapatos vazia.
Dentro dela, ele colocou:
Uma foto dele com a Vó Dita, os dois sujos de terra, no dia em que plantaram a muda de manjericão.
O papel da receita do bolo de fubá, escrito à mão pela própria Vó Dita, anos atrás, com a letra redondinha dela e uma mancha de óleo no canto.
Um caroço de jabuticaba, lavado e seco.
Um desenho da casa dela, com a porta aberta e duas pessoas paradas nela.
E um cartão, escrito com a letra mais caprichada que ele conseguiu:
Eu sou o Caio. Você me chama de passarinho.
Na tampa, ele escreveu em letras grandes: CAIXA DE LEMBRANÇAS DA VÓ DITA.
Os domingos de agora
Agora, todo domingo, Caio e a Vó Dita sentam à mesa da cozinha e abrem a caixa juntos.
Tem domingo em que ela olha a foto e ri:
— Olha nós dois, que sujeira! Meu passarinho!
E tem domingo em que ela olha a foto sem reconhecer ninguém. Nesses dias, Caio conta a história da foto como se fosse a primeira vez. E ela ouve com a maior atenção do mundo.
Mas uma coisa acontece todo domingo, sem falhar: os dois fazem o bolo de fubá.
Antes era a Vó Dita que lia a receita e o Caio que mexia a massa. Agora, o Caio está aprendendo a ler direitinho na escola. Então é ele que lê a receita, devagar, apontando com o dedo. E é a Vó Dita que mexe a massa, com a colher de pau que ela usa há mais de quarenta anos.
— Três ovos, vó.
— Três ovos — ela repete, quebrando um por um.
E, quando o cheiro de erva-doce começa a sair do forno, a Vó Dita fecha os olhos e sorri. Como quem reconhece uma pessoa querida chegando.
Antes de dormir
Num desses domingos, à noite, deitado na cama, Caio ficou pensando.
Pensou que, se um dia ele esquecesse alguma coisa importante, queria que alguém fizesse uma caixa para ele também. E que sentasse do lado dele, e contasse as histórias de novo, com paciência, quantas vezes precisasse.
A roupa dele ainda tinha um pouquinho de cheiro de bolo.
E Caio adormeceu cantarolando baixinho, sem nem perceber, a música que a Vó Dita nunca tinha esquecido.
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