A Arara-Azul e a Árvore que o Tucano Plantou

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A Arara-Azul e a Árvore que o Tucano Plantou
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No meio do Pantanal, em cima de uma árvore velha e grossa, morava um casal de araras-azuis.

Eles se chamavam Anil e Jandira, e eram do azul mais azul que existe: azul de tinta, azul de céu limpo, com um risco amarelo em volta do olho que parecia maquiagem.

Quando os dois voavam juntos por cima do campo alagado, gritando aquele grito rouco que se ouve de longe, o Pantanal inteiro sabia que eles estavam passando.

A casa é o problema

Arara-azul tem um problema sério na vida: casa.

Ela não constrói ninho. Não junta graveto, não faz tigela de barro, não cava buraco no barranco.

Arara-azul precisa achar um buraco pronto num tronco de árvore. E não pode ser qualquer árvore, nem qualquer buraco.

Tem que ser fundo. Tem que ser largo. Tem que ter o chão de dentro cheio de serragem para os ovos não rolarem.

E, no Pantanal, quase sempre é num pé de manduvi — uma árvore grandona, de tronco gordo, que leva sessenta, setenta anos para ficar do tamanho certo e começar a apodrecer por dentro, formando o buraco.

Sessenta anos para nascer uma casa.

Por isso arara-azul não larga a casa dela por nada. Anil e Jandira voltavam para o mesmo buraco todo ano.

O vizinho de bico grande

E tinha um vizinho.

Numa árvore ali perto morava um tucano-toco, aquele grandão, de bico laranja enorme, que parece pintado de tinta.

O tucano não era exatamente amigo.

Toda vez que ele pousava por perto, a Jandira se enfiava no buraco e o Anil ficava na entrada, esticado, com as penas arrepiadas, gritando de um jeito que dava medo.

Porque tucano come ovo.

Se o casal descuidar, se os dois saírem ao mesmo tempo, o tucano desce, enfia aquele bicão no buraco e leva o ovo embora.

— Some daqui! — gritava o Anil.

O tucano coçava a asa, olhava para o lado, fingia que não era com ele, e ficava ali mais um tempo só para irritar.

Os dois ovos

Naquele ano, a Jandira botou dois ovos.

E começou a espera mais chata do mundo: um mês inteiro chocando, sem poder relaxar um minuto sequer, com o Anil vigiando a entrada e trazendo comida no papo para ela.

O primeiro ovo abriu numa manhã de novembro.

Saiu um bichinho que, sinceramente, não parecia nada com arara-azul. Era pelado, cinzento, de olho fechado, cabeça mole e uma barriga enorme. Feio de doer.

O Anil e a Jandira acharam ele lindíssimo.

O segundo não abriu. Acontece bastante com arara-azul: ela bota dois ovos e, quase sempre, cria um filhote só.

Então a Jandira ajeitou a serragem em volta do que tinha nascido e ficou com ele.

Esse a gente vai chamar de Azulim.

O filhote que não sai

Azulim demorou uma eternidade para ficar pronto.

Três meses dentro do buraco. Três meses comendo coquinho amassado que os pais traziam no papo, crescendo, criando pena, primeiro uma penugem cinzenta, depois uns canudinhos azuis, depois pena de verdade.

Quando ele finalmente botou a cabeça para fora, virou o Pantanal inteiro de ponta-cabeça: estava tudo muito claro, tudo muito grande, tudo muito longe.

— Vem — chamou o Anil, de um galho ali perto.

Azulim olhou o galho. Olhou o chão, lá embaixo, muito embaixo.

E voltou para dentro do buraco.

Levou mais uma semana até ele criar coragem.

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O primeiro voo

O primeiro voo do Azulim foi uma vergonha.

Ele se jogou, bateu as asas errado, girou, quase capotou no ar e pousou de qualquer jeito num galho fino, que dobrou todo com o peso dele. Ficou ali agarrado com o bico, de pernas balançando, sem saber o que fazer.

A Jandira desceu e ficou do lado dele.

Não ajudou. Só ficou ali.

Depois de um tempo, o Azulim endireitou sozinho, subiu de volta usando o bico como terceira pata — porque arara sobe em árvore mordendo e puxando — e chegou até o galho maior.

E gritou. Um grito enorme, rouco, desafinado, o primeiro grito de arara-azul dele.

O Anil respondeu do outro lado. A Jandira respondeu do lado dele. E o grito foi longe.

A descoberta do Azulim

Meses depois, já voando bem, o Azulim voltou com uma pergunta.

Ele tinha visto o tucano fazendo uma coisa estranha: pegando um fruto graúdo de uma árvore, engolindo a parte de fora e, um tempo depois, lá longe, em outra árvore, cuspindo a semente no chão.

— Pai. O tucano tava comendo o fruto do manduvi.

— Tava.

— E cuspindo a semente lá longe.

— Tava.

O Anil ajeitou as penas.

— É assim que nasce manduvi novo, filho. A semente cai longe da árvore-mãe, num lugar com espaço e sol, e vinga. Se cair embaixo da árvore velha, na sombra, não vinga.

Azulim ficou processando aquilo.

— Então… o tucano planta as árvores onde a gente mora?

— Planta.

— O mesmo tucano que quer comer nosso ovo?

— O mesmo.

Azulim não soube o que dizer.

— Pois é — disse o Anil. — O bicho que eu passo a vida enxotando da minha porta é o bicho que plantou a árvore da minha casa. E a casa que o filho do filho do meu filho vai ter, daqui a sessenta anos, quem tá plantando é ele, hoje, cuspindo semente por aí.

O jeito do mundo

Naquela tarde, os três ficaram num galho alto vendo o sol descer no campo alagado, tudo ficando laranja, com os tuiuiús andando lá embaixo na água rasa.

O tucano pousou numa árvore ali perto, com o bicão dele.

O Anil olhou para ele. Arrepiou as penas por reflexo, deu um grito curto de aviso — porque ovo é ovo, e cuidado é cuidado.

Mas não foi para cima.

E o tucano, depois de comer o que queria, levantou voo e saiu, com um fruto no bico, para cuspir a semente em algum lugar do Pantanal onde, daqui a muito tempo, vai ter uma árvore grossa com um buraco bom.

Talvez para um bisneto do Azulim.

De noite

Quando escureceu, os três se ajeitaram no galho mais alto, bem em cima do buraco do manduvi, um encostado no outro.

O Azulim foi o último a se acomodar. Antes, ele parou e olhou a copa da árvore por cima dele.

Uma árvore que alguém tinha plantado sem querer, sem saber, muito antes de ele nascer.

Aí ele encaixou a cabeça debaixo da asa e dormiu em cima da casa mais bem guardada do Pantanal.

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