Tetê, a Preguiça que Sabia Nadar

5 min de leituraHistorinha para dormir
Tetê, a Preguiça que Sabia Nadar
Ads

Na beira de um rio largo da Amazônia, no alto de uma embaúba, morava uma preguiça chamada Tetê.

Tetê fazia tudo devagar. Muito devagar.

Ela levava um minuto inteiro para esticar o braço até uma folha. Levava mais um para puxar a folha até a boca. E levava tanto tempo mastigando que, quando terminava, já estava com sono de novo.

O pelo dela era tão parado que tinha nascido nele uma alga bem miudinha que deixava a Tetê meio esverdeada. Ela não se importava. Achava que combinava com as folhas.

Os vizinhos apressados

Na mesma árvore morava uma família de macacos-prego.

Os macacos eram o contrário da Tetê. Pulavam de galho em galho, gritavam, quebravam coquinho com pedra, roubavam fruta uns dos outros e nunca, nunca paravam quietos.

— Bom dia, Tetê! — gritava o Pipo, o filhote mais novo, passando por ela voando.

Quando a Tetê terminava de abrir a boca para responder "bom dia", o Pipo já estava na árvore do lado.

Os macacos gostavam dela. Mas também achavam graça.

— Tetê, você já viu o rio lá embaixo? — perguntava o Pipo.

— Já — dizia ela, bem devagar.

— E já desceu lá embaixo?

— Uma vez por semana.

Era verdade. Preguiça desce da árvore mais ou menos uma vez por semana, para fazer cocô no pé do tronco, sempre no mesmo lugar. É uma viagem longa, perigosa e muito, muito lenta. Depois ela sobe de novo e não desce mais até a semana seguinte.

— Uma vez por semana! — O Pipo ria tanto que quase caía do galho. — Eu vou lá dez vezes por dia!

A chuva que não parava

Naquele ano, a chuva chegou com vontade.

Choveu uma semana inteira. Depois mais uma. O rio foi subindo, subindo, cobrindo as praias, as raízes, os troncos baixos. A floresta ficou com o pé dentro d'água.

Os macacos não se preocuparam. Macaco não precisa do chão. Eles continuaram pulando de árvore em árvore, só que agora por cima da água.

Até a tarde em que o Pipo quis mostrar que era o mais corajoso.

Num trecho em que o rio se estreitava, na margem do outro lado, tinha uma árvore carregada de fruta madura. Um galho comprido de uma árvore desta margem chegava quase até ela. O Pipo correu pelo galho, pulou, e alcançou a árvore do outro lado.

— Consegui! — gritou, de boca cheia.

Aí veio o vento.

O galho quebrado

O vento de chuva balançou tudo, e o galho comprido, velho e encharcado, fez um crec e caiu dentro do rio.

O Pipo ficou do outro lado.

Sozinho.

Sem ponte nenhuma.

A mãe dele gritou. O pai gritou. Os tios correram para a ponta de todos os galhos, procurando um caminho. Não tinha. O rio, agora, era largo demais para qualquer pulo.

E macaco-prego, que sabe fazer quase tudo, não gosta nem um pouco de nadar.

A noite estava chegando. O Pipo chorava baixinho, agarrado no tronco da árvore do outro lado, e a família inteira gritava para ele aguentar, sem saber o que fazer.

A mais lenta de todas

Foi aí que alguém lá do alto falou, bem devagar:

Ads

— Eu… vou… buscar… ele.

Todos os macacos se viraram.

Era a Tetê.

— Você? — disse o pai do Pipo, sem querer ser mal-educado. — Tetê, você leva o dia inteiro para descer da árvore!

— Pra descer da árvore, levo — disse a Tetê. — Mas eu não vou descer da árvore. Eu vou cair dela.

E, antes que alguém entendesse, ela soltou os braços e se deixou cair lá de cima, direto na água do rio.

Tchibum.

O segredo da Tetê

Os macacos ficaram olhando, horrorizados, para a água marrom.

Um segundo.

Dois.

Aí a cabeça da Tetê apareceu. Tranquila. E ela começou a nadar.

E nadava bem. Muito bem. Esticava os braços compridos na frente, puxava a água para trás, um braço, depois o outro, com a cabeça sempre de fora, sem pressa e sem parar. No chão, a Tetê era a coisa mais lenta da floresta. Na água, ela ia três vezes mais rápido do que andando.

Preguiça é assim. Ninguém espera, mas é uma nadadora de primeira.

Ela atravessou o rio largo, chegou na árvore do outro lado e esticou um braço para o Pipo.

— Sobe… nas… minhas… costas.

O Pipo não pensou duas vezes. Agarrou-se ao pelo esverdeado dela com as quatro mãos e o rabo.

E a Tetê nadou de volta.

Do outro lado

Quando ela chegou na margem de casa, a família inteira de macacos desceu até os galhos mais baixos para esperar.

O Pipo pulou das costas dela direto no colo da mãe, e depois no do pai, e depois no de todos os tios, um de cada vez, porque macaco nunca abraça uma pessoa só.

Depois ele voltou até a Tetê, que ainda estava parada na beira da água, pingando.

— Tetê. Por que você nunca disse que sabia nadar?

A Tetê pensou um bocado antes de responder.

— Ninguém… perguntou.

Uma vez por semana

A Tetê levou o resto da tarde e a noite inteira para subir de volta até o alto da embaúba.

Mas, dessa vez, não subiu sozinha. O Pipo foi do lado dela o caminho todo, galho por galho, bem devagar, sem pular nem uma vez.

Foi a coisa mais difícil que ele já fez.

Quando os dois chegaram lá em cima, o céu já estava clareando e a chuva tinha parado.

A Tetê se pendurou no galho de sempre, fechou os olhos e começou a dormir.

E o Pipo, pela primeira vez na vida, ficou quietinho do lado dela, olhando o rio lá embaixo, até pegar no sono também.

Ads

O Que Achou da Historinha?

Toque nas estrelas para avaliar

O que achou desta história?

Compartilhe a Historinha:

Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!

Historinhas Relacionadas