Rute e Noemi: Aonde Você For, Eu Irei

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Rute e Noemi: Aonde Você For, Eu Irei
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Muito tempo atrás, no tempo em que os juízes governavam Israel, houve uma grande fome na cidade de Belém.

Faltou chuva, faltou trigo, faltou pão. E uma família resolveu ir embora para tentar a vida em outro lugar.

Eram quatro: o pai, Elimeleque; a mãe, Noemi; e os dois filhos, Malom e Quiliom. Eles foram morar numa terra do outro lado do mar Morto, chamada Moabe, onde ainda tinha comida.

Longe de casa

Em Moabe, a vida recomeçou.

Mas logo veio a primeira tristeza: Elimeleque morreu, e Noemi ficou viúva, sozinha com os dois filhos numa terra estrangeira.

Os filhos cresceram e se casaram com duas moças moabitas. Malom se casou com Rute, e Quiliom se casou com Orfa.

Por uns dez anos, eles viveram juntos. Noemi amava as duas noras como se fossem filhas.

Até que veio a segunda tristeza, a maior de todas: os dois filhos de Noemi também morreram.

E sobraram três mulheres sozinhas numa casa silenciosa.

A notícia de Belém

Um dia, chegou uma notícia de longe: a fome em Belém tinha acabado. Deus tinha dado pão ao seu povo outra vez.

Noemi decidiu voltar para casa.

As duas noras arrumaram as coisas e saíram com ela pela estrada. Mas, no meio do caminho, Noemi parou e se virou para as duas.

— Voltem, minhas filhas. Voltem para a casa das mães de vocês. Vocês são jovens. Aqui em Moabe vocês podem se casar de novo, ter uma família. Comigo, vocês não vão ter nada.

Ela beijou as duas, e as três choraram alto no meio da estrada.

Orfa, depois de muito chorar, abraçou a sogra, se despediu e voltou para a sua gente.

Mas Rute ficou.

Aonde você for

— Volte você também, como sua cunhada — pediu Noemi.

E Rute respondeu com palavras que as pessoas lembram até hoje, milhares de anos depois:

— Não me peça para deixar você. Aonde você for, eu irei. Onde você ficar, eu ficarei. O seu povo será o meu povo, e o seu Deus será o meu Deus.

Noemi olhou para aquela moça estrangeira, que não tinha nenhuma obrigação de ficar, e entendeu que não adiantava insistir.

E as duas seguiram juntas para Belém.

A volta para Belém

Quando elas chegaram, a cidade inteira se agitou.

— É a Noemi? — as mulheres perguntavam umas às outras. — É ela mesma?

Noemi quer dizer "agradável", "doce". Mas ela estava tão triste que respondeu:

— Não me chamem de Noemi. Me chamem de Mara, que quer dizer "amarga". Eu saí daqui com tudo e voltei de mãos vazias.

Mas ela não tinha voltado de mãos vazias.

Tinha voltado com a Rute.

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Espigas no campo

Elas chegaram a Belém no começo da colheita da cevada.

As duas não tinham comida nem terra. Então Rute teve uma ideia. Na lei de Israel, os donos das plantações deviam deixar para os pobres, os estrangeiros e as viúvas as espigas que caíam no chão durante a colheita. Recolher essas sobras se chamava respigar.

— Me deixe ir ao campo respigar — disse Rute. — Vou atrás de alguém que me trate com bondade.

E foi. Por acaso, ou quase por acaso, ela foi parar no campo de um homem chamado Boaz.

Boaz era um homem rico, bom e respeitado. E era parente de Elimeleque, o marido que Noemi tinha perdido.

A bondade de Boaz

Quando Boaz chegou ao campo, viu aquela moça trabalhando sem parar debaixo do sol.

— Quem é ela? — perguntou aos empregados.

— É a moabita que veio com Noemi. Está aqui desde cedo e quase não descansou.

Boaz foi até Rute.

— Fique no meu campo. Não vá respigar em outro lugar. Quando tiver sede, beba da água dos meus empregados. Eu soube de tudo o que você fez pela sua sogra: deixou pai, mãe e a sua terra para vir morar com um povo que não conhecia. Que o Senhor recompense você.

Na hora do almoço, ele a chamou para comer com os trabalhadores. E, escondido, disse aos empregados:

— Deixem cair algumas espigas de propósito para ela recolher. E não a envergonhem.

No fim do dia, Rute voltou para casa com tanta cevada que Noemi arregalou os olhos.

Um novo começo

Quando Noemi soube que o campo era de Boaz, o coração dela, que andava amargo fazia tanto tempo, se encheu de esperança pela primeira vez.

Rute trabalhou nos campos de Boaz até o fim da colheita da cevada e do trigo.

Quando a colheita acabou, Noemi aconselhou Rute a pedir a proteção de Boaz, que era parente da família e, pela lei, podia cuidar delas. Rute foi, com coragem, e pediu. Boaz aceitou com alegria. Acertou tudo com um parente ainda mais próximo, na porta da cidade, diante dos anciãos, e se casou com Rute.

Algum tempo depois, os dois tiveram um filho. E as vizinhas lhe deram o nome de Obede.

As mulheres de Belém foram visitar Noemi, que segurava o netinho no colo, e disseram a ela:

— Bendito seja o Senhor, que não deixou você sem família. Essa sua nora, que ama você, vale mais do que sete filhos.

Noemi cuidou de Obede com todo o carinho do mundo. A casa que tinha ficado silenciosa voltou a ter barulho de criança.

O neto do neto

E a história não parou por aí.

Obede cresceu e teve um filho chamado Jessé.

E Jessé teve um filho, o caçula de oito filhos, um menino pastor de ovelhas que tocava harpa e um dia enfrentou um gigante.

O nome dele era Davi.

A moça estrangeira que se recusou a deixar a sogra sozinha na estrada virou bisavó do maior rei de Israel.

Tudo porque, num dia difícil, alguém disse: "aonde você for, eu irei".

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