O Sapateiro e os Duendes

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Sapateiro e os Duendes
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Era uma vez um sapateiro que trabalhava muito e ganhava pouco.

Não era por preguiça. Ele cortava o couro com cuidado, costurava cada ponto bem apertado e batia as solas até ficarem firmes. Mas o tempo ia passando, os clientes iam sumindo, e um dia ele percebeu que só tinha sobrado couro para fazer um único par de sapatos.

Um só.

O último couro

Naquela noite, o sapateiro sentou-se à bancada e cortou o couro com todo o capricho. Deixou as peças arrumadinhas, uma do lado da outra, prontas para costurar de manhã.

Depois foi deitar. A mulher dele já estava na cama.

— E amanhã, depois desse par? — perguntou ela, baixinho.

— Amanhã a gente vê — disse o sapateiro.

Ele fez uma oração, fechou os olhos e dormiu tranquilo, que é uma coisa que só consegue quem fez o seu melhor durante o dia.

A surpresa

De manhã, quando o sapateiro desceu para a oficina, parou na porta.

Em cima da bancada não tinha mais peça de couro nenhuma.

Tinha um par de sapatos prontos.

Ele pegou um pé na mão, virou, olhou por dentro, olhou por baixo. Os pontos eram tão pequenos e tão certinhos que pareciam feitos por uma formiga com régua. Não tinha um fio fora do lugar.

Era o sapato mais bem-feito que ele já tinha visto na vida.

E ele não tinha a menor ideia de quem tinha feito.

Dois pares, quatro pares

Naquela mesma manhã, entrou um freguês, experimentou os sapatos e gostou tanto que pagou mais do que o preço.

Com o dinheiro, o sapateiro comprou couro para dois pares.

À noite, cortou as peças, deixou na bancada e foi dormir.

De manhã: dois pares prontos. Perfeitos.

Com o dinheiro dos dois, ele comprou couro para quatro. De manhã: quatro pares prontos.

E foi assim por semanas. O que ele cortava à noite amanhecia costurado. A fama da oficina correu pela cidade, os fregueses fizeram fila na porta, e o sapateiro e a mulher, que antes contavam moeda para comprar pão, passaram a viver com conforto.

A curiosidade da mulher

Numa noite de dezembro, perto do Natal, a mulher do sapateiro não aguentou mais.

— Quem será que faz isso pra gente? — disse ela. — Vamos ficar acordados hoje e ver.

Então eles acenderam uma vela, deixaram na bancada junto com o couro cortado, e se esconderam atrás da cortina da porta.

Esperaram.

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O relógio bateu dez horas. Onze. Nada.

Quando bateu meia-noite, a janelinha da oficina se abriu devagar.

Os ajudantes da noite

Entraram dois homenzinhos.

Eram duendes, pequenos como um palmo, magrinhos, de cabelo arrepiado. Estavam descalços. E as roupas deles eram tão velhas e tão remendadas que não dava para saber qual era a cor original.

Sem dizer uma palavra, os dois subiram na bancada, sentaram de pernas cruzadas e começaram a trabalhar.

E como trabalhavam! As mãozinhas costuravam, furavam, batiam o martelinho — toc, toc, toc — tão depressa que os olhos do sapateiro mal conseguiam acompanhar. Não pararam nem um minuto.

Quando o último sapato ficou pronto, arrumaram tudo em fila na bancada e saíram pela janelinha, tão quietos quanto tinham entrado.

Lá fora, nevava.

O presente

Na manhã seguinte, a mulher do sapateiro estava pensativa.

— Esses homenzinhos deixaram a gente rica — disse ela. — E eles andam descalços na neve, com aquela roupa rasgada. Devem passar um frio danado.

— O que você quer fazer? — perguntou o sapateiro.

— Retribuir.

Então ela passou o dia costurando. Fez duas camisinhas, dois paletós pequenos, duas calças pequenininhas e tricotou dois pares de meias. E o sapateiro, com o couro mais macio que tinha, fez dois pares de sapatinhos minúsculos.

À noite, em vez do couro cortado, eles deixaram na bancada as roupinhas, bem dobradas. E se esconderam de novo.

A alegria dos duendes

À meia-noite, os duendes entraram pela janelinha e subiram na bancada para trabalhar.

Pararam.

No lugar do couro, tinha roupa. Do tamanho deles.

Por um instante, ficaram parados olhando. Depois um cutucou o outro. E aí os dois começaram a rir, e a se vestir depressa, enfiando os braços nas mangas, puxando as meias, calçando os sapatinhos.

Quando terminaram, olharam um para o outro, todos arrumados, e começaram a dançar. Pularam em cima da bancada, das cadeiras, do banquinho, rodopiando e cantando baixinho, até saírem dançando pela janela, noite adentro.

E nunca mais voltaram.

Depois

O sapateiro e a mulher sentiram um pouco de saudade.

Mas o sapateiro tinha ficado tão perto daqueles pontos perfeitos, por tantas semanas, que a mão dele tinha aprendido. Os sapatos que ele passou a fazer eram quase tão bem-feitos quanto os dos duendes. Os fregueses continuaram vindo.

E, até o fim da vida, toda véspera de Natal, a mulher do sapateiro deixava na bancada, antes de dormir, uma meinha nova do tamanho de um dedo.

Só por garantia.

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