A Raposa que Esperava o Pequeno Príncipe

Numa colina coberta de trigo, longe de tudo, morava uma raposa.
Ela tinha o pelo cor de laranja, um rabo fofo que parecia um espanador e um jeito desconfiado de olhar para as coisas. Passava as noites caçando galinhas no sítio lá embaixo e passava os dias escondida, fugindo dos caçadores do mesmo sítio.
Era sempre igual. Galinha, caçador, galinha, caçador.
A raposa achava a vida dela um pouco chata.
O trigo que não dizia nada
No meio da colina tinha um campo de trigo enorme.
Quando o vento passava, o trigo inteiro se deitava para um lado e depois levantava, fazendo um barulho de mar. As pessoas do sítio achavam lindo.
A raposa, não.
Raposa não come pão. Então o trigo, para ela, era só mato alto. Não lembrava nada, não servia para nada, não fazia o coração dela bater diferente.
Ela passava pelo meio dele todo dia sem nem olhar.
O menino debaixo da macieira
Uma tarde, a raposa viu uma coisa que nunca tinha visto na colina.
Debaixo da macieira, sentado sozinho, estava um menino muito pequeno, de cabelo dourado e cachecol comprido.
Ele não parecia caçador. Não tinha espingarda. Também não parecia gente do sítio. Tinha um jeito de quem veio de muito longe e ainda estava tentando entender onde tinha caído.
E estava triste. Dava para ver de longe.
A raposa ficou escondida, espiando. Até que não aguentou e disse, lá de trás da árvore:
— Bom dia.
O menino olhou em volta e não viu ninguém.
— Estou aqui — disse a raposa. — Debaixo da macieira.
— Quem é você? Você é tão bonita…
— Sou uma raposa.
Cativar
O menino chegou mais perto.
— Vem brincar comigo — ele pediu. — Eu estou tão triste.
— Não posso brincar com você — respondeu a raposa. — Eu não sou cativada.
O menino franziu a testa. Nunca tinha ouvido aquela palavra.
— O que é cativar?
A raposa pensou um pouco antes de responder. Era uma coisa que ela sabia fazia muito tempo, mas nunca tinha precisado explicar.
— É criar laços — disse ela. — Olha: agora você é só um menino, igualzinho a cem mil outros meninos. Eu não preciso de você. E você não precisa de mim. Para você, eu sou só uma raposa igual a cem mil raposas.
Ela abanou o rabo devagar.
— Mas, se você me cativar, a gente vai precisar um do outro. Você vai ser o único menino do mundo para mim. E eu vou ser a única raposa do mundo para você.
O menino ficou quieto um tempão.
— Acho que tem uma flor — disse ele, por fim — que me cativou.
A raposa não perguntou mais nada. Mas guardou aquilo.
Um pouquinho mais perto
— E como se faz para cativar? — perguntou o menino.
— Tem que ter muita paciência — disse a raposa. — Primeiro você senta um pouco longe de mim, assim, na grama. Eu vou te olhar com o canto do olho, e você não fala nada, porque palavra atrapalha. E todo dia você senta um pouquinho mais perto.
E foi assim.
No primeiro dia, o menino sentou tão longe que a raposa quase não via o cachecol dele.
No segundo, um pouco mais perto.
No terceiro, mais perto ainda.
A raposa também pediu uma coisa: que ele viesse sempre na mesma hora.
— Se você vier às quatro da tarde — ela explicou —, desde as três eu vou começar a ficar feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais feliz eu vou ficar. Às quatro, já vou estar pulando de um lado para o outro. Mas, se você vier a qualquer hora, eu nunca vou saber quando arrumar o meu coração.
O menino achou aquilo muito bonito. E nunca se atrasou.
O trigo que passou a dizer
Foi numa dessas tardes que a raposa reparou numa coisa.
O menino estava sentado bem pertinho dela, e o sol batia no cabelo dele. E o cabelo dele era da mesma cor do trigo.
A raposa olhou para o campo. Olhou para o menino. Olhou para o campo de novo.
E, pela primeira vez na vida, o trigo pareceu bonito para ela.
Porque agora, toda vez que o vento passasse e o trigo se deitasse fazendo barulho de mar, ela ia lembrar daquele cabelo dourado. O trigo, que não dizia nada, tinha começado a dizer alguma coisa.
A despedida
Um dia, chegou a hora de o menino ir embora.
Ele precisava voltar para longe, bem longe, para cuidar da flor que tinha deixado sozinha.
— Ah — disse a raposa. — Eu vou chorar.
— A culpa é sua — disse o menino, sem entender. — Eu não queria te fazer mal. Foi você que quis que eu te cativasse.
— É verdade.
— Então você não ganhou nada com isso!
A raposa olhou para o campo, que balançava no vento.
— Ganhei — disse ela. — Por causa da cor do trigo.
O segredo
Antes de ir, o menino voltou mais uma vez. E a raposa, que tinha pensado muito naqueles dias, deu a ele um presente. Não era coisa que se pega com a mão. Era um segredo.
— É bem simples — disse ela. — Só se enxerga bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
O menino repetiu baixinho, para não esquecer.
— E tem mais uma coisa — continuou a raposa. — Foi o tempo que você dedicou à sua flor que fez a sua flor ser tão importante. E a gente fica responsável, para sempre, por quem a gente cativou. Não esquece disso.
— Não vou esquecer — disse o menino.
E foi embora pela colina, com o cachecol voando.
Quando o vento passa
A raposa continua morando lá.
Ela ainda caça galinha de noite e ainda foge do caçador de dia. Isso não mudou.
Mas tem uma coisa que mudou.
Todo fim de tarde, lá pelas quatro horas, ela sobe até o alto da colina, senta no meio do trigo e fica esperando o vento.
E, quando ele vem, e o campo inteiro se deita fazendo aquele barulho de mar, a raposa fecha os olhos e sorri.
Porque, em algum lugar do céu, tem um menino de cabelo cor de trigo cuidando da flor dele.
E ela sabe disso sem precisar ver.
Para quem conta a história
Esta historinha é um pedaço de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, publicado em 1943. Aqui ele foi recontado com calma e pelo lado da raposa, que é uma das personagens mais queridas do livro. A obra completa conta também a viagem do príncipe pelos planetas, a amizade com o piloto perdido no deserto e a história da rosa.
Para ler o livro inteiro com a criança, o Livris tem O Pequeno Príncipe completo em tradução nova, direto do francês, que dá para ler online ou baixar em PDF e ePub. Os capítulos são curtinhos e cabem numa noite cada um. O da raposa é o 21.
O Que Achou da Historinha?
Toque nas estrelas para avaliar
O que achou desta história?
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!



