O Curupira e as Pegadas ao Contrário

Tonho morava com a avó numa casinha na beira da mata, onde a estrada de terra acabava e começavam as árvores.
A Vó Filó dizia sempre a mesma coisa quando ele ia brincar no quintal:
— Pode ir até a cerca. Da cerca pra lá, a mata tem dono.
— Que dono, vó?
— O Curupira.
Tonho achava aquilo coisa de avó. História para assustar criança.
O estilingue novo
No dia do aniversário de nove anos, o primo Zé Luiz deu para o Tonho um presente que ele queria havia muito tempo: um estilingue novinho, de forquilha de goiabeira e elástico vermelho.
Tonho passou a manhã inteira treinando. Acertou uma lata em cima do mourão. Acertou um mamão maduro no pé. Acertou até a lâmpada da varanda, sem querer, e levou uma bronca que deu para ouvir da estrada.
De tarde, ele ouviu um sabiá cantando lá dentro da mata.
Tonho encheu o bolso de pedrinhas, olhou para a casa para ver se a avó estava olhando, e pulou a cerca.
As pegadas
A mata era fresca e escura. O sol só entrava em fios de luz, no meio das folhas lá de cima. Tinha cheiro de terra molhada e de folha velha.
Tonho andou atrás do canto do sabiá. Mas o sabiá sempre parecia estar um pouquinho mais para lá.
Foi aí que ele viu as pegadas.
Eram pequenas, do tamanho do pé de uma criança, marcadas na terra úmida perto de um riacho. Tonho se agachou para olhar. Pareciam de um menino descalço.
— Tem mais alguém aqui — ele falou sozinho.
E resolveu seguir as pegadas ao contrário, mata adentro, para descobrir de onde tinha vindo aquele menino descalço.
Ele seguiu as pegadas por baixo de um tronco caído. Seguiu por cima de umas pedras cheias de musgo. Seguiu por entre umas samambaias altas, que batiam no rosto dele.
Até que as pegadas acabaram. E Tonho olhou em volta.
Não reconheceu nada.
Perdido
Todas as árvores pareciam iguais. Todos os cipós pareciam iguais. Ele tentou voltar pelo caminho de onde veio, mas não sabia mais de onde tinha vindo.
Então lembrou de uma coisa que a Vó Filó contava. Que o Curupira tinha os pés virados para trás. O calcanhar na frente e os dedos atrás. Quem seguia as pegadas dele achava que estava indo para um lado, mas, na verdade, estava indo para o outro.
Tonho olhou de novo para as pegadas na terra. E reparou numa coisa que não tinha visto antes.
O calcanhar ficava na frente. Os dedinhos apontavam para trás, para o lado de onde ele tinha vindo.
Não eram pegadas de menino nenhum. Ele tinha passado a tarde inteira seguindo o Curupira, mata adentro.
Um arrepio subiu pela nuca do Tonho. E, bem nessa hora, lá do alto, veio um assobio. Fino e comprido.
Fiiiiiu.
O dono da mata
— Procurando alguém? — disse uma voz.
Tonho olhou para cima.
Num galho baixo, sentado com as pernas balançando, estava um menino pequeno. Menor que o Tonho. Tinha a pele cor de terra, os olhos brilhantes e um cabelo vermelho que parecia fogo aceso.
E os pés dele estavam virados para trás.
Tonho quis correr, mas as pernas não obedeceram.
— Você… você é o Curupira?
O menino riu, um riso que parecia vento passando nas folhas.
— E você é o Tonho, que pulou a cerca com o bolso cheio de pedra. — Ele apontou com o queixo para o estilingue. — Veio atrás do sabiá?
Tonho escondeu o estilingue atrás das costas. Não adiantou nada.
— Vem cá. Quero te mostrar uma coisa.
O ninho
O Curupira desceu do galho e andou pela mata. Tonho foi atrás, olhando para os pés dele, que deixavam as pegadas viradas para o lado errado.
Pararam perto de uma árvore com o tronco cheio de musgo. O Curupira apontou para cima, bem devagar, pedindo silêncio com o dedo.
Lá num galho, escondido entre as folhas, tinha um ninho. E dentro do ninho, três filhotes de sabiá, sem quase nenhuma pena, com os biquinhos amarelos bem abertos. Na beirada, a mãe deles vigiava tudo.
Aí chegou o pai. Um sabiá de peito alaranjado, trazendo uma minhoca no bico. Ele colocou a comida num dos biquinhos, olhou para os lados e começou a cantar.
Era o mesmo canto que o Tonho tinha seguido a tarde inteira.
— É ele que você queria acertar — disse o Curupira, baixinho. — Se ele não voltar pro ninho, quem ajuda a mãe a dar comida pros três?
Tonho não respondeu. Olhou para os filhotes. Olhou para o estilingue na mão dele.
E enfiou o estilingue no bolso de trás da bermuda.
A bola de cipó
— Agora eu quero ir pra casa — disse Tonho. — Mas não sei o caminho.
O Curupira deu de ombros, com um sorrisinho.
— Na mata, quem se perde tem que se virar.
Tonho pensou rápido. E lembrou da outra coisa que a Vó Filó contava: que o Curupira não resiste a um nó. Se a gente fizer uma bola de cipó bem enrolada e esconder as pontas, ele fica tão distraído tentando desenrolar que esquece de todo o resto.
Tonho pegou um cipó fininho no chão e começou a enrolar. Deu uma volta, deu outra, passou por dentro, passou por cima, fez nó, fez mais nó, e escondeu as duas pontas lá no meio.
Depois estendeu a bola para o Curupira.
Os olhos do Curupira brilharam como os de uma criança que ganhou brinquedo novo.
Ele sentou no chão, pegou a bola e começou a procurar as pontas. Virava a bola, cheirava a bola, puxava um pedacinho aqui, outro ali.
Sem levantar os olhos do cipó, ele disse:
— Muito esperto. Pra chegar em casa, anda pra onde apontam os dedos das minhas pegadas. E fala pra sua avó que eu mandei um abraço.
A volta
Tonho foi andando para onde apontavam os dedinhos das pegadas. Passou pelas samambaias altas. Passou pelas pedras cheias de musgo. Passou por baixo do tronco caído.
E, quando o sol já estava ficando alaranjado, viu a cerca do quintal.
A Vó Filó estava no portão, de braços cruzados.
— Onde é que o senhor estava?
Tonho abriu a boca para contar. Mas lembrou do recado.
— Vó… o Curupira mandou um abraço.
A Vó Filó ficou olhando para ele por um tempão. Depois descruzou os braços, puxou o neto para perto e deu um abraço tão apertado que ele ficou sem ar.
— Então agora você já conhece o dono da mata.
O estilingue na parede
Antes de deitar, Tonho pendurou o estilingue num prego na parede do quarto.
Nunca mais usou para caçar passarinho. Só para derrubar manga do pé, e olhe lá.
Da cama, com a janela aberta, ele ouvia os barulhos da mata: os sapos, os grilos, uma coruja lá longe. E, de vez em quando, bem baixinho, um assobio fino e comprido.
Fiiiiiu.
Podia ser um passarinho da noite. Podia ser o vento nas folhas.
Mas Tonho gostava de pensar que era o Curupira, sentado num galho, ainda tentando desenrolar a bola de cipó, dando boa-noite para ele.
Lá fora, no escuro da mata, os três filhotes de sabiá dormiam quentinhos, embaixo da asa da mãe.
O Que Achou da Historinha?
Toque nas estrelas para avaliar
O que achou desta história?
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!



