O Saci e as Coisas que Somem

Na casa do Vicente, começaram a sumir as coisas.
Primeiro foi uma meia. Das listradas, a favorita dele. A mãe procurou no cesto, atrás da máquina, embaixo da cama. A meia do pé direito estava lá, quietinha. A do pé esquerdo, não.
Depois foi a borracha nova, aquela com cheiro de tutti-frutti. Sumiu de dentro do estojo fechado.
Depois a chave do portão apareceu dentro da geladeira, em cima da manteiga.
E, na segunda-feira de manhã, a mãe foi estender a roupa e achou a crina do cavalo do vizinho toda trançadinha, umas tranças pequenas e caprichadas, feitas por alguém com muita paciência e muito tempo livre.
— Pronto — disse a Tia Lurdes, do outro lado do muro, balançando a cabeça. — É ele.
Quem é "ele"
Vicente foi atrás da Tia Lurdes com um monte de pergunta.
— Ele quem, tia?
— Saci.
— Saci existe?
A Tia Lurdes não respondeu isso. Ela nunca respondia esse tipo de pergunta. Só continuou pendurando a roupa no varal.
— O Saci é um menino de uma perna só — ela disse. — Usa uma carapuça vermelha na cabeça, que é onde mora toda a força dele. Anda dentro de redemoinho de vento. E ele não é malvado, não. Ele é danado. É diferente.
— E o que ele quer?
— Bagunçar. Ele esconde as coisas, azeda o leite, apaga o fogo do fogão, faz trança na crina do cavalo. E fica rindo num cantinho, vendo a gente procurar.
Vicente ficou vermelho de raiva.
— Eu quero minha borracha de volta.
A Tia Lurdes riu com o prendedor de roupa na boca.
— Então você vai ter que pegar ele.
O jeito de pegar
Ela explicou, pendurando as fronhas:
— Quando você ver um redemoinho, daqueles que levantam folha seca no quintal, joga uma peneira em cima. O Saci fica preso dentro. Aí você pega a carapuça dele bem rápido e guarda dentro de uma garrafa, tampada com rolha.
— E aí?
— E aí ele faz o que você mandar, pra ter a carapuça de volta.
Vicente achou aquilo a melhor ideia que ele já tinha ouvido na vida.
A semana da espera
Vicente arrumou uma peneira velha na despensa e passou a semana inteira de olho no quintal.
Toda vez que uma folhinha se mexia, ele corria com a peneira na mão.
Mas era só vento normal.
Enquanto isso, as coisas continuavam sumindo. Sumiu o pincel do pai. Sumiu a tampa da panela de pressão. Sumiu uma das duas pilhas do controle da televisão, e isso quase acabou com a paz da casa.
E, na sexta-feira de tarde, Vicente estava sentado na varanda, quase desistindo, quando as folhas secas do canto do muro começaram a girar.
Primeiro devagar. Depois rápido.
Um redemoinho do tamanho dele subiu no meio do quintal, levantando poeira, folha de goiabeira e um saquinho de bolacha vazio.
Vicente não pensou. Pulou da varanda e jogou a peneira.
Dentro da peneira
O redemoinho parou de repente.
E lá dentro, sentado no chão, com a peneira em cima, estava ele.
Um menino pequeno, do tamanho de uma criança de cinco anos. Preto, de olhos vivos, com uma perna só e um gorro vermelho na cabeça, meio torto.
Ele olhou para Vicente. E sorriu um sorriso enorme, sem nenhuma vergonha de ter sido pego.
— Boa, hein — disse o Saci. — Quem te ensinou? A Lurdes?
Vicente estava com o coração batendo tão forte que nem conseguiu falar. Só fez que sim com a cabeça.
A negociação
Vicente lembrou da segunda parte: a carapuça.
Ele esticou a mão devagarinho, por baixo da peneira, pronto para arrancar o gorro.
E parou.
Porque o Saci tinha ficado quietinho, com as duas mãos em cima da carapuça, segurando com força. E, pela primeira vez, ele não parecia estar achando graça.
Vicente recolheu a mão.
— Eu não quero seu gorro — ele disse. — Eu quero minha borracha.
O Saci piscou, surpreso.
— Só a borracha?
— A borracha, a meia listrada, o pincel do meu pai e a pilha do controle. — Vicente pensou mais um pouco. — E que você pare de esconder as coisas da minha mãe. Ela trabalha o dia inteiro, chega cansada e fica procurando as coisas. Isso não tem graça nenhuma.
O Saci ficou olhando para ele por um tempo comprido.
— Tá — ele disse afinal. — Menos o pincel. O pincel eu já usei.
— Usou pra quê?
— Pintei um negócio.
— Que negócio?
— Levanta a peneira que eu te mostro.
O muro
Vicente pensou bem. Depois levantou a peneira.
O Saci não fugiu. Deu um pulinho na perna só, atravessou o quintal em três saltos e apontou para o muro do fundo, aquele pedaço atrás da moita que ninguém nunca olha.
No muro, pintado com o pincel do pai, tinha um redemoinho. Um redemoinho grande, todo em volta, feito de riscos girando, e no meio uma carapuça vermelha.
Estava bonito. Estava bem-feito mesmo.
— Você sabe pintar — disse Vicente.
O Saci deu de ombros, mas ficou com uma cara esquisita. Cara de quem não está acostumado a ouvir elogio.
O acordo
Naquela mesma tarde, as coisas começaram a aparecer.
A meia listrada apareceu dentro da bota de borracha. A borracha de tutti-frutti apareceu em cima da geladeira, num lugar que só dava para chegar pulando. A pilha do controle apareceu dentro do vaso da samambaia. E a tampa da panela de pressão apareceu em cima do guarda-roupa, onde ninguém nunca ia olhar.
E a mãe do Vicente nunca mais perdeu nada.
Quer dizer. Quase nunca.
De vez em quando ainda sumia uma coisinha pequena. Um clipe. Um botão. Uma tampinha.
Vicente sabia o que era. Era o Saci, dando uma cutucada, só para não perder o costume.
E ele achava graça.
À noite
Naquela noite, antes de dormir, Vicente foi até a janela e olhou para o quintal.
O muro do fundo estava escuro, mas dava para ver o desenho do redemoinho, meio apagado pela sombra.
Lá longe, na rua de terra, um monte de folha seca girou de repente e desceu correndo, fazendo aquele barulhinho de coisa arrastando.
Vicente sorriu e fechou a janela.
Deitou, puxou o lençol e ficou pensando que o Saci, coitado, devia gastar um tempo enorme trançando crina de cavalo.
E que, com todo aquele talento pra pintura, ele bem que podia arrumar coisa melhor pra fazer.
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