O Saci e as Coisas que Somem

5 min de leituraHistorinha para dormir
O Saci e as Coisas que Somem
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Na casa do Vicente, começaram a sumir as coisas.

Primeiro foi uma meia. Das listradas, a favorita dele. A mãe procurou no cesto, atrás da máquina, embaixo da cama. A meia do pé direito estava lá, quietinha. A do pé esquerdo, não.

Depois foi a borracha nova, aquela com cheiro de tutti-frutti. Sumiu de dentro do estojo fechado.

Depois a chave do portão apareceu dentro da geladeira, em cima da manteiga.

E, na segunda-feira de manhã, a mãe foi estender a roupa e achou a crina do cavalo do vizinho toda trançadinha, umas tranças pequenas e caprichadas, feitas por alguém com muita paciência e muito tempo livre.

— Pronto — disse a Tia Lurdes, do outro lado do muro, balançando a cabeça. — É ele.

Quem é "ele"

Vicente foi atrás da Tia Lurdes com um monte de pergunta.

— Ele quem, tia?

— Saci.

— Saci existe?

A Tia Lurdes não respondeu isso. Ela nunca respondia esse tipo de pergunta. Só continuou pendurando a roupa no varal.

— O Saci é um menino de uma perna só — ela disse. — Usa uma carapuça vermelha na cabeça, que é onde mora toda a força dele. Anda dentro de redemoinho de vento. E ele não é malvado, não. Ele é danado. É diferente.

— E o que ele quer?

— Bagunçar. Ele esconde as coisas, azeda o leite, apaga o fogo do fogão, faz trança na crina do cavalo. E fica rindo num cantinho, vendo a gente procurar.

Vicente ficou vermelho de raiva.

— Eu quero minha borracha de volta.

A Tia Lurdes riu com o prendedor de roupa na boca.

— Então você vai ter que pegar ele.

O jeito de pegar

Ela explicou, pendurando as fronhas:

— Quando você ver um redemoinho, daqueles que levantam folha seca no quintal, joga uma peneira em cima. O Saci fica preso dentro. Aí você pega a carapuça dele bem rápido e guarda dentro de uma garrafa, tampada com rolha.

— E aí?

— E aí ele faz o que você mandar, pra ter a carapuça de volta.

Vicente achou aquilo a melhor ideia que ele já tinha ouvido na vida.

A semana da espera

Vicente arrumou uma peneira velha na despensa e passou a semana inteira de olho no quintal.

Toda vez que uma folhinha se mexia, ele corria com a peneira na mão.

Mas era só vento normal.

Enquanto isso, as coisas continuavam sumindo. Sumiu o pincel do pai. Sumiu a tampa da panela de pressão. Sumiu uma das duas pilhas do controle da televisão, e isso quase acabou com a paz da casa.

E, na sexta-feira de tarde, Vicente estava sentado na varanda, quase desistindo, quando as folhas secas do canto do muro começaram a girar.

Primeiro devagar. Depois rápido.

Um redemoinho do tamanho dele subiu no meio do quintal, levantando poeira, folha de goiabeira e um saquinho de bolacha vazio.

Vicente não pensou. Pulou da varanda e jogou a peneira.

Dentro da peneira

O redemoinho parou de repente.

E lá dentro, sentado no chão, com a peneira em cima, estava ele.

Um menino pequeno, do tamanho de uma criança de cinco anos. Preto, de olhos vivos, com uma perna só e um gorro vermelho na cabeça, meio torto.

Ele olhou para Vicente. E sorriu um sorriso enorme, sem nenhuma vergonha de ter sido pego.

— Boa, hein — disse o Saci. — Quem te ensinou? A Lurdes?

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Vicente estava com o coração batendo tão forte que nem conseguiu falar. Só fez que sim com a cabeça.

A negociação

Vicente lembrou da segunda parte: a carapuça.

Ele esticou a mão devagarinho, por baixo da peneira, pronto para arrancar o gorro.

E parou.

Porque o Saci tinha ficado quietinho, com as duas mãos em cima da carapuça, segurando com força. E, pela primeira vez, ele não parecia estar achando graça.

Vicente recolheu a mão.

— Eu não quero seu gorro — ele disse. — Eu quero minha borracha.

O Saci piscou, surpreso.

— Só a borracha?

— A borracha, a meia listrada, o pincel do meu pai e a pilha do controle. — Vicente pensou mais um pouco. — E que você pare de esconder as coisas da minha mãe. Ela trabalha o dia inteiro, chega cansada e fica procurando as coisas. Isso não tem graça nenhuma.

O Saci ficou olhando para ele por um tempo comprido.

— Tá — ele disse afinal. — Menos o pincel. O pincel eu já usei.

— Usou pra quê?

— Pintei um negócio.

— Que negócio?

— Levanta a peneira que eu te mostro.

O muro

Vicente pensou bem. Depois levantou a peneira.

O Saci não fugiu. Deu um pulinho na perna só, atravessou o quintal em três saltos e apontou para o muro do fundo, aquele pedaço atrás da moita que ninguém nunca olha.

No muro, pintado com o pincel do pai, tinha um redemoinho. Um redemoinho grande, todo em volta, feito de riscos girando, e no meio uma carapuça vermelha.

Estava bonito. Estava bem-feito mesmo.

— Você sabe pintar — disse Vicente.

O Saci deu de ombros, mas ficou com uma cara esquisita. Cara de quem não está acostumado a ouvir elogio.

O acordo

Naquela mesma tarde, as coisas começaram a aparecer.

A meia listrada apareceu dentro da bota de borracha. A borracha de tutti-frutti apareceu em cima da geladeira, num lugar que só dava para chegar pulando. A pilha do controle apareceu dentro do vaso da samambaia. E a tampa da panela de pressão apareceu em cima do guarda-roupa, onde ninguém nunca ia olhar.

E a mãe do Vicente nunca mais perdeu nada.

Quer dizer. Quase nunca.

De vez em quando ainda sumia uma coisinha pequena. Um clipe. Um botão. Uma tampinha.

Vicente sabia o que era. Era o Saci, dando uma cutucada, só para não perder o costume.

E ele achava graça.

À noite

Naquela noite, antes de dormir, Vicente foi até a janela e olhou para o quintal.

O muro do fundo estava escuro, mas dava para ver o desenho do redemoinho, meio apagado pela sombra.

Lá longe, na rua de terra, um monte de folha seca girou de repente e desceu correndo, fazendo aquele barulhinho de coisa arrastando.

Vicente sorriu e fechou a janela.

Deitou, puxou o lençol e ficou pensando que o Saci, coitado, devia gastar um tempo enorme trançando crina de cavalo.

E que, com todo aquele talento pra pintura, ele bem que podia arrumar coisa melhor pra fazer.

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