O Relógio que Fazia Tique-Taque Devagar

Era noite, e a casa estava toda quietinha.
A Lia já tinha escovado os dentes, tinha vestido o pijama azul de estrelinhas, e já tinha ouvido uma historinha. Mas o sono não vinha.
Ela rolou para a direita. Rolou para a esquerda. Virou o travesseiro para o lado frio. Abraçou o ursinho.
Nada. Os olhos continuavam abertos.
O barulho da sala
No silêncio, a Lia começou a ouvir um barulhinho que vinha da sala.
Tique. Taque. Tique. Taque.
Era o relógio grande da vovó, de madeira escura, que ficava na parede perto da estante. Todo dia ele fazia aquele som, mas, de dia, ninguém prestava atenção.
Agora, no escuro, o som parecia mais forte.
Tique. Taque. Tique. Taque.
— Será que ele nunca dorme? — pensou a Lia.
Uma pergunta
Ela se sentou na cama, com o ursinho no colo.
— Relógio — disse baixinho —, você está acordado?
Ficou esperando. Claro que o relógio não respondeu. Mas o tique-taque continuou, firme e calmo.
— Eu não consigo dormir — contou ela, sussurrando. — Acho que estou com a cabeça muito rápida.
Foi então que a Lia teve uma ideia. Fechou os olhos e fez um pedido, bem de leve.
— Relógio, se você fizer o tique-taque mais devagarzinho, talvez eu consiga fazer minha cabeça ir mais devagar também.
Mais devagar
Ela ficou escutando.
Tique... taque... tique... taque...
Era como se o relógio tivesse ouvido. Ou será que era só a imaginação dela? A Lia não sabia. Mas o som estava mais lento, mais mansinho, e ela gostou.
Tique... taque...
Ela respirou fundo, no mesmo ritmo.
Puxou o ar contando até quatro: um, dois, três, quatro.
Soltou o ar bem devagarinho: um, dois, três, quatro.
Tique... taque...
Os ombros
Reparou que os ombros estavam um pouco levantados, como quem está esperando alguma coisa. Deixou-os cair, bem soltinhos, no colchão.
Os braços ficaram pesados, os dedinhos relaxaram.
Tique... taque...
As pernas, que estavam mexendo para lá e para cá, foram parando, uma de cada vez. A perna direita ficou mole. A perna esquerda ficou mole também.
A barriguinha subia e descia, tranquila, no ritmo do relógio.
Tique... taque...
Pensamentos que passam
Um pensamento apareceu na cabeça da Lia: o que ela ia brincar amanhã.
Em vez de ficar pensando nele, ela imaginou que o pensamento era uma nuvenzinha, passando devagar pelo céu.
Veio outro: a figurinha que faltava no álbum. Outra nuvenzinha, mais uma, passando.
Os pensamentos foram indo embora, um depois do outro, sem pressa.
Tique... taque...
O tempo mansinho
A Lia imaginou que a noite era uma estrada comprida e macia, e que o relógio ia andando por ela, a passos tão pequenos que o tempo quase parava.
Não havia nada para fazer. Nada para correr. Nada para resolver.
Só ficar ali, quentinha, debaixo do cobertor, com o ursinho ao lado e o tique-taque cantando baixinho.
Tique...
Os olhos foram ficando pesados.
Taque...
As pálpebras foram descendo, descendo.
Tique...
Boa noite
A Lia deu um suspiro bem comprido e sorriu, de olhos fechados.
Na sala, o relógio da vovó continuou a contar a noite, calmo e fiel, como fazia todos os dias.
A lua entrou pela janela e deixou uma faixa de luz bem fininha no chão. A casa inteira dormia: o papai, a mamãe, o gato no sofá, e a Lia, de pijama de estrelinhas.
Tique... taque...
Boa noite, pequeno leitor. Respire devagar, solte os ombros e ouça o relógio da sua casa. Ele cuida da noite enquanto você dorme.
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