O Cheiro de Chuva

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Cheiro de Chuva
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O Léo tinha sete anos e ia passar uma semana na casa do avô, no sítio.

Era a primeira vez que ele ficava longe dos pais por tantos dias.

No começo, o Léo achou tudo estranho: a cama que rangia, o cheiro de madeira da casa, os barulhos de bicho que vinham de fora.

Mas, no terceiro dia, já estava mais acostumado.

A tarde

Naquela tarde, o céu estava claro, o sol forte, e o Léo e o avô sentaram na varanda para tomar suco de laranja.

O avô fazia tricô numa cadeira de balanço. O Léo balançava as pernas.

Foi então que o Léo levantou o nariz.

— Vô.

— Oi.

— Está cheirando a chuva.

O avô olhou para o céu. Azul, sem uma nuvem.

— Chuva? Hoje? Não parece.

— Mas está cheirando. É um cheiro de terra molhada.

O avô sorriu.

— Fica quieto um pouquinho e espera.

A espera

O Léo ficou quieto.

O vento mudou. As folhas da mangueira balançaram. Um passarinho voou para dentro da árvore.

Lá longe, no fim do céu, uma nuvem escura apareceu.

Foi crescendo.

E, de repente, plic, uma gota caiu na tábua da varanda.

Depois outra.

Plic. Plic. Plic.

O Léo arregalou os olhos.

— O senhor sabia?

— Não sabia — disse o avô. — Mas o seu nariz sabia.

A explicação

Quando a chuva começou a cair de verdade, fina e macia, o avô largou o tricô.

— Quer saber de onde vem esse cheiro?

— Quero.

— Tem uma coisa muito pequena que vive na terra, tão pequena que ninguém enxerga. São bichinhos chamados bactérias. Quando a terra está seca, eles soltam um cheiro, e fica guardado no chão.

— Que cheiro?

— Esse. O de terra molhada. O nome dele é geosmina.

O Léo repetiu, baixinho, como quem prova uma palavra nova.

— Geosmina.

— Quando a chuva cai, as gotas batem na terra e soltam o cheiro no ar. Aí o vento leva.

O nariz

— E por que eu senti antes?

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— Porque o ser humano é muito bom para sentir esse cheiro. Mesmo uma quantidade bem pequena, a gente consegue sentir.

O Léo pôs a mão no nariz, admirado.

— E às vezes, antes de a chuva chegar, o vento já traz o cheiro de longe — completou o avô. — Aí quem presta atenção, sente.

— Então o meu nariz é bom?

— O seu nariz é ótimo.

A noite

A chuva foi ficando mais forte, mas era uma chuva boa, de quem não tem pressa.

Escureceu cedo.

O avô acendeu uma lamparina na varanda e os dois ficaram lá, olhando o quintal.

A terra ia escurecendo, ficando molhada, soltando aquele cheiro de novo, mais forte.

Dos fundos do sítio, vinham os sons: sapos coaxando, grilos cantando, gotas batendo no telhado.

O Léo estava quietinho.

O sono

— Vô.

— Oi.

— Eu estava com um pouco de saudade da minha mãe.

— Eu sei.

— Mas agora estou menos.

O avô sorriu.

— Quando a gente sente falta de alguém, o melhor é lembrar de uma coisa boa. Pode ser um cheiro. Uma música. Um lugar.

— O cheiro de chuva é bom.

— É sim.

O Léo encostou a cabeça no braço do avô.

A cama

Pouco depois, o avô levou o Léo no colo para dentro.

O Léo já estava com os olhos quase fechados.

A cama rangeu, mas ele nem ouviu.

A janela do quarto estava um pouquinho aberta, e a chuva fina entrava com aquele cheiro de terra molhada.

O Léo respirou fundo.

— Geosmina — murmurou.

E dormiu.

De verdade

O cheiro de chuva existe de verdade.

O nome mais conhecido dele é petricor, uma palavra criada em 1964 por dois cientistas australianos. E um dos principais ingredientes é mesmo a geosmina, uma substância produzida por microrganismos que vivem no solo.

O nariz humano consegue sentir geosmina em quantidades minúsculas.

Tem gente que acha o cheiro tão bom que guarda a lembrança da infância só por causa dele.

Da próxima vez que a chuva chegar, tente parar um minuto, fechar os olhos e respirar fundo.

Pode ser que você sinta antes de ela cair.

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