A Vizinha Nova

A Bia tinha sete anos, uma bicicleta rosa e uma casa que ela achava a melhor do mundo.
Era uma casinha de portão verde, com um quintal onde crescia uma goiabeira.
E, do outro lado do muro, tinha uma casa vazia, que ficava fechada há muito tempo.
Até que, numa quinta-feira, apareceu um caminhão de mudança.
O caminhão
A Bia ficou olhando, da janela.
Saíram do caminhão cadeiras, uma mesa, uma geladeira, muitas caixas.
E, no final, desceu uma menina.
Era da mesma altura que a Bia, de cabelo cacheado e camiseta amarela, e segurava uma boneca de pano debaixo do braço.
A menina olhou para a casa nova, olhou para a rua, olhou para a janela da Bia.
A Bia se escondeu atrás da cortina.
O medo
— Mãe — disse a Bia, baixinho —, tem uma menina nova na casa de lá.
— Que bom! Já foi conversar?
— Não.
— Por quê?
A Bia ficou pensando.
— Eu não sei o que falar.
A mãe sorriu.
— Às vezes, a gente não precisa saber o que falar. É só chegar.
A Bia fez que sim, mas não saiu do lugar.
O primeiro dia
No sábado, a Bia foi para o quintal.
Do outro lado do muro, ouviu um barulho.
Alguém estava cantando, baixinho.
Era a menina nova.
A Bia chegou mais perto do muro e ficou escutando.
A menina cantou a música inteira. Depois, ficou quieta.
A Bia pensou em dizer "oi". Mas não disse.
Voltou para dentro.
O segundo dia
No domingo, a Bia teve uma ideia.
Pegou dois copos de papel, um barbante comprido e furou o fundo de cada copo com um lápis.
Passou o barbante pelos furos, fez um nó em cada ponta.
Estava pronto: um telefone de copo.
Com um copo na mão, foi até o muro.
Subiu num banquinho e espiou.
A menina estava sentada no chão, brincando com a boneca de pano.
O telefone
A Bia deixou um copo cair do outro lado, bem devagarzinho, até pousar na grama.
A menina viu.
Olhou para cima.
— Oi — disse a Bia, com a voz um pouco tremida.
— Oi.
— Eu sou a Bia.
— Eu sou a Clara.
— Aquilo é um telefone. Você põe o copo no ouvido, e eu falo no meu.
A Clara pegou o copo, e colocou no ouvido.
A Bia esticou o barbante e falou, bem baixinho:
— Está me ouvindo?
A Clara arregalou os olhos.
— Estou!
A conversa
Elas ficaram ali, cada uma de um lado do muro, conversando pelo telefone de copo.
A Clara contou que tinha vindo de outra cidade, que sentia saudade da casa antiga, mas que a casa nova tinha um quintal bonito.
A Bia contou da goiabeira, da bicicleta rosa e do cachorro do vizinho, que latia de manhã.
A Clara riu.
E a Bia percebeu que não tinha precisado saber o que falar.
Era só começar.
O fim da tarde
O céu foi escurecendo.
Do quintal da Bia, via-se o laranja do sol indo embora, e um vaga-lume apareceu entre as plantas.
— Bia! Hora do banho! — chamou a mãe.
A Bia ficou meio triste.
— Eu preciso ir. Mas amanhã a gente conversa de novo?
— Amanhã eu venho aqui no muro, depois da escola — disse a Clara.
— Eu também.
As duas sorriram.
A noite
Naquela noite, a Bia deitou na cama, com a janela aberta.
Do outro lado do muro, a luz do quarto da Clara estava acesa.
Lá do alto, as estrelas começaram a aparecer.
A Bia pensou na Clara, no telefone de copo, na boneca de pano.
Pensou em como aquilo que parecia difícil tinha sido simples.
E, devagarzinho, adormeceu.
No dia seguinte, o telefone de copo estava pendurado no muro, esperando.
O Que Achou da Historinha?
Toque nas estrelas para avaliar
O que achou desta história?
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!



