O Rei Sapo ou o Fiel Henrique

Nos tempos antigos, quando desejar ainda adiantava alguma coisa, vivia um rei que tinha filhas lindas.
A mais nova era tão bonita que até o sol, que já viu tudo o que existe, se admirava toda vez que batia no rosto dela.
Perto do castelo tinha um bosque escuro e, no meio do bosque, debaixo de uma tília velha, um poço.
Nos dias quentes, a princesa ia até lá.
A bola de ouro
Ela levava sempre o mesmo brinquedo: uma bola de ouro.
Jogava a bola para cima, deixava ela cair na mão, jogava de novo. Era a coisa preferida dela no mundo inteiro.
Numa tarde, a bola escapou dos dedos.
Bateu na beirada de pedra, quicou, e caiu dentro do poço.
A princesa se debruçou. A água era tão funda que não dava para ver o fundo.
E ela começou a chorar.
A voz do poço
— Por que você está chorando assim, princesa? — disse uma voz. — Até uma pedra teria pena de você.
Ela olhou em volta e viu um sapo, grandão e feio, com a cabeça de fora d'água.
— Estou chorando por causa da minha bola de ouro, que caiu no poço.
— Eu posso buscar — disse o sapo. — Mas o que você me dá em troca?
— O que você quiser! Minhas roupas, minhas pérolas, a minha coroa.
O sapo balançou a cabeça.
— Não quero nada disso. Eu quero outra coisa: quero que você goste de mim e me deixe ser seu companheiro. Sentar à sua mesa, comer do seu pratinho, beber do seu copo e dormir na sua caminha. Prometa isso e eu mergulho agora mesmo.
A promessa fácil de fazer
A princesa olhou para aquele bicho e pensou: que ideia mais boba.
E pensou também uma coisa que ela não disse em voz alta: um sapo não sai de dentro de um poço para ir morar em castelo. Ele fica no charco, com os outros sapos.
Então ela prometeu.
— Prometo. Traz a minha bola.
O sapo mergulhou e voltou logo com a bola de ouro na boca. Subiu na beirada de pedra, segurou a bola entre as patinhas e empurrou para a grama.
A princesa pegou a bola, gritou de alegria e saiu correndo para o castelo.
— Espera! — gritou o sapo. — Me leva! Eu não corro como você!
Ela nem olhou para trás.
A batida na porta
No dia seguinte, a família toda estava jantando no salão quando se ouviu um barulho na escada de mármore.
Plap, plap, plap.
Alguma coisa molhada subindo os degraus.
Depois bateram na porta:
— Filha mais nova do rei! Abre a porta para mim!
Ela foi ver quem era. Quando viu o sapo, bateu a porta com força e voltou para a mesa, branca feito papel.
O rei percebeu o susto.
— O que foi? Tem um gigante aí fora querendo te levar?
— Não é gigante. É um sapo nojento.
— E o que um sapo quer com você?
E aí ela teve que contar.
Contou do poço, da bola de ouro e da promessa.
O que o rei disse
O rei ouviu tudo até o fim.
Depois disse uma frase só:
— Quem promete tem que cumprir. Vai lá e abre a porta.
A princesa abriu, de má vontade.
O sapo entrou pulando e foi até o pé da cadeira dela.
— Me põe na mesa, do seu lado.
Ela olhou para o pai. O pai fez que sim com a cabeça.
Ela pôs.
O jantar
O sapo pediu que ela empurrasse o pratinho de ouro para perto, e comeram os dois do mesmo prato, ele com gosto e ela sem nenhum.
Cada pedacinho descia entalado na garganta dela.
Quando terminou, o sapo disse:
— Agora estou cansado. Me leva para o seu quarto e arruma a sua caminha de seda, que a gente vai dormir.
A princesa começou a chorar de novo. Não queria encostar naquele bicho gelado e molhado.
Mas o rei ficou bravo.
— Quem ajudou você na hora do aperto não pode ser desprezado depois.
O canto do quarto
Ela pegou o sapo com dois dedos, subiu a escada e largou o bicho num canto do quarto.
Depois deitou.
Mas, quando estava quase dormindo, ouviu a vozinha:
— Eu estou cansado. Eu quero dormir bem, igual a você. Me põe na sua cama, senão eu vou contar ao seu pai.
A princesa ficou uma fera.
Levantou, pegou o sapo e — bufando de raiva — pôs ele no canto do travesseiro, o mais longe que dava do rosto dela.
— Pronto. Agora dorme, e me deixa em paz.
E aí se virou para o outro lado e dormiu.
As três noites
Na noite seguinte, ele voltou.
E, na terceira noite, a princesa, que a essa altura já tinha se acostumado à companhia, fez uma coisa que ela mesma achou estranha: pôs o sapo no travesseiro sem reclamar, deu boa noite e ainda passou o dedo de leve na cabeça dele, do jeito que se faz com bicho de estimação.
E dormiu.
De manhã
Quando ela acordou, no lugar do sapo tinha um moço.
Um príncipe, com olhos bonitos, sentado na beirada da cama, olhando para ela.
Ele contou a história dele: uma bruxa má tinha jogado nele um feitiço, e ele estava preso na forma de sapo, dentro daquele poço, esperando que alguém aguentasse dormir três noites ao lado dele sem sentir nojo.
— Você podia ter me deixado lá — disse ele. — Você bem que tentou.
A princesa ficou vermelha até a orelha.
O Fiel Henrique
Naquela manhã, chegou na frente do castelo uma carruagem puxada por oito cavalos brancos.
Quem vinha em pé na parte de trás da carruagem era o Henrique, o criado do príncipe.
O Henrique tinha ficado tão triste quando o patrão virou sapo que mandou pôr três argolas de ferro em volta do próprio peito, para o coração não arrebentar de tristeza.
O príncipe e a princesa subiram na carruagem, e ela partiu para o reino dele.
No meio do caminho, ouviu-se um estalo forte atrás deles.
CRAC!
O príncipe levou um susto.
— Henrique, a carruagem está quebrando!
— Não, meu senhor — respondeu o criado. — É uma argola do meu peito que arrebentou, porque a tristeza acabou.
E, mais adiante, estalou outra.
E, mais adiante ainda, a terceira.
A cada estalo, o príncipe olhava para trás achando que a carruagem tinha quebrado.
Era só o ferro do peito de um amigo indo embora, pedaço por pedaço.
Para quem lê para a criança
Este é o primeiro conto do livro dos Irmãos Grimm, e está nesse lugar desde a primeira edição, de 1812. No Brasil, muita gente procura por ele como O Príncipe Sapo.
Vale reparar em duas coisas na hora de conversar sobre a história.
A primeira é que a princesa não é uma menina exemplar: ela promete achando que não vai precisar cumprir, tenta escapar e só cumpre porque o pai manda. A história não a castiga por isso, mas também não deixa passar.
A segunda é o final, que quase ninguém conta: as três argolas do Fiel Henrique. O conto acaba não com o casamento, mas com a alegria de um amigo que sofreu em silêncio o tempo todo.
Se quiser ler o conto completo com a criança, o Livris tem O Rei Sapo dos Irmãos Grimm em tradução nova, para ler online ou baixar em PDF e ePub. São nove páginas, mais ou menos sete minutos de leitura, e ele faz parte de um volume com quinze contos dos Grimm. Lá o final é o da edição de 1857, em que a princesa se irrita e atira o sapo contra a parede: vale avisar a criança, porque é diferente do que ela leu aqui.
Este conto é dos Irmãos Grimm, da Alemanha, publicado em 1812. Em todas as edições, inclusive na de 1857, a princesa se irrita e atira o sapo contra a parede, e é aí que ele vira príncipe. Esta versão adota o final de um conto irmão dos Grimm, O Príncipe Sapo, de 1815, em que o sapo dorme três noites ao lado dela.
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