O Rei Midas e o Toque de Ouro

Há muito tempo, numa terra antiga chamada Frígia, onde hoje fica a Turquia, havia um rei chamado Midas.
Ele tinha um palácio grande, um jardim de roseiras que era o mais bonito do reino, uma filha pequena de quem gostava mais do que de tudo… e uma ideia fixa na cabeça.
Midas achava que nunca tinha ouro suficiente.
Ele passava as tardes no porão do tesouro, contando moeda, pesando barra, passando a mão nos vasos dourados. Quando terminava de contar, começava a contar de novo.
O hóspede perdido
Uma manhã, os jardineiros encontraram um velhinho dormindo no meio das roseiras.
Era Sileno, um velho amigo do deus Dionísio, que tinha se perdido do grupo na noite anterior.
Midas podia ter mandado expulsar o homem. Mas não fez isso.
Levou o velho para dentro, deu comida, deu cama e cuidou dele por dez dias, com festa e música. Depois mandou dois soldados acompanharem Sileno de volta até Dionísio.
O deus ficou muito contente com aquilo.
E quis retribuir.
O pedido
— Peça o que quiser — disse Dionísio. — Qualquer coisa.
O coração de Midas deu um pulo.
Ele nem precisou pensar, porque a resposta já morava nele havia anos.
— Eu quero que tudo o que eu tocar vire ouro.
Dionísio ficou um tempo calado.
— Tem certeza? — perguntou ele. — Pensa direito.
— Tenho toda a certeza do mundo.
— Então está feito — disse o deus. E, pelo jeito como ele falou, dava para perceber que não estava nada satisfeito com aquela escolha.
A manhã mais feliz
O dom valia para tudo o que ele tocasse com a mão.
No dia seguinte, Midas acordou e esticou a mão, meio sem acreditar, para o pé da cama.
A madeira virou ouro maciço.
Ele deu um grito de alegria. Saiu correndo pelo palácio, tocando em tudo.
Tocou na maçaneta: ouro. Na cadeira: ouro. Na cortina, que ficou dourada e dura, sem balançar mais. Nas estátuas do corredor, no corrimão da escada, no batente da porta.
Desceu ao jardim e foi passando a mão nas roseiras, uma por uma.
Cada rosa virava uma joia.
Ele parou para cheirar uma delas e não sentiu cheiro nenhum. Rosa de ouro não tem perfume.
Midas achou graça e seguiu em frente. Estava ocupado demais para reparar naquilo.
O almoço
Lá pelo meio-dia, ele sentou à mesa, faminto de tanto correr.
Os criados serviram pão quente, maçãs, uvas, queijo, carne assada e uma jarra de água.
Midas pegou o pão.
E o pão virou uma pedra dourada na mão dele.
Ele pegou um cacho de uvas. Virou um enfeite de ouro, duro feito pedra.
Levou a jarra à boca, e a água, ao encostar nos lábios dele, endureceu numa barra brilhante.
Midas olhou para a mesa cheia de comida que ele não podia comer.
E entendeu.
A filha
Foi nessa hora que a filha dele entrou correndo no salão.
Ela tinha visto as roseiras do jardim e estava chorando, com uma rosa dura na mão.
— Pai, as flores! Elas ficaram frias! Elas não cheiram mais!
Midas se levantou de um pulo.
— Não chega perto! — gritou ele. — Não…
Mas a menina já estava correndo para o colo dele, do jeito que ela fazia todo dia da vida dela.
E, quando ela abraçou o pai, virou uma estátua de ouro.
O salão silencioso
O rei ficou ali, parado, abraçado numa estátua fria que, um segundo antes, era a coisa mais quente do mundo.
O palácio inteiro brilhava.
Tinha ouro no chão, ouro na parede, ouro na mesa, ouro no jardim.
E Midas, no meio de tudo aquilo, era o homem mais pobre que já existiu.
E o rei chorou, encostado naquele ouro todo.
O pedido de volta
Naquela mesma noite, Midas foi procurar Dionísio.
E fez uma coisa que ele nunca tinha feito na vida: pediu para tirarem dele uma riqueza.
— Me tire esse dom — disse ele, ajoelhado. — Eu não quero mais. Eu estava errado.
Dionísio não riu dele nem disse "eu avisei".
— Vá até o rio Pactolo — disse o deus. — Entre na água e lave as mãos. O rio leva embora o que você pediu.
O rio
Midas atravessou a noite inteira andando e chegou ao rio de madrugada.
Entrou na água gelada e lavou as mãos, esfregando bem, até os dedos ficarem vermelhos.
E, enquanto ele lavava, uma poeirinha dourada foi saindo das mãos dele e descendo pelo leito do rio.
Dizem que, desde aquele dia, a areia daquele rio tem pontinhos de ouro.
Quando Midas saiu da água, tocou de leve numa pedra da margem.
A pedra continuou pedra.
A volta para casa
Ele encheu um jarro com a água do rio e voltou correndo para o palácio.
Jogou a água na estátua da filha.
O ouro foi desaparecendo devagar, como neve derretendo, e a menina voltou a ser menina, quentinha, um pouco tonta, sem entender direito por que o pai estava chorando tanto e apertando ela daquele jeito.
Depois ele saiu pelo jardim, jogando água em cada roseira, até o perfume voltar.
O rei depois
Midas continuou sendo rei por muitos anos.
Mas não voltou mais ao porão do tesouro para contar moeda.
Passou a ficar as tardes no jardim, com a filha, cuidando das roseiras, que ele regava com a própria mão.
E, quando alguém elogiava o ouro do palácio, ele dizia sempre a mesma frase:
— Ouro não alimenta ninguém, não cheira a nada e não abraça de volta.
Este mito vem da Grécia antiga e foi contado pelo poeta romano Ovídio há cerca de dois mil anos (nele o deus aparece com o nome romano, Baco). No mito antigo, tudo o que Midas tocava virava ouro, inclusive a comida e a bebida — mas ele não tinha filha nenhuma na história. A menina e as rosas de ouro foram acrescentadas pelo escritor americano Nathaniel Hawthorne, por volta de 1851, e viraram a parte mais lembrada.
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