O Porco do Pijama Azul

Na Fazenda Recanto Feliz, quando o sol se escondia atrás das montanhas e pintava o céu de roxo escuro, um silêncio gostoso tomava conta de tudo. As vacas paravam de mugir e se deitavam na grama fresca. As galinhas se aninhavam em seus poleiros, escondendo os bicos debaixo das asas. O cachorro Duque já estava roncando em sua casinha.
Tudo parecia dormir. Tudo, menos um morador do chiqueiro número três.
Pudim era um porquinho diferente. Ele não gostava de dormir cedo. Ele achava que a noite era muito comprida para se passar apenas de olhos fechados. Pudim tinha uma pele cor-de-rosa, orelhas que caíam sobre os olhos quando ele corria e um rabinho enrolado que parecia uma mola. Mas o que tornava Pudim realmente único era o seu tesouro mais precioso: um pijama de flanela azul-escuro, coberto de estampas de luas prateadas e cometas amarelos.
Para qualquer um, aquilo era apenas um pijama quentinho para as noites de inverno. Mas para Pudim, aquele era o uniforme oficial da “Patrulha da Imaginação”.
Naquela noite de sexta-feira, a Mamãe Porca bocejou e ajeitou a palha. — Vamos, Pudim. Feche os olhinhos. Amanhã é dia de rolar na lama bem cedo. — Já vou, mamãe! — sussurrou Pudim. — Só preciso… checar os perímetros.
Assim que a respiração da mamãe ficou pesada e ritmada, Pudim entrou em ação. Ele foi até o canto onde escondia seu pijama debaixo de um monte de feno limpo. Com um movimento solene, ele vestiu a calça. Depois, abotoou a camisa. Clique. Clique. Clique.
No momento em que o último botão foi fechado, a magia aconteceu.
As paredes de madeira do chiqueiro desapareceram. O cheiro de terra molhada sumiu. O teto de telhas velhas se abriu e revelou um universo infinito, cheio de galáxias espirais e nebulosas coloridas.
Pudim não era mais um porquinho na fazenda. Ele era o Capitão Pudim, comandante da Nave Estelar “Suína-1”. E ele tinha uma missão urgente.
— Computador de Bordo — disse Pudim, falando com uma velha lata de milho vazia. — Qual é a nossa situação?
Ele imaginou a lata respondendo com uma voz robótica: “Alerta, Capitão! O Planeta dos Sonhos Perdidos está sendo atacado pelo Terrível Devorador de Sonecas. Precisamos recuperar o Cristal do Descanso antes que ele acorde todas as crianças do universo!”
Pudim ajeitou a gola do pijama azul. — Ativar propulsores de dobra! — gritou ele baixinho.
Ele subiu em cima do cocho de comida (que agora era o painel de controle da nave) e deu um salto. Na gravidade zero da sua imaginação, aquele pulo foi gigantesco. Ele flutuou pelo espaço sideral do chiqueiro.
A primeira parada foi o Cinturão de Asteroides de Abóbora. Na realidade, eram apenas algumas abóboras que o fazendeiro tinha deixado empilhadas para o dia seguinte. Mas para Pudim, eram rochas espaciais gigantescas que giravam perigosamente.
— Cuidado, piloto! — gritou ele, desviando para a esquerda e para a direita. Vuuuush! Zuuuum! Ele fez manobras incríveis. Passou por baixo de uma abóbora gigante e saltou por cima de uma abobrinha menor. Sua nave era rápida e ágil. O pijama azul brilhava, criando um escudo de energia que protegia o Capitão de qualquer impacto.
Depois de atravessar o cinturão, Pudim pousou no Planeta Cinzento. O chão era macio e poeirento. (Era o canto do chiqueiro onde havia serragem). Lá, ele encontrou o vilão.
O Terrível Devorador de Sonecas era, na verdade, um espantalho velho que o fazendeiro guardava no canto do celeiro. Com a sombra da lua, ele parecia um monstro com braços longos e dedos de palha.
— Devolva o Cristal do Descanso! — ordenou o Capitão Pudim, estufando o peito. O monstro não se mexeu, mas na cabeça de Pudim, ele soltou uma gargalhada maléfica. “Jamais, porquinho! Vou fazer barulho a noite toda e ninguém vai dormir!”
Pudim sabia que não podia usar a força bruta. Um herói de verdade usa a esperteza. Ele olhou para o seu cinto de utilidades (um pedaço de corda amarrado na cintura). — Vou usar o Raio Silenciador de Ninar!
Pudim pegou uma espiga de milho seca que estava no chão. Ele apontou para o espantalho e começou a cantarolar uma canção de ninar muito antiga, que sua avó lhe ensinara. — Boi, boi, boi… boi da cara preta…
A música funcionou como um feitiço. O “raio” atingiu o monstro. O espantalho pareceu ficar mais mole. Os braços caíram. O vilão estava com sono! Pudim correu, desviando das pernas de palha, e alcançou o objeto brilhante que estava aos pés do monstro.
Era o Cristal do Descanso. Na verdade, era apenas um pedaço de vidro polido que brilhava com o reflexo da lua, mas para Pudim, era a jóia mais linda da galáxia. Ela pulsava com uma luz azulada, calma e serena.
— Eu peguei! — celebrou Pudim.
Com o cristal seguro em suas patas, ele correu de volta para a Nave Suína-1. — Decolar! Vamos voltar para a Base Terra!
A viagem de volta foi tranquila. Pudim navegou pelas estrelas, sentindo suas pálpebras ficarem pesadas. A adrenalina da aventura estava passando, e o efeito do Cristal do Descanso começava a funcionar. O pijama azul, que antes parecia uma armadura de energia, agora voltava a ser apenas um tecido macio e quentinho, abraçando seu corpo cansado.
A nave aterrissou suavemente no monte de palha ao lado da Mamãe Porca. As luzes do painel se apagaram. O universo infinito encolheu e voltou a ser o teto de madeira conhecido e seguro.
Pudim tirou o “capacete” (que não existia) e escondeu o Cristal (o caco de vidro) em um lugar seguro, para proteger o sono de todos na fazenda.
Ele se deitou. O coraçãozinho, que antes batia rápido de emoção, agora desacelerava no ritmo calmo da noite. — Missão cumprida, Capitão — sussurrou ele para si mesmo, dando um longo bocejo.
Mamãe Porca se mexeu durante o sono e trouxe Pudim para mais perto, aquecendo-o. Ele se sentiu o porquinho mais corajoso e feliz do mundo. Ele sabia que, na noite seguinte, o pijama azul estaria lá, pronto para levá-lo ao fundo do mar, ao topo de uma montanha ou ao centro de um vulcão.
Mas agora… agora era hora de dormir. E assim, o grande herói do espaço, o destemido Porco do Pijama Azul, fechou os olhos e sonhou com estrelas de milho e rios de lama de chocolate.
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