O Menino que Queria Ver o Sono Chegar

4 min de leituraHistorinha para dormir
O Menino que Queria Ver o Sono Chegar
Ads

Tomás tinha uma dúvida que não saía da cabeça dele.

Todo dia era a mesma coisa: ele deitava, ficava um tempo pensando nas coisas, e depois, de repente, já era de manhã.

Mas onde ficava o meio?

Onde ficava o exato momento em que a pessoa dorme?

— Mãe. Como é que a gente sabe a hora que dormiu?

A mãe pensou.

— Não sabe, filho. Ninguém sabe.

— Alguém já viu?

— Acho que ninguém nunca viu.

Tomás ficou impressionado. Existia uma coisa que acontecia com todo mundo, todos os dias, e ninguém nunca tinha visto.

Ele resolveu que ia ser o primeiro.

A primeira tentativa

Naquela noite, Tomás deitou de costas, bem reto, e ficou de olho aberto no teto.

O plano era simples: ficar prestando muita atenção. Quando o sono chegasse, ele ia perceber.

Ele prestou atenção no ventilador girando.

Prestou atenção no barulho da televisão baixinha na sala.

Prestou atenção num carro que passou na rua e foi sumindo, vuuuum.

Prestou muita atenção mesmo.

E aí era de manhã.

— Ah, não! — ele disse, sentando na cama. — De novo!

A segunda tentativa

Na noite seguinte, Tomás mudou a estratégia.

Ele achou que o problema era ficar deitado confortável. Então deitou meio torto, com o pé pra fora do lençol, para não ficar gostoso demais.

Ficou contando de um em um, para se manter ligado.

Trinta e dois.

Trinta e três.

Trinta e qua…

E aí era de manhã.

O conselho do irmão

No café, Tomás contou o problema para o irmão mais velho, o Rafa, que tinha doze anos e achava que sabia tudo.

O Rafa deu uma risada.

— Isso é impossível, mano.

— Por quê?

— Porque, pra você ver o sono chegar, você tem que estar acordado. E, quando o sono chega, você não tá mais acordado. — Ele mordeu o pão. — É tipo tentar ver a própria nuca.

Tomás não gostou dessa resposta. Ele sabia mexer o pescoço. Nuca ele quase via.

A terceira tentativa

Na terceira noite, Tomás foi mais esperto.

Ele decidiu descrever tudo o que sentia, baixinho, para não perder nada.

Ads

— Agora eu tô acordado — ele sussurrou. — Agora eu ainda tô acordado. Agora eu continuo acordado.

Ele foi falando assim um tempão.

— Agora eu tô acordado, mas o braço tá pesado.

Aquilo era novidade. O braço estava mesmo pesado, como se alguém tivesse colocado um travesseiro em cima.

— Agora a perna também.

E era verdade. E a perna estava quentinha.

— Agora eu tô ouvindo a geladeira lá da cozinha.

Ele nunca tinha reparado que a geladeira fazia um barulhinho, baixinho, igual a alguém respirando.

— Agora o meu olho tá fechando sozinho, mas eu abri de novo.

O quase

E então Tomás percebeu uma coisa.

Os pensamentos dele estavam ficando esquisitos.

Ele estava pensando no cachorro da vizinha, e do nada o cachorro estava andando dentro da escola. E a professora era a mãe dele. E isso parecia completamente normal.

Aí ele se assustou, acordou um pouquinho e pensou: "opa, quase."

Tentou de novo.

E de novo os pensamentos foram se desmanchando. Uma coisa virava outra sem pedir licença. O quarto ia ficando mais longe. O barulho da geladeira ia ficando mais fundo.

Tomás percebeu que estava chegando perto. Bem perto mesmo.

E foi aí que ele entendeu.

Não dava para ver o sono chegar. Dava para sentir o sono chegar.

O que Tomás descobriu

Na manhã seguinte, ele contou para a mãe, muito sério, com a boca cheia de pão:

— Mãe. Eu descobri.

— Descobriu o quê?

— Que o sono não chega de uma vez. Ele chega aos pedaços.

A mãe parou de mexer o café.

— Primeiro fica pesado o braço. Depois a perna. Depois a gente escuta as coisas mais longe. E aí, no fim, os pensamentos começam a virar bobagem. Aí é quando é.

A mãe ficou olhando para ele.

— Sabe que eu nunca tinha pensado nisso?

— Ninguém pensa — disse Tomás, dando de ombros. — Todo mundo dorme antes.

De noite

Naquela noite, Tomás não tentou mais pegar o sono.

Ele só deitou e foi conferindo, como quem confere se tem tudo dentro da mochila.

O braço estava pesado. Conferido.

A perna estava quentinha. Conferida.

A geladeira da cozinha estava fazendo aquele barulhinho de respiração. Conferido.

E aí ele reparou que estava pensando num elefante que trabalhava numa padaria, e achou isso muito normal, e não se assustou dessa vez.

Só deixou.

Ads

O Que Achou da Historinha?

Toque nas estrelas para avaliar

O que achou desta história?

Compartilhe a Historinha:

Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!

Historinhas Relacionadas