O Menino que Queria Ver o Sono Chegar

Tomás tinha uma dúvida que não saía da cabeça dele.
Todo dia era a mesma coisa: ele deitava, ficava um tempo pensando nas coisas, e depois, de repente, já era de manhã.
Mas onde ficava o meio?
Onde ficava o exato momento em que a pessoa dorme?
— Mãe. Como é que a gente sabe a hora que dormiu?
A mãe pensou.
— Não sabe, filho. Ninguém sabe.
— Alguém já viu?
— Acho que ninguém nunca viu.
Tomás ficou impressionado. Existia uma coisa que acontecia com todo mundo, todos os dias, e ninguém nunca tinha visto.
Ele resolveu que ia ser o primeiro.
A primeira tentativa
Naquela noite, Tomás deitou de costas, bem reto, e ficou de olho aberto no teto.
O plano era simples: ficar prestando muita atenção. Quando o sono chegasse, ele ia perceber.
Ele prestou atenção no ventilador girando.
Prestou atenção no barulho da televisão baixinha na sala.
Prestou atenção num carro que passou na rua e foi sumindo, vuuuum.
Prestou muita atenção mesmo.
E aí era de manhã.
— Ah, não! — ele disse, sentando na cama. — De novo!
A segunda tentativa
Na noite seguinte, Tomás mudou a estratégia.
Ele achou que o problema era ficar deitado confortável. Então deitou meio torto, com o pé pra fora do lençol, para não ficar gostoso demais.
Ficou contando de um em um, para se manter ligado.
Trinta e dois.
Trinta e três.
Trinta e qua…
E aí era de manhã.
O conselho do irmão
No café, Tomás contou o problema para o irmão mais velho, o Rafa, que tinha doze anos e achava que sabia tudo.
O Rafa deu uma risada.
— Isso é impossível, mano.
— Por quê?
— Porque, pra você ver o sono chegar, você tem que estar acordado. E, quando o sono chega, você não tá mais acordado. — Ele mordeu o pão. — É tipo tentar ver a própria nuca.
Tomás não gostou dessa resposta. Ele sabia mexer o pescoço. Nuca ele quase via.
A terceira tentativa
Na terceira noite, Tomás foi mais esperto.
Ele decidiu descrever tudo o que sentia, baixinho, para não perder nada.
— Agora eu tô acordado — ele sussurrou. — Agora eu ainda tô acordado. Agora eu continuo acordado.
Ele foi falando assim um tempão.
— Agora eu tô acordado, mas o braço tá pesado.
Aquilo era novidade. O braço estava mesmo pesado, como se alguém tivesse colocado um travesseiro em cima.
— Agora a perna também.
E era verdade. E a perna estava quentinha.
— Agora eu tô ouvindo a geladeira lá da cozinha.
Ele nunca tinha reparado que a geladeira fazia um barulhinho, baixinho, igual a alguém respirando.
— Agora o meu olho tá fechando sozinho, mas eu abri de novo.
O quase
E então Tomás percebeu uma coisa.
Os pensamentos dele estavam ficando esquisitos.
Ele estava pensando no cachorro da vizinha, e do nada o cachorro estava andando dentro da escola. E a professora era a mãe dele. E isso parecia completamente normal.
Aí ele se assustou, acordou um pouquinho e pensou: "opa, quase."
Tentou de novo.
E de novo os pensamentos foram se desmanchando. Uma coisa virava outra sem pedir licença. O quarto ia ficando mais longe. O barulho da geladeira ia ficando mais fundo.
Tomás percebeu que estava chegando perto. Bem perto mesmo.
E foi aí que ele entendeu.
Não dava para ver o sono chegar. Dava para sentir o sono chegar.
O que Tomás descobriu
Na manhã seguinte, ele contou para a mãe, muito sério, com a boca cheia de pão:
— Mãe. Eu descobri.
— Descobriu o quê?
— Que o sono não chega de uma vez. Ele chega aos pedaços.
A mãe parou de mexer o café.
— Primeiro fica pesado o braço. Depois a perna. Depois a gente escuta as coisas mais longe. E aí, no fim, os pensamentos começam a virar bobagem. Aí é quando é.
A mãe ficou olhando para ele.
— Sabe que eu nunca tinha pensado nisso?
— Ninguém pensa — disse Tomás, dando de ombros. — Todo mundo dorme antes.
De noite
Naquela noite, Tomás não tentou mais pegar o sono.
Ele só deitou e foi conferindo, como quem confere se tem tudo dentro da mochila.
O braço estava pesado. Conferido.
A perna estava quentinha. Conferida.
A geladeira da cozinha estava fazendo aquele barulhinho de respiração. Conferido.
E aí ele reparou que estava pensando num elefante que trabalhava numa padaria, e achou isso muito normal, e não se assustou dessa vez.
Só deixou.
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