O guarda-roupa das mil portas

Na casa da Vovó Elza, o tempo parecia passar mais devagar. Era uma daquelas casas antigas, com assoalhos de madeira que rangiam como se estivessem contando segredos e janelas altas que deixavam o sol entrar em fatias douradas.
Clara, uma menina de nove anos com olhos cor de mel e uma curiosidade maior que sua altura, adorava explorar a casa. Ela já conhecia o porão (onde guardavam potes de geleia) e a biblioteca (cheia de livros que cheiravam a baunilha). Mas havia um quarto no final do corredor do segundo andar que estava sempre fechado.
— Aquele é o Quarto da Costura — dizia a Vovó Elza. — Mas a chave se perdeu há muito tempo.
Porém, em uma tarde chuvosa de domingo, enquanto Clara brincava de correr com seu gato, o Félix, ela notou algo brilhando no tapete. Era uma chave. Uma chave antiga, pesada e prateada, com a cabeça em forma de estrela.
O coração de Clara disparou. Ela sabia exatamente onde aquela chave se encaixava.
Na ponta dos pés, ela caminhou até a porta proibida. Clac. A chave girou suavemente. A maçaneta cedeu. O quarto estava empoeirado e cheio de caixas, mas, encostado na parede do fundo, majestoso como um rei, estava O Guarda-Roupa.
Não era um armário comum. Ele era feito de madeira escura, polida e entalhada com desenhos de dragões, fadas, planetas e oceanos. Parecia vibrar, emitindo um zumbido baixinho, como uma abelha dormindo.
Clara segurou os puxadores de bronze e puxou. Ela esperava ver casacos de pele com cheiro de naftalina. Esperava ver vestidos antigos. Mas, quando as portas se abriram, Clara não viu o fundo do armário.
Ela viu um corredor.
Era um corredor infinito, com um teto abobadado pintado como o céu noturno. O chão era de mármore xadrez. E, em ambas as paredes, até onde a vista alcançava, havia portas. Centenas, milhares de portas. Portas pequenas, portas gigantes, portas redondas, portas triangulares.
— Uau… — sussurrou Clara. O gato Félix, corajoso, entrou no corredor e miou, como se dissesse: “Você vem ou não?”.
Clara entrou. A primeira coisa que notou foi que cada porta tinha um cheiro e uma temperatura diferente.
A Porta de Algodão-Doce
A primeira porta que chamou a atenção de Clara era cor-de-rosa e fofinha, como se fosse forrada de pelúcia. A maçaneta parecia um pirulito. Clara girou a maçaneta e abriu.
Uma brisa morna e doce atingiu seu rosto. — Oh! Diante dela, estendia-se o Mundo da Doçura Eterna. As nuvens eram feitas de algodão-doce rosa e azul. As árvores tinham troncos de chocolate e folhas de hortelã. Um rio de suco de laranja corria borbulhante entre pedras de açúcar. Pequenos ursinhos de goma andavam de um lado para o outro, carregando cestas de morangos gigantes.
Clara deu um passo para dentro e pegou uma folha de hortelã. Ela colocou na boca. Era deliciosa! Ela riu, correu um pouco pela grama de chiclete e viu que o sol era uma grande moeda de caramelo. Mas ela sabia que não podia ficar muito tempo, ou ficaria com dor de barriga. Ela acenou para os ursinhos e voltou para o corredor.
A Porta do Inverno Cintilante
Mais à frente, havia uma porta feita de cristal transparente, fria ao toque. Clara podia ver sua própria respiração virar fumaça perto dela. Ela empurrou a porta.
Imediatamente, o som do silêncio a envolveu. Era o Reino do Inverno de Diamante. Tudo ali era feito de gelo e neve, mas não era um frio triste. Era um frio brilhante. Flocos de neve do tamanho de pratos caíam suavemente, e cada um tocava uma nota musical quando atingia o chão. Plim… plom…
No centro de um lago congelado, pinguins usando cachecóis coloridos patinavam fazendo piruetas. Uma aurora boreal verde e roxa dançava no céu. Clara sentiu uma paz imensa. Ela não sentia frio, apenas frescor. Ela assistiu ao balé dos pinguins por alguns minutos, encantada com a música que a própria neve compunha. — É lindo… — sussurrou ela. — Mas ainda há tantas portas!
A Porta de Cabeça para Baixo
Clara e Félix continuaram andando pelo corredor mágico. Havia uma porta que ficava no teto do corredor! Clara olhou para cima. Havia uma escada de corda pendurada. Curiosa, ela subiu e abriu a porta no teto.
Ela colocou a cabeça para dentro e ficou tonta. Era o Mundo Invertido. Lá, o céu era de grama e o chão era de nuvens. As casas eram construídas com o telhado para baixo. Pássaros nadavam no ar e peixes voavam nas árvores. Uma menina que passava caminhando pelas nuvens olhou para baixo (ou para cima?) e disse: — Olá! Cuidado para não cair para o céu!
Clara riu tanto que quase soltou a escada. Era um mundo onde a lógica tirava férias e a imaginação era a lei.
O Guardião das Chaves
Clara poderia ter ficado ali para sempre. Havia a Porta da Floresta dos Sussurros, a Porta do Oceano de Estrelas, a Porta dos Dinossauros Amigáveis. Mas, lá no fundo do corredor, ela viu uma poltrona de veludo. E nela, sentado, estava um senhor baixinho com óculos redondos, lendo um livro grosso.
Ele fechou o livro quando Clara se aproximou. — Olá, Clara — disse ele, com uma voz rouca e gentil.
— O senhor sabe meu nome? — perguntou ela. — Quem é o senhor? — Eu sou o Guardião das Mil Portas. Eu cuido para que os mundos não se misturem. Você gostou do passeio?
— É o lugar mais incrível que já vi! — exclamou Clara. — Eu queria morar aqui.
O Guardião sorriu e balançou a cabeça. — Você não pode morar aqui, Clara. O Guarda-Roupa é um lugar de visita. Se você ficar aqui, esquecerá quem você é no mundo real. Mas… — ele piscou um olho — …você pode levar uma chave.
O Guardião estendeu a mão. Na palma dele, havia uma chave dourada, muito pequena, que brilhava intensamente. — Esta chave não abre nenhuma dessas portas aqui — explicou ele. — Esta é a Chave da Imaginação. Com ela, você não precisa do guarda-roupa. Você pode fechar os olhos, em qualquer lugar, a qualquer hora, e criar suas próprias portas. Você pode transformar um dia de chuva em uma aventura, ou uma caixa de papelão em um castelo.
Clara pegou a chave. Ela era quente e pulsava na sua mão. — Obrigada — disse ela.
— Agora vá, antes que a Vovó Elza sinta falta dos biscoitos que estão no forno.
O Retorno
Clara correu de volta pelo corredor. As portas coloridas passavam como um borrão: rosa, azul, verde, dourado. Félix corria ao seu lado. Eles chegaram à porta de madeira do guarda-roupa e pularam para fora.
PUM!
Clara caiu sentada no chão empoeirado do quarto de costura. As portas do armário se fecharam atrás dela. Quando ela tentou abrir de novo, viu apenas casacos velhos e caixas de botões. O corredor infinito tinha sumido.
Mas, quando Clara abriu a mão, a pequena chave dourada não estava lá. Em vez disso, havia um pequeno rastro de purpurina dourada em sua pele.
— Clara! O chá está pronto! — chamou a Vovó Elza lá de baixo.
Clara desceu as escadas correndo, com um sorriso que ia de orelha a orelha. Enquanto comia o bolo de fubá da vovó, ela olhou pela janela. A chuva ainda caía, mas Clara não via mais um dia cinza. Ela via cada pingo de chuva como um diamante líquido do Reino do Inverno, e o vapor do chá como uma nuvem do Reino da Doçura.
O guarda-roupa tinha se fechado, mas a mente de Clara tinha se aberto para sempre. Ela aprendeu que o mundo é cheio de portas mágicas; a gente só precisa ter a coragem e a imaginação para girar a maçaneta.
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